Um vírus oportunista ronda o acampamento

Acampamento, nas proximidades de Pisa.

Persiste a histórica frase: quando a política entra pelo corpo da guarda dos quartéis, a disciplina foge pelos fundos

Otávio Santana do Rêgo Barros*

A República convive há tempos com a presença de militares na cena política, ora como atores principais, ora coadjuvantes, ora espectadores atentos. Ainda assim, desde 1985, quando ocorreu a transposição do poder aos civis, vivia-se um período de raras participações.

A interferência da política partidária nas Forças Armadas se assemelha à ação de um vírus oportunista. Quanto mais fraca a imunidade, mais facilmente o agente se instala no corpo. Passada a bonança, sendo um organismo social a conviver com influências internas e externas, as Forças Armadas voltaram a sofrer com a baixa de sua imunidade institucional.

A linha de segurança traçada pelos líderes castrenses ao fim do governo militar, caracterizada pelo alheamento da caserna da atividade partidária, com busca efetiva por profissionalismo, foi rompida por interesses diversos. Então a debilidade da posição abriu uma porta de acesso ao tal vírus oportunista, propiciando discussões políticas dentro dos quartéis, algo inimaginável diante da maturidade institucional das Forças.

Como sequela, o vírus afetou a coesão interna, o respeito entre pares, superiores e subordinados, fez estragos e precisa ser erradicado. Persiste a histórica frase: quando a política entra pelo corpo da guarda dos quartéis, a disciplina foge pelos fundos.

Aproximação: Lula intensifica acenos a militares e planeja ida a formaturas, estratégia de Bolsonaro
Cabe aos comandantes de Força atuar, por meio de ações específicas e incontornáveis, para contê-lo. É uma questão de hierarquia e disciplina, pilares pétreos das instituições. Ao que tudo indica, eles reconheceram o desafio, se uniformizaram para a batalha e se puseram em marcha. São determinados!

Que essa questão, a ser resolvida no campo interno, não envenene as relações entre o soldado e o Estado, quando agora precisamos, prioritariamente, ultrapassar a divisão maniqueísta presente na sociedade.

Dito isso, observo com simpatia a possibilidade de aprofundar a discussão sobre o relacionamento entre civis e militares em nosso país. Porém precisa ser fundada em alicerces estáveis, em que a compreensão compartida do papel dos envolvidos sobrepõe-se à onisciência de alguns críticos de poucas luzes.

Há regras consuetudinárias que se tornaram aceitas pelas lideranças de homens e mulheres fardados. Por exemplo, a garantia de que o estamento político deve prevalecer, responsavelmente, sobre o militar. É uma demonstração alvissareira de compreensão da História contemporânea.

Contudo as notícias que atravessam os oceanos sobre a conjuntura de outros países, igualmente democráticos, sinalizam que as certezas do diálogo civil-militar precisam ser repensadas. As pressões para um novo contrato institucional existem. São colocadas a público diariamente. E devem ser acompanhadas com atenção.

O coronel Todd Schmidt, do Exército americano, em artigo publicado na Military Review (jan.-fev. 2023) intitulado “Civilian control of the military — a ‘useful fiction’?”, descreve anos e anos dessa relação, com críticas aos dois setores. Na conclusão, expõe a sua insegurança, mesmo sendo um militar de carreira, do como prosseguir a fim de conviver com menor potencial de fricção. Afirmou Schmidt:

— A realidade não é preto e branco. Há nuances. Os desafios estruturais no processo político entre civis e militares são reais, podem ser percebidos logo abaixo da linha d’água, enquanto na superfície convivem com uma saudação e um sorriso.

As relações não são idílicas, inquestionáveis e unidirecionais. O alerta serve aos pensadores que se debruçam sobre o tema, políticos, juristas, acadêmicos, jornalistas, militares. Uma conversa amigável, um café de boa qualidade e um firme aperto de mão podem ser os primeiros passos para uma caminhada profícua ombro a ombro, mas que não fique apenas nisso. O vírus continua a rondar o acampamento.

Paz e bem!

* General de divisão da reserva
O Globo/montedo.com

5 respostas

  1. “Há regras consuetudinárias” = “na minha época”

    O que os “antigões” não conseguem aceitar é a “marcha inexorável do tempo” ou seja a evolução da sociedade. As FA deveriam filtrar o que a sociedade inova e não se prender a “regras” transmitidas oralmente porque a 20/30 anos passados davam certo, porém hoje, não se enquadram mais.

    A disciplina deveria ser Pétrea, mas vemos os “líderes” se juntando aos porcos da política, tomando parte em evento político, tentando burlar regras da receita federal. O próprio Rêgo Barro (famoso “Arregão”) sendo porta voz da Presidência quando deveria se afastar disso.

    a Hierarquia, outro pilar, sendo quebrada por eventos e textos de desafio a autoridade da presidência: “Cabe aos comandantes de Força atuar, (…), para CONTÊ-LO.”

    O futuro das FA depende das decisões de hoje, porém, acredito que nem o futuro nem as decisões parecem serem boas.

  2. Esse é outro mala, lenga-lenga pra boi dormir. agora observem que o arrego nunca fez referência a Maldita Lei da Desetruturacao, a Farinha pouca meu pirão primeiro. pra ele tá tudo de boas!!Levou um pé na bunda,mas tá de bolso cheio.

  3. Os chefes disseminaram o “vírus” nos quartéis e correram para cargos públicos, não é mesmo sr. Rêgo Barros, e conseguiram nessa empreitada até disseminar vírus reais na população, não é Pazzuelo…

  4. Ainda bem que logo no prefácio surge o nome do autor dessa inutilidade asquerosa.
    Não li nem a primeira linha 🤢🤮
    ArRêgo, Barro!

  5. “Pouco a Dizer.
    ⁠Quem muito fala, pouco realmente tem a dizer.”.
    The Vincit (Klaus).
    ArRêgo, Barro:
    o homem que fala fala e nada diz
    Diz menos que aquele que nada diz
    Autor: Asco é pouco.

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