Forças Armadas aceleram aposta em aeronaves não tripuladas, mas enfrentam desafios tecnológicos e de formação
As Forças Armadas brasileiras intensificaram, nos últimos meses, o investimento em drones militares, tecnologia que ganhou protagonismo nos conflitos recentes, especialmente após a Guerra da Ucrânia. Considerados relativamente baratos e capazes de gerar grande impacto operacional, esses equipamentos ampliam o alcance das ações e reduzem a exposição de tropas, mas ainda impõem desafios técnicos, de integração entre as forças e de formação de pessoal.
Segundo informações do jornalista Paulo Assad, de O Globo, a Marinha deu um passo decisivo ao inaugurar, em dezembro do ano passado, o primeiro esquadrão de drones do país. Instalado no Complexo Naval da Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, o Esquadrão de Drones Táticos de Esclarecimento e Ataque já desenvolve um drone kamikaze — que se autodestrói ao atingir o alvo — e um quadricóptero capaz de transportar e lançar explosivos.
De acordo com o capitão de Mar e Guerra Rodrigo Rodrigues, comandante da unidade, a iniciativa representa uma mudança estrutural na Força. “Vamos precisar de militares capacitados em análise de dados, eletrônica, aviônica e big data. Isso vai gerar uma grande evolução em pouco tempo”, afirmou.
Para sustentar essa transformação, a Marinha inaugurou neste mês a Escola de Drones, localizada no Centro de Instrução Almirante Sylvio de Camargo, nas proximidades do esquadrão. A proposta é que todos os fuzileiros navais passem pela unidade, aprendendo a operar os equipamentos tanto em missões de vigilância quanto em ações ofensivas. “O militar já sairá do centro de instrução sabendo pilotar drones e compreendendo as técnicas e táticas de emprego”, explicou o vice-almirante Renato Rangel, responsável pelo treinamento.
Especialistas ouvidos por O Globo destacam que o uso disseminado de drones alterou profundamente a dinâmica dos combates. Para o coronel da reserva Paulo Filho, a formação militar precisa contemplar não apenas o emprego ofensivo, mas também a proteção contra essas aeronaves. “Quase todo movimento pode ser observado em tempo real por um drone inimigo, o que exige tropas mais dispersas, camufladas e preparadas para decisões rápidas sob pressão”, avaliou.
Outro desafio apontado é a retenção de profissionais qualificados. A pesquisadora Cinthya Araújo, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), ressalta que a diversidade de tecnologias adquiridas por cada força dificulta a integração e o preparo dos militares. “Há uma transição em curso. O Brasil reagiu tardiamente à importância dos drones e agora tenta acelerar, mas precisa garantir escala de produção e pessoal suficiente para operar os sistemas”, afirmou.
O drone kamikaze desenvolvido pela Marinha, inspirado no modelo Carcará, teve testes concluídos em outubro, em Formosa (DF). Com alcance de até 5 quilômetros e autonomia de cerca de 25 minutos, o equipamento pode ter partes produzidas em impressoras 3D e utiliza uma catapulta para o lançamento, reduzindo riscos ao operador. O custo estimado varia entre R$ 10 mil e R$ 20 mil por unidade.
Projetos mais avançados também estão em andamento. Fuzileiros navais desenvolvem sistemas de inteligência artificial para permitir que drones identifiquem e ataquem alvos, enquanto o Exército, por meio do Instituto Militar de Engenharia, trabalha no conceito de “enxame de drones”, com veículos autônomos atuando de forma coordenada. O avanço da IA, no entanto, levanta questionamentos éticos sobre a redução do controle humano nas decisões de combate.
Além dos drones de pequeno porte, o Exército estuda a incorporação de modelos maiores, como o Nauru 1000c, da empresa brasileira Xmobots, que no futuro poderia transportar mísseis. Desde 2024, a Força planeja adquirir aeronaves com grande autonomia para transporte de suprimentos e missões prolongadas, embora os principais esforços ainda se concentrem nos equipamentos menores, que permitem inovação mais rápida e maior participação da indústria e da academia.
O cenário descrito por Paulo Assad, de O Globo, mostra que os drones deixaram de ser apenas ferramentas de vigilância para se tornarem elementos centrais da estratégia militar brasileira, ainda que a plena integração da tecnologia dependa da superação de desafios operacionais, tecnológicos e humanos.