Política e a aprendizagem institucional nas Forças Armadas

Forças Armadas estão atuando no Estado com tropas em veículos e a pé, além de blindados e helicópteros (Foto: Bárbara Moira)

A polarização política persiste no País e deve afetar eleições futuras. É, pois, imprescindível que as Forças Armadas solidifiquem sua identidade de instituições apolíticas

Fernando Rodrigues Goulart*
Nos últimos anos, o envolvimento das Forças Armadas com a política ocasionou episódios de flagrante ofensa aos cânones da profissão militar. Alguns desses fatos foram determinados pelo presidente Jair Bolsonaro, ao passo que outros foram iniciativas de militares envolvidos. Notórios entre os primeiros foram o engajamento das Forças Armadas na fiscalização das eleições e as demissões dos comandantes de Força em 2021. Entres os últimos, citam-se a saudação como “líder” a um político (Jair Bolsonaro) em campanha, em 2014, por jovens prestes a receber a espada de oficial na Academia Militar das Agulhas Negras; a postagem de temas políticos e de notícias inverídicas nas redes sociais por militares da ativa; e a participação de militares em manifestações com pleitos claramente ilegais. São todos casos preocupantes, notadamente aqueles que se passaram sem intervenção do comandante supremo das Forças Armadas.

Em que pese nunca ter havido unanimidade entre os militares a respeito de tais episódios, a exigência de que as Forças tenham um pensamento claro de repúdio à politização recomenda que elas aprendam a partir deles.

Organizações, ou instituições estruturadas, aprendem. Elas o fazem corriqueiramente, pela aquisição de conhecimento por seus membros. Mas existe o conhecimento coletivo, bem mais relevante. Ele é obtido, por exemplo, quando cada membro da instituição compreende que, ao desempenhar suas tarefas, deve fazê-lo de modo a contribuir para que os demais sejam o mais eficiente possível nas tarefas deles. Ou – mais bem relacionado com o presente tema – quando todos os integrantes assimilam aquilo que assegura a “identidade” da instituição, sem a qual ela não realiza seus propósitos.

Instituições aprendem por perceberem que mudanças são benéficas ou por causa de falhas que comprometem sua efetividade ou existência. Muitas vezes, tais aprendizagens requerem autocrítica e a consciência de que a instituição é mais importante que qualquer um de seus membros.

Um caso típico de aprendizagem institucional ocorreu com o Exército dos Estados Unidos da América, por ocasião da Guerra do Vietnã. Durante o conflito, políticas de pessoal levaram ao surgimento de um “carreirismo administrativo”. Capitães e tenentes iam para a guerra interessados unicamente em poupar-se e sobreviver, ou dispostos a enviar seus subordinados para missões perigosas e, à custa de seu sacrifício, obter menções para promoção. A disseminação de tal mentalidade feriu de morte o espírito de liderança dos quadros e corroeu a coesão no Exército.

A correção de rumo iniciou-se alguns anos depois da guerra, impulsionada pela publicação do livro Crisis in Command: Mismanagement in the Army, por Richard Gabriel e Paul Savage. Os autores, ambos acadêmicos e oficiais da reserva do Exército, ofereceram à sociedade uma crítica contundente da situação e sensibilizaram para a necessidade de mudança. Embora o livro tenha sido recebido com ceticismo e reticência por parte da cúpula do Exército, acabou gerando uma autocrítica responsável, indutora de transformações que recuperaram a imagem e a eficiência da instituição.

A aprendizagem das Forças Armadas pode ser conduzida pelo Ministério da Defesa. Entretanto, essa modalidade não é eficiente quando a questão é desenvolver ou fixar uma mentalidade. Exército, Marinha e Aeronáutica têm princípios, valores e cultura próprios, o que torna inconveniente a administração de tal processo pelo governo.

Por outro lado, a aprendizagem endógena, que se origina na Força e é conduzida por ela, é bastante eficiente. Ela segue métodos adequados à instituição e leva em conta suas peculiaridades e idiossincrasias, o que é essencial para o êxito. Alguns podem argumentar que, em se tratando do atual envolvimento dos militares com a política, razões corporativas e ideológicas impediriam a correção de rumos. Entretanto, tal crítica é bastante questionável, uma vez que a maior parte dos oficiais generais e significativo segmento da oficialidade já se posicionaram a favor da atitude estritamente profissional da tropa.

A academia, por meio da Sociologia, da Ciência Política e das Relações Internacionais, pode oferecer uma grande contribuição para a aprendizagem nas Forças Armadas. A polarização política e os eventos que nos últimos anos conturbaram a normalidade democrática serão, certamente, objeto de estudo nos programas de pós-graduação de universidades e institutos de alto nível. Assim, pesquisas destinadas a analisar a participação ou a influência dos militares nesses acontecimentos serão muito úteis.

