II Guerra Mundial: árvores ‘voadoras’ foram arma da Finlândia contra o maior exército da Terra

ÁRVORES SUSPENSAS COMO CAMUFLAGEM NA UCRÂNIA - II GM

Felipe van Deursen
De tempos em tempos essas fotos ressurgem na internet, viralizando pelo surrealismo da imagem. Fileiras de pinheiros flutuando no ar, em alguma paisagem gélida e misteriosa.

É uma encenação teatral com alguma inspiração de “Fantasia”, o clássico da Disney? Alucinação de inteligência artificial? Ou obra de um designer gráfico entediado?

A foto é real. Fruto da engenhosidade humana, sem nenhum aparato digital, concebida em um momento delicado da história de um país pressionado pela Alemanha nazista de um lado, e pela União Soviética do outro.

Que lugar é esse?

Floresta em Kainuu, Finlândia Imagem: Getty Images

Terra da sauna, do Papai Noel, a Finlândia tem um território marcado por florestas de coníferas e uma grande planície com 180 mil lagos. Por isso mesmo, “Suomi”, nome do país em finlandês, significa “terra dos mil lagos”.

Podemos associar a Finlândia mais à Escandinávia, dadas as semelhanças econômicas e culturais com esses vizinhos. Mas o idioma tem outra origem, e a história do país tem muito em comum com a Rússia, com quem a Finlândia divide uma longa fronteira.

Helsinque está mais perto de São Petersburgo e de Tallinn, capital da ex-república soviética Estônia, do que de Estocolmo. O território finlandês já era cobiçado pelos russos há 800 anos, e em 1810 ele acabou anexado pelo grande império.

Foram mais de 100 anos de domínio da Rússia. Até que em 1917, com a Revolução Russa pegando fogo, a Finlândia declarou independência.

Em agosto de 1939, a Alemanha nazista e a União Soviética firmaram um pacto de não-agressão que estabelecia, em segredo, como as duas potências dividiriam os territórios de alguns países europeus. A Finlândia estava entre eles.

Pouco depois, a Alemanha invadiu a Polônia, no episódio que marcou oficialmente o início da Segunda Guerra Mundial. Em novembro, os soviéticos chegaram à Finlândia, começando o período de três meses que, no país, seria conhecido como Guerra do Inverno.

Sem o apoio que poderia ter vindo, mas não veio, de ingleses e franceses, os finlandeses não resistiram à invasão e em março de 1940 aceitaram a derrota. “A Finlândia pagou um preço alto pela paz, cedendo à Rússia grandes extensões de território ao longo da costa do Báltico e ao norte, e arrendando-lhes, por 30 anos, a Península de Hanko”, escreveu o historiador Martin Gilbert no livro “A Segunda Guerra Mundial” (Casa da Palavra).

Mesmo vitoriosos, as perdas dos soviéticos foram tremendas. A guerra fez cerca de 25 mil mortos finlandeses e 150 mil russos.

Devastada pela derrota e pela perda de 10% do território, a Finlândia se via em uma situação delicada naquele momento da Segunda Guerra. Alemães e soviéticos estavam avançando sobre os países bálticos e escandinavos.

No fim daquele catastrófico 1940, os nazistas, que já planejavam descumprir o pacto com os soviéticos, propuseram aos finlandeses (em segredo) entrar no comboio que invadiria a União Soviética no ano seguinte. “O recado era claro. Se Helsinque quisesse permanecer neutra, perderia a independência e provavelmente teria que lidar com uma invasão dupla da Alemanha e da Rússia”, explicou Henrik Meinander, historiador da Universidade de Helsinque, ao site “Atlas Obscura”.

Uma nova guerra. Com um aliado indigesto
A Finlândia tinha vínculos com a Alemanha. Foram os germânicos que organizaram as Forças Armadas do país, na Primeira Guerra, e seu apoio foi importante para a Finlândia conquistar a independência.

Mas uma coisa era se aliar à Alemanha. Aos nazistas era outra história, e os fascistas tinham pouca popularidade na Finlândia, então o governo não quis oficializar essa parceria.

Em 22 de junho de 1941, a Alemanha invadiu a URSS, enterrando o pacto entre os países com a Operação Barbarossa. Três dias depois, os soviéticos bombardearam a Finlândia, que, ao lado da Alemanha, declarou guerra novamente ao vizinho gigante. Era o início da Guerra da Continuação, o segundo confronto entre finlandeses e russos dentro do contexto da Segunda Guerra.

