Estadão alerta para defasagem preocupante da Defesa brasileira

Imagem: Defesa Aérea e Naval (Rubens Barbosa)

 

Editorial aponta subfinanciamento, má gestão de recursos e atraso estratégico das Forças Armadas em um cenário global cada vez mais instável e armado.

 

A perturbadora defasagem da Defesa

Editorial do Estadão
O Brasil investe pouco – e, pior, investe mal. Num mundo mais instável e armado, o País acumula atraso estratégico e compromete sua capacidade de dissuasão e autonomia

A advertência do ex-comandante da Aeronáutica Carlos de Almeida Baptista Júnior, em entrevista ao Estadão, de que as Forças Armadas “não estão minimamente preparadas para o conflito moderno”, não deve ser lida como mero desabafo corporativo. É um diagnóstico que expõe um descompasso alarmante entre o País e o mundo que o cerca. A Defesa no Brasil padece de subfinanciamento crônico. Mas tão ou mais grave que a escassez de recursos é a má alocação.

A guerra na Ucrânia mostrou que drones baratos podem neutralizar equipamentos caros e que inteligência, integração e velocidade de adaptação passaram a decidir conflitos. No Oriente Médio, operações combinam tecnologia, informação e precisão em níveis inéditos. Em resposta, países de todos os continentes revisam regras fiscais e ampliam gastos, e o dispêndio militar global bate recordes.

O Brasil move-se na direção oposta. O esforço da Defesa encolheu de 1,8% do PIB no fim do século passado para algo próximo de 1% hoje. Na contramão, apenas nos últimos quatro anos, o gasto mundial saltou de 1,59% para 2,01% do PIB global, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. Ao longo dos anos o chamado “dividendo da paz” degenerou, aqui, em complacência. Hoje esse dividendo virou pó, e essa complacência, ilusão.

O Brasil, é verdade, não sofre ameaças imediatas – e mesmo as remotas são menos perigosas que as que enfrentam muitos outros países –, mas está mais ameaçado do que há 10 ou 30 anos, pelo simples fato de que hoje o mundo está mais armado e instável – e deverá estar ainda mais amanhã.

Mesmo assim, o Brasil não só gasta pouco como, o pouco que gasta, gasta mal. Enquanto países da OCDE gastam, em média, 40% com pessoal e 25% com investimentos, aqui, cerca de 80% é consumido por pessoal e uma fração residual – em torno de 5% – sobra para investimentos frequentemente contingenciados ou executados com atrasos. O resultado é um sistema que combina o pior dos mundos: escassez, rigidez e ineficiência.

A ausência de previsibilidade orçamentária, a fragmentação de projetos e a dificuldade de estabelecer prioridades impedem que recursos já limitados se traduzam em capacidade real. A dependência externa em áreas críticas, de sensores a sistemas eletrônicos, limita a autonomia decisória. A defasagem não é só quantitativa: novas fronteiras militares em ciberdefesa, espaço e inteligência permanecem subdimensionadas.

As vulnerabilidades começam a se tornar visíveis – e, num futuro não muito distante, podem se tornar existenciais. Em um cenário de competição crescente por recursos e influência, ativos estratégicos como a Amazônia e o Atlântico Sul tornam-se mais cobiçados. Ao mesmo tempo, se a guerra contemporânea ainda pode ser consumada com caças e tanques, raramente começa com eles, e sim em redes, sistemas e cadeias logísticas.

No Brasil, a distinção entre defesa internacional e segurança doméstica é cada vez mais borrada. Se Baptista Jr. tem razão em advertir que as Forças Armadas não podem ser empregadas como polícia, também é verdade que o crime organizado não pode ser equiparado à criminalidade comum. Narcomilícias que atravessam fronteiras, acumulam arsenal militar e controlam territórios (de favelas cariocas a regiões amazônicas) configuram um fenômeno híbrido: não são ameaça militar clássica, mas tampouco delinquência ordinária.

A tradição pacífica brasileira nunca dispensou capacidade de ação. Soberania sem poder é retórica. Não se trata apenas de preparo militar, mas de orientação estratégica. Países podem conviver com restrições orçamentárias, mas não com prioridades difusas e execução precária.

