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Mulheres conquistam cada vez mais espaços antes destinados apenas aos homens e provam que podem competir em pé de igualdade

Mariana Andrade*
A Constituição estabelece que o serviço militar não é obrigatório para as mulheres, apenas para o sexo masculino. Mesmo assim, o interesse em seguir a carreira militar atrai cada vez mais candidatas. A forma de ingresso nas Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica) é diferente do processo dispensado aos homens. Elas precisam se submeter a concursos públicos para servirem de forma voluntária como militares de carreira ou temporárias. Nos últimos anos, o Ministério da Defesa e as Forças Armadas vêm rendendo homenagens às milhares de servidoras de seu quadro para comemorar o Dia Internacional da Mulher.
De acordo com dados do Ministério da Defesa, atualmente, cerca de 33.960 brasileiras integram as Forças Armadas. No Exército, a presença feminina contabiliza 13.122 militares, representando aumento de 6,42% em relação aos anos de 2019 e 2020, e de 11% no período de 2020/2021. Atualmente, 53 oficiais ocupam o cargo de coronel, sendo que cinco exercem a função de comandante, chefe ou diretor de Organização Militar. A grande maioria ocupa alguma função de chefia
Em 1992, a Escola de Administração do Exército em Salvador (BA) formou a primeira turma composta somente por mulheres, por meio de concurso público, com 49 candidatas contempladas, mas, desde 2017, elas vêm conquistando espaço no front do Exército Brasileiro. Naquele ano, cerca de 40 delas começaram a receber treinamento para compor a linha de força bélica. Com isso, o cargo de general começou a ser cobiçado pelas oficiais, algo que anteriormente era reservado apenas aos homens. A implantação da Lei 12.705, de agosto de 2012, assinada pela então presidente Dilma Rousseff, facilitou a presença de mulheres na linha bélica.

Em 2022, as mulheres marcam três décadas de presença no Exército Brasileiro (foto: kleber sales)

Trajetória feminina na defesa da pátria

Maria Quitéria de Jesus (1792-1853) é considerada a figura feminina mais importante do Exército. Reconhecida como heroína da Independência do Brasil, a baiana foi a primeira mulher a atuar em combate, alcançando a façanha de ser também a primeira a ingressar em uma unidade militar. Em 1996, foi declarada patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro e, em 2018, passou a ter seu nome registrado no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Contrariando as opiniões do pai, ela cortou os cabelos e se vestiu de homem, adotando a alcunha de “soldado Medeiros”, sobrenome de seu cunhado, para participar das lutas independentistas no estado da Bahia. Mesmo após descobrirem sua real identidade, ela foi autorizada a prosseguir nos campos de batalha.
Maria Quitéria também abriu caminho para a participação feminina em vários setores da sociedade brasileira. Sua figura é traduzida, nos dias atuais, como símbolo de luta e perseverança. Porém, essa suposta progressão feminina nas Forças Armadas ficou estagnada por 120 anos. Até o período da Segunda Guerra Mundial, quando o Exército Brasileiro enviou 73 enfermeiras para a missão, todas as profissionais que se voluntariaram tornaram-se as primeiras mulheres a ingressar no serviço ativo das Forças Armadas brasileiras .
Em 1992, a Escola de Administração do Exército em Salvador (BA) formou a primeira turma composta somente por mulheres, por meio de concurso público, com 49 candidatas contempladas.

Exército oferece duas categorias para as militares: oficiais de praças e oficiais de carreira (foto: Jackson Medndes – Curitiba (PR))