A polarização política persiste no Brasil e deve afetar eleições futuras. Por conseguinte, é imprescindível que as Forças Armadas solidifiquem sua identidade de instituições apolíticas. Aliado a isso, cada militar precisa saber conciliar o direito de ter posição política própria com o requisito de ser apolítico profissionalmente. Essas são as bases da aprendizagem que se faz necessária.

* GENERAL DE DIVISÃO NA RESERVA, É DOUTOR EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS

ESTADÃO/montedo.com

Respostas de 13

  1. Estranha toda essa narrativa confusa. Dá o entendimento de que as FA devem ser uma corporação isolada do mundo, autoctone, absolutamente independente, existindo e vivendo para ela mesma ao mesmo tempo que somente em graduações “superiores” haverá aprendizado politico para saber como agir “politicamente” sendo apolítico. Nessa história de ser “apolítica”, não haverá mais chefe supremo?

  2. ” A academia, por meio da Sociologia, da Ciência Política e das Relações”

    blá blá blá Blá … melancia, isentão , carreirista, ECEMICO , detectado !!!!
    Já vi vários campeonatos no exército durante esses anos de EB , vôlei, futebol, esgrima , judô basquete … e Agora em 2023 Temos campeonato de puxar saco de ladrão … 😀😀😀

  3. Quer deixar as Forças Armadas fora da política?! É simples.
    Fação uma revisão salarial justa. ReJuste os vencimentos de todos a um patamar realmente de funcionários de Estado. Extendendo obviamente como sempre foi. para os mitares da reserva e pensionistas. Aí não haverá necessidade de envolvimento de militares (principalmente praças) em política. Pois seus direitos já estariam conquistados e suas dignidades restauradas.

  4. General Santos Cruz defende investigação sobre joias sauditas
    General, que já foi aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro, solicitou abertura de inquérito sobre as joias apreendidas na última semana

    General, conserve o resquício da moral que um dia teve, não tente ser ovelha da matilha. Não demonstre sua falta de conhecimento em direito tão explicitamente.

  5. Povo hipócrita que não sabe o que é trabalho mas quer tomar vinho de garrafa de cristal e uvas colhidas com luva de seda. Há muitos anos um agricultor português plantou 5 milhões de pés de café na Bahia e anos depois começou a recrutar trabalhadores de outros estados reclamando da colheita, que a mão de obra local era a PIOR DO MUNDO, destruía o cafezal.

    na verdade, por trás dessas manobras estão interesses em destruir a industria nacional de sucos de uva, suco de laranja, de vinhos, de café, de queijo, arrozais, exportação de carne, etc. Lamentável as instituições publicas participarem dessa destruição. No teor dessa narrativa, não está sendo diferente a tentativa de destruir as FFAA com implosão, de dentro para fora, como uma agenda de enfraquecimento moral e material.

  6. “Capitães e tenentes iam para a guerra interessados unicamente em poupar-se e sobreviver, ou dispostos a enviar seus subordinados para missões perigosas e, à custa de seu sacrifício, obter menções para promoção. A disseminação de tal mentalidade feriu de morte o espírito de liderança dos quadros e corroeu a coesão no Exército”

    Nos EUA o “sargeant” é o ser mais valorizado das FA pois nele recai a solidez da disciplina e a liderança (além da técnica em alguns assuntos). Por isso muitas promoções ao longo da carreira….

    Ja no EB do Br, 10 anos para o 3°sgt, sendo tratado como lixo.

    1. Mas a gente n vai pra guerra
      So apronto
      Marcha
      Powpow
      Formatura pro general

      A guerra da ucrania mostra como estamos defasados 100 anos.
      Imagina uma marcha, um drone phantom comercial e uma granada de morteiro, tudo pilotado por um adolescente de 16 anos na poltrona

  7. Depois eu estou errado? Acho que não devia existir o posto de general em tempo de paz. Pois alguém pode me dizer qual o benefício generais com a população? Por isso devíamos ver se deve ter escola de academia militar para oficiais. Lógico fazendo uma transição justa e acabar com isso deixar só a ESa. Pois até não estou conseguindo enxergar o Benício que esse pessoal traz a população? Alguém sabe dizer? O tempo é o senhor absoluto da razão.

  8. Crise de energia? Crise alimentar? Colapso industrial? Interrupções nas cadeias de suprimentos? Ataques cibernéticos? Comunicações Fraturadas? Apagões Elétricos? Queda da Internet? Fim do dinheiro? Hiperinflação? Alterações Climáticas? Guerras, conflitos civis e mais VÍRUS, culminando na miséria humana… Sim. Tudo está sendo fabricado INTENCIONALMENTE.

  9. Aprendemos o já sabíamos lá na reestruturação de carreira em 2019 que os generais a alta cupols das forças armadas são uns baita de uns traídores deixaram pensionistas, QEs, QESa sem aumento em detrimento próprio, não tem nem o que pensar são muito ruins esses generais egoístas, nojentos e agora mais esse golpe no povo brasileiro mas, os soldos deles e o ego está completo…

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