Quebrada e enfrentando um inimigo muito maior, a Finlândia precisava de artifícios mais criativos para a batalha. Em vez de gastar os tubos em materiais de camuflagem, o Exército decidiu economizar e apostar em métodos alternativos, mas que eram bem conhecidos de suas tropas.

Finlandeses já costumavam usar elementos da natureza para camuflar o que quer que fosse, tirando vantagem de suas florestas. O país apostou na tradição e contratou fotógrafos para seu esforço de propaganda.

Em 27 de junho, apenas dois dias após o início do confronto, um jovem fotógrafo chamado Osvald Hedenström apresentou uma intrincada solução. A legenda da fotografia, hoje no acervo do Arquivo Fotográfico de Guerra Finlandês, diz:

“Os finlandeses camuflaram a estrada para Raate, a cerca de 10 km da fronteira com a Rússia, com abetos suspensos no ar, porque logo na fronteira existe uma torre de observação erguida pelos russos.”

As árvores estão penduradas por cabos instalados em postes ou outras árvores. Elas serviam, portanto, para esconder a estrada e o que se passava nela, como movimento de tropas, da torre de observação soviética.

Mas, do ponto de vista da estrada, escolhido por Hedenström, elas criam uma ilusão de ótica. Uma suave dança de coníferas flutuantes que mostram a “mágica” finlandesa para peitar, pela segunda vez em pouco mais de um ano, o maior Exército da Terra.

A nova guerra durou mais e matou mais gente. Três anos depois, com o Terceiro Reich afundando, a Finlândia não tinha mais como segurar os soviéticos. Mais uma derrota. Helsinque capitulou, perdeu mais territórios para o inimigo e ainda precisou olhar para si e julgar o papel de seus líderes na guerra, que se aliaram a Hitler.

“A versão oficial dizia que a Finlândia estava lutando uma guerra separada, e que a Alemanha não era uma aliada. Só nos anos 1970 e 80 os historiadores começaram a reconhecer que foi uma aliança de facto”, explicou Meinander.

Ecos finlandeses na Ucrânia

Parque Nacional de Hossa, na Finlândia Imagem: Getty Images

Stálin temia uma invasão nazista a São Petersburgo (então Leningrado) através da Finlândia. Para antecipar o movimento, ele decidiu invadir o vizinho, comendo aos poucos seu território e empurrando a fronteira para o oeste.

Os russos tinham muito mais tropas, e seu líder acreditava que seria recebido de braços abertos pelo povo invadido, que não via a hora de voltar para o colo do grande império do passado. Seria uma vitória fácil, com poucas baixas e muita comemoração.

Há semelhanças entre as guerras que finlandeses travaram contra Stálin e aquela em curso entre Vladimir Putin e a Ucrânia, que também integrou o Império Russo (e, depois, a União Soviética).

Ucranianos não receberam os russos com um sorriso, a guerra dura muito mais do que o previsto e Moscou já sofreu derrotas contundentes. Assim como com a Finlândia, há 80 anos.

Em 2023, a Finlândia oficializou sua entrada na Otan, abandonando a neutralidade para ser o 31º membro da aliança militar do Ocidente. Foi a resposta que o país encontrou para a invasão russa à Ucrânia.

Entrar na Otan significaria uma garantia de segurança para a Finlândia e seus 1.340 quilômetros de fronteira com a Rússia. Mas também significa, para os críticos à ampliação da aliança, uma provocação desnecessária a Moscou e uma ameaça à própria integridade da Otan.

Haja camuflagem, se uma nova guerra estourar.

NOSSA TERRA (UOL) – Edição: Montedo.com

Uma resposta

  1. Finlândia nas guerras contra a URSS era um celeiro de atiradores de precisão, sendo a maioria das baixas do lado russo proveniente deles, um ícone desses atiradores era Simo Häyhä (morte branca) ceifou a vida de mais de 500 soldados da URSS e em 1940 foi atingido na face com projetil explosivo levando metade de sua Mandíbula o que levou a vários anos de tratamento para sua recuperação. Isso fez com que fosse promovido por bravura de Cabo a Tenente. Morreu de velhice no ano de 2002.

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