A equidade de gênero
No Exército, as mulheres desempenham quase todos os cargos nas mesmas condições dos oficiais do sexo masculino, mas concorrem às promoções em condições de igualdade. Além disso, recebem a mesma instrução militar ministrada aos homens. Contudo, embora não haja restrições para o ingresso feminino nas Forças Armadas, ainda não é possível que elas sejam designadas para o Batalhão de Infantaria (combate em campo) e Regimento de Cavalaria. No ano passado, 23 cadetes da turma da Academia Militar das Agulhas Negras foram graduadas como combatentes na área de logística.
Atualmente, as mulheres no Exército alcançaram a patente de tenente-coronel. Contudo, a grande maioria optou por seguir a graduação de sargento e, como oficial, os cargos de tenente, capitão e major. A especialidade de general de divisão é o máximo permitido para a ascensão do quadro feminino da força militar terrestre brasileira.
No exército, existem duas categorias de militares: oficiais temporários e oficiais de carreira. As ocupações se diferenciam no grau de instrução individual e no concurso público em que foram contemplados, sendo o oficial de carreira aquele que possui nível superior e oficial temporário tem formação nos ensinos fundamental, médio ou técnico, e ingressa na corporação por meio de processo de seleção curricular.
O cargo de coronel é a hierarquia máxima dentre as patentes de oficiais superiores. Pessoas nesse cargo estão aptas a realizar todas as funções atribuídas ao cargo de tenente-coronel e também tem a possibilidade de chefiar o Estado Maior de grandes unidades, além de prestar assessoramento ao Alto Comando do Exército Brasileiro.
As oficiais no cargo de tenente-coronel fazem parte do corpo do Estado Maior das grandes unidades e podem desempenhar funções de comando de subunidades isoladas ou unidades da força terrestre.
Aquelas na posição de major integram o Estado Maior e são capazes de desempenhar funções que variam entre chefia das seções de pessoal, material, operações ou comunicação social. Já o cargo de capitão no Exército é responsável por manter a ponte entre oficiais superiores e subalternos.
Mulheres com especialidade para 1º tenente exercem a função de comando de pelotão, com intervalo de três anos. O cargo de 2º tenente é a primeira especialidade de oficialato exercido por militares de carreira, e também exercita a função de comando de pelotão, mas a diferença para o 1º tenente está no intervalo de atividade, para o 2º, o tempo é de dois anos. Já o cargo de subtenente está encarregado do material e pode ocupar a função de chefe de seções administrativas.
Os cargos de sargento são divididos em 1º sargento, o praça mais antigo entre os sargentos, e empregado em atividades administrativas; 2º sargento, o praça de nível intermediário entre os sargentos, é o adjunto de pelotão e trabalha durante o intervalo de oito anos; e 3º sargento, menos antigo entre os sargentos, responsável pelo comando de grupos de combate durante oito anos.
Cabo é o nível hierárquico maior que o de soldado e abaixo do 3º sargento, responsável pela fiscalização de tarefas relacionadas ao soldado. E o cargo de soldado, praça, de menor nível hierárquico, com admissão realizada anualmente a partir do alistamento militar. É o auxiliar executante em tarefas operacionais ou administrativas.

Como ingressar no Exército?
Para seguir carreira no Exército do Brasil, elas precisam prestar concurso de âmbito nacional para a Escola de Formação Complementar do Exército (EsFCEx), Escola de Saúde do Exército (EsSEx), Instituto Militar de Engenharia (IME) e Escola de Sargentos de Logística (EsSLog). Para as que desejam ocupar o cargo de oficial ou sargento temporário, é preciso participar da seleção das regiões militares.
Não existe restrição para que as mulheres integrem qualquer Organização Militar do Exército (OM). O único requisito é ter formação e habilitação necessárias para a ocupação dos cargos. Dentre essas organizações, as mulheres podem trabalhar nas dependências da Escola Preparatória de Cadetes do Exército, Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) e Instituto Militar de Engenharia (IME). Para trabalhar como oficial temporário, existem os processos seletivos por meio do Estágio de Serviço Técnico (EST), Estágio de Adaptação e Serviço (EAS), Escola de Sargentos das Armas (ESA) e Estágio Básico de Sargento Básico (EBST).

Mulher como personagem principal

Com 30 anos de serviços prestados ao Exército, a hoje coronel Maria Sandra Andrade integrou a turma inaugural mista da corporação (foto: Ten. Fuldare/Exército Brasileiro)

Mesmo com uma família sem histórico militar, a coronel Maria Sandra Andrade, 57 anos, protagonizou uma carreira de grandes conquistas no Exército Brasileiro. Neste ano, ela completa três décadas de serviço no Exército. Foi uma das primeiras mulheres a ingressar na turma inaugural mista, em 1992.
Nascida em Aiuaba, interior do Ceará, Sandra conta que soube da abertura do concurso público para a primeira turma mista do Exército por um folheto encontrado, por acaso, na rua. Ela lembra que sua mãe sempre aconselhava os filhos a estudarem para serem independentes. Seguindo os ensinamentos da mãe à risca, resolveu, então, encarar esse desafio. A tão ansiada notícia da aprovação, recorda ela, foi recebida por telegrama. Depois, ingressou na turma da capital baiana, onde recebeu os mesmos treinamentos dispensados a militares masculinos, o que ela considerou um grande passo: “Para gente, era uma conquista”, diz.
A coronel também buscava uma oportunidade profissional que a deixasse realizada. “Era ter fé de que teria uma carreira, de que iria terminar com brilho nos olhos. Depois de 30 anos, ainda tenho a vibração e o brilho nos olhos de representar essa instituição e de ter construído uma carreira de muito orgulho e satisfação”, relata, confessando que sempre gostou de desafios, por isso escolheu o Exército. Hoje, dirige o Hospital Militar de Área do Recife (HMAR), onde se notabilizou como a primeira enfermeira a assumir um cargo de direção em um hospital militar do Exército Brasileiro.
Sandra revela que um dos momentos mais marcantes da sua trajetória no Exército ocorreu durante a Operação Enchente, quando foi designada a coordenar todo o apoio de saúde no hospital de campanha do Comando Militar do Nordeste. A instalação estava montada em um campo de futebol. No 15º dia de funcionamento, a equipe recebeu uma paciente especial, uma gestante que deu à luz a uma menina. De acordo com a coronel, a criança, de nome Maria Clara, nasceu saudável e “chorando alto”. “Ela nasceu no hospital de campanha, instalado em um campo de futebol. Era um bebê muito lindo. Foi um momento que eu guardei com muita emoção”, conta.
A militar enxerga o Exército como uma “organização de oportunidades” e diz que seu objetivo é continuar ajudando a instituição e a sociedade brasileira com seus serviços. “O Exército teve papel fundamental ao me preparar para assumir postos de liderança. Empenhei-me para ser gestora”, diz. Para ela, o grande legado das pessoas que compõem o quadro do Exército é estar disponível 24 horas nos sete dias da semana para a sociedade brasileira, seja atuando interna ou externamente.
Ela acredita que sua trajetória pode incentivar outras mulheres ao redor do país e reforça que a educação é peça chave para as jovens conquistarem seus sonhos. “Estudem, e qualquer sonho pode ser realizado”, aconselha, ponderando que todas essas conquistas profissionais não a impossibilitaram de formar uma família. Sandra é casada e mãe de três filhos. E lembra, ainda, que sempre contou com o apoio do Exército durante a gravidez e que, como na corporação, sua família tem por lema a parceria. “Por isso, seguir na carreira militar não foi uma dificuldade. Meus filhos sentem orgulho da mãe e continuam apoiando meu trabalho”, comemora.
Ela revela que, entre seus planos para o futuro, o principal é continuar contribuindo em conjunto com a instituição e desenvolver um Hospital Escola do Exército para oferecer atendimento médico, além de desenvolver pesquisas e estudos.

