Articulação de almirante para comandar marinha dos EUA escancara politização no Pentágono

O chefe de operações navais da Marinha, almirante Daryl Caudle, fala à imprensa no Panamá, em junho - Enea Lebrun - 22.jun.26/Reuters

Movimentações de Daryl Caudle antes e depois da posse do secretário de Defesa Pete Hegseth levantaram questionamentos sobre quebra de protocolos e influência política nas promoções da Marinha dos Estados Unidos.

A promoção do almirante Daryl Caudle ao comando da MNavyarinha dos Estados Unidos ganhou destaque após a divulgação de bastidores que indicam uma intensa articulação para conquistar o cargo. Segundo o The New York Times, o oficial buscou aproximação com o secretário de Defesa, Pete Hegseth, ainda antes de sua posse, em um movimento que especialistas classificaram como incompatível com a tradição de neutralidade política das Forças Armadas.

Aproximação começou antes da posse

Antes de Hegseth assumir o comando do Pentágono, Caudle ofereceu ajuda para preparar o então indicado à audiência de confirmação no Senado. Embora a oferta não tenha avançado, ela chamou atenção por envolver um oficial da ativa em uma iniciativa considerada politicamente sensível. Pouco depois da posse de Hegseth, um integrante da equipe de Caudle reforçou a articulação junto ao novo comando do Pentágono. O oficial apresentou o almirante como o candidato mais alinhado à proposta de reformulação das Forças Armadas defendida pelo secretário de Defesa.

Escolha contrariou recomendações

Apesar da movimentação, Caudle não integrava a lista de candidatos considerada prioritária pela cúpula da Marinha. Ainda assim, Hegseth ignorou as recomendações e escolheu o almirante para ocupar o posto de chefe de Operações Navais. Além disso, Caudle enfrentava uma investigação do inspetor-geral sobre declarações relacionadas ao programa de prevenção à violência sexual nas Forças Armadas. Para conduzir sua defesa, contratou o advogado Timothy Parlatore, que também havia representado Hegseth e o presidente Donald Trump.

Investigação foi encerrada

O inspetor-geral concluiu que não havia irregularidades nas declarações do almirante. Com isso, o caminho ficou livre para que sua indicação fosse confirmada e ele assumisse o comando da Marinha norte-americana. Entretanto, críticos afirmam que o episódio simboliza uma mudança no processo de promoção de oficiais sob a gestão Hegseth. Desde que assumiu o Pentágono, o secretário afastou diversos oficiais-generais e promoveu mudanças que, segundo opositores, aumentaram a influência política nas nomeações militares.

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Respostas de 2

  1. Esse caso reforça uma lição importante para qualquer governo: as nomeações para cargos estratégicos exigem extrema cautela. O presidente escolhe seus comandantes, mas não controla suas futuras decisões, posicionamentos ou influência institucional.

    No Brasil, há um exemplo semelhante. Em 2015, a presidente Dilma Rousseff nomeou o general Eduardo Villas Bôas para o comando do Exército, mesmo ele não sendo o mais antigo da lista de indicados, considerando seu perfil profissional e sua reputação. Anos depois, Villas Bôas tornou-se protagonista de episódios que geraram forte repercussão política, como a manifestação na véspera do julgamento do habeas corpus do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Posteriormente, a própria Dilma divulgou uma nota pública cobrando explicações do general sobre declarações relacionadas ao período do impeachment. Em contrapartida, Jair Bolsonaro afirmou que Villas Bôas foi um dos responsáveis por sua chegada à Presidência, enquanto o general, ao deixar o comando do Exército, agradeceu a Dilma Rousseff e ao então ministro da Defesa, Jaques Wagner, pela confiança em sua nomeação.

    Os dois casos demonstram que a escolha para cargos de alta responsabilidade deve considerar não apenas competência técnica, mas também compromisso institucional, respeito à Constituição e fidelidade aos princípios do Estado Democrático de Direito. Nomeações dessa natureza podem produzir consequências políticas de longo prazo, inclusive inesperadas para o próprio governo que as realizou.

    Quando surgem episódios em que autoridades nomeadas passam a exercer influência política própria ou adotam posições que parecem se dissociar da orientação do governo legitimamente eleito, cria-se, ao menos na percepção de parte da sociedade, a impressão de que pode existir um centro de poder paralelo ao governo constitucional. Independentemente de essa percepção corresponder ou não à realidade, ela tende a gerar questionamentos sobre a unidade de comando, a autoridade civil e o adequado funcionamento das instituições democráticas.

    Tempos tenebrosos…..

    Nota de Dilma sobre as declarações do general Villas Boas

    As declarações do general Villas Bôas, em entrevista ao jornal O Globo, exigem dele uma atitude responsável e, para tanto, é necessário que:

    1. Apresente os nomes dos “dois parlamentares de partidos de esquerda” que, segundo ele, “procuraram a assessoria parlamentar do Exército para sondar como receberíamos (o Exército sic) a decretação de um Estado de Emergência”. Se isso ocorreu é imprescindível o nome dos deputados pois que eles devem esclarecimentos ao País. Caso contrário, a responsabilidade cabe ao general e à sua assessoria parlamentar.

    2. Explique por que, se ficou preocupado, não informou as autoridades superiores, Ministro da Defesa e Presidente da República — Comandante Supremo das Forças Armadas — sobre o fato de dois integrantes do Legislativo sondarem a assessoria parlamentar do Exército sobre um ato contra a democracia, uma vez que contrário ao direito de livre manifestação? Por que não buscou esclarecer se a iniciativa dos deputados contava com respaldo da Comandante das Forças Armadas? Não respeitou a hierarquia?

    A intervenção militar contra a democracia é um golpe. A minha vida é prova do meu repúdio político e repulsa pessoal a essa etapa da história do País. Jamais pensei, avaliei, considerei, fui sondada para qualquer possibilidade ou alternativa, mesmo que remota, a esse tipo intervenção antidemocrática.

    Os golpistas são aqueles que apoiaram a nova forma de golpe, ou seja, um processo de impeachment, sem crime de responsabilidade e o meu consequente afastamento da Presidência da República.

    O Senhor General deve à República, a bem do Estado Democrático de Direito, esses esclarecimentos.

    Dilma Rousseff

    google.com/amp/s/pt.org.br/nota-de-dilma-sobre-as-declaracoes-do-general-villas-boas/%3famp=1

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