Defesa não se improvisa. O Brasil precisa debater seriamente um caminho para recuperar o tempo perdido em busca de Forças Armadas modernas e profissionais, com todos os ônus e bônus que essa modernização implica. Têm razão os militares em demandar mais recursos do povo que protegem. E têm razão os civis em demandar melhor governança das forças que eles financiam. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. O Brasil precisa gastar mais e gastar melhor.

Respostas de 9

  1. Poderíamos citar diversos exemplos de como esses 80% de gastos com pessoal são mal aplicados, mas citarei um: PTTC.

    Sim, PTTC. Hoje raros são os coroneis e oficiais generais que não são admitidos como PTTC no mês seguinte à passagem para a Reserva.

    Desnecessário, esse cargo serve unicamente para engordar os contracheques dos contemplados. Verdadeira sinecura.

    E citei apenas um exemplo.

  2. Os militares brasileiros já passaram por uma reestruturação recente, que ajustou carreiras e benefícios e, além disso, prevê que 70% do efetivo seja formado por temporários. Essa mudança reduz o impacto futuro das aposentadorias e pensões, tornando o sistema mais sustentável. Apesar disso, os militares continuam sendo um dos grupos com salários médios mais baixos quando comparados aos outros poderes.
    Enquanto isso, Judiciário e Legislativo concentram os chamados “supersalários”. Juízes, desembargadores, parlamentares e seus assessores recebem remunerações muito acima da média nacional, além de benefícios extras que elevam ainda mais o custo.
    Se houvesse uma reestruturação nesses poderes, especialmente no Judiciário, que é considerado um dos mais caros do mundo em proporção ao PIB, o impacto seria muito maior na geração de receita e na redução de despesas públicas.

  3. …enquanto Isso Os Soldos continuam extremamente defasados!
    Seria necessário, PELO MENOS, estender os 5% de reajuste dos civis a partir de abril também aos militares!
    Um gesto pequeno mais muito bem vindo!

  4. Temos problemas demais; muitos batalhões apenas administrativos onde sua função é responder Diex para resolver problemas que a própria instituição cria, batalhões que sua única função é formar Sd EV, batalhões especializados em formaturas e faxinas.
    Quantas vezes chega algum documento pedindo para regular o uso de ar-condicionados nas OM, racionamento de água, sem contar os meio expedientes por que não tem mais insumos para alimentar a tropa.

    O certo seria reduzir quantidade de batalhões, juntar alguns batalhões, movimentar o efetivo de carreira, fazer a roda girar, assim como também é necessário repensar o PTTC.

    No início a PF e a PRF espelharam-se nas FAA para criar as bases das suas instituições. Quem sabe seria a hora de ver o que deu certo na PF e na PRF e tentar tomar como base?

  5. NÃO ADIANTA NADA!!!

    Por exemplo, o que adiantar equipar as Polícias com viaturas Toyota Hylux, fuzis Sig Sauer, pistolas Glock.. .e pagar vencimentos de fome?

    O mesmo raciocínio com as FFAA!!!

    Pessoal, soldado FN e PQDT ganha 2.000!!!!

    VERGONHA!!!

  6. Tem que mandar pra guerra só quem ganha bem! praça não pode ir. Ganha mal e se for vai deixar a família desamparada demais. Manda pra guerra o luly, Vorcare, o Alexia, a senadora que gosta de cargos, gleisy, e os flanelinha do STF.

  7. As FA brasileiras vivem o pior dos mundos. Efetivo enorme composto por sd Ev que Não chegam a dar 20 tiros por ano. Efetivo profissional onde um grupo foi privelegiado com um gordo aumento salarial e o outro desmotivado e mau pago. Um exercito parado no tempo e preparado para uma guerra dos anos 80 que nao existe mais. Solução?! Assim como a Missão francesa teve um papel importante no inicio do Século passado, a vinda de uma Missão internacional para reestruturar o exercito seria bem vinda. E pensando em uma politica nacional de defesa, empresas como a avibras nao pode acabar.

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