Rumo à África

Paula Maria Moretto se considera “prova viva” de que depois dos 40 anos existe a de realizar sonhos ou construir uma carreira (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Paula Maria Moretto é mais uma que optou por abraçar a carreira militar e se considera “prova viva” de que depois dos 40 existe, sim, a possibilidade de realizar sonhos ou construir uma carreira profissional. Aos 50 anos de idade, ela segue em direção ao continente africano, viagem que marca a primeira participação da agora major Paula em uma missão de paz.
Nascida em Recife, a pernambucana terá que cruzar o Atlântico para chegar ao destino da missão, Bangui, capital e maior cidade da República Centro-Africana, onde passará 12 meses ajudando a população do país. Na missão, ela representará o Brasil como oficial de Estado-Maior no Quartel General da Minusca.
O Exército conquistou, aos poucos, o coração da oficial, formada em Ciência da Computação pela Universidade de Brasília (UnB). Ela conta que, em 1998, estava em dúvida sobre qual caminho seguir na vida profissional. Decidiu, então, experimentar a vida militar. No mesmo ano, fez parte das 98 mulheres que ingressaram na turma mista de oficiais temporários, mas não demorou muito para ingressar como oficial de carreira do Quadro Complementar de Oficiais em 2001, na área de Informática. Paula revela que se encontrou no exército por ser um ambiente onde se sentiu valorizada.
Ela se considera uma pessoa altruísta e, por esse motivo, decidiu embarcar na missão para o continente africano. “Eu vejo na missão uma oportunidade de fazer a diferença, deixar lá um tijolinho de ajuda na construção de um país melhor, o que chamamos no Exército de braço forte e mão amiga” diz Paula.
O requisito básico para participar de uma missão é a habilitação no idioma exigido pela Missão Internacional de Paz. No caso da major Paula, a missão será monitorada pela Organização das Nações Unidas (ONU), que tem o inglês como o idioma principal. Com especialização em inglês e italiano, ela está se preparando para estudar francês para compreender melhor a população.
Além da formação militar básica aprendida no Exército, os oficiais que têm interesse em participar das missões de paz fazem cursos preparatórios da ONU para expandir o conhecimento sobre a abordagem em cada país a servir.
Dentro da missão, a equipe é dividida nos grupos de Observador Militar e Estado-Maior. No primeiro caso, o oficial mantém contato direto com a população e escreve relatórios para o quartel general. Aqueles que compõem o segundo grupo são responsáveis por analisar o material dos relatórios e repassar as informações para os comandantes da missão. Mesmo sendo uma missão de caráter individual, o trabalho é feito em conjunto.
Como para a coronel Maria Sandra, a maternidade não foi um problema para a major Paula. Ela confessa que tanto o marido quanto o Exército, que ela considera sua “segunda família”, tiveram papel crucial para o crescimento das duas filhas. “Desafios enfrentados da mesma forma que toda mãe que trabalha”, afirma a major que, em agosto. deverá estar cumprindo sua missão na África, e não esconde a ansiedade e expectativa para viver essa nova experiência. “Enfrentar esse contato multicultural me enche de alegria”, diz.
O Brasil já participou de mais de 50 operações de paz e missões similares. Essas missões têm como objetivo ajudar países devastados por conflitos e, consequentemente, propiciar condições para paz. Atualmente, o Brasil participa de sete das 12 missões das Nações Unidas (ONU). Os serviços prestados são distribuição de água e comida, resgate de reféns e proteção de civis, e os oficiais não têm autorização para utilizar armamento, uma vez que o objetivo é criar um elo de confiança com as pessoas e não as intimidar. Porém o uso da força militar apenas é permitido em casos de legítima defesa.
*Estagiária sob a supervisão de Jáder Rezende
CORREIO BRAZILIENSE/montedo.com

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