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Otávio Santana do Rêgo Barros*
O jornalista Fernando Gabeira, em seu artigo “Mil dias rumo ao isolamento” (O Estado de S.Paulo, 01/10/2021), abordou o insulamento do atual mandatário e o acirramento das posições políticas por ele defendidas.
Em dado momento, refletiu sobre os militares, apontando uma pesquisa do professor Celso Castro, da Fundação Getulio Vargas, que foi publicada no livro “O espírito militar” (Zahar, 2021).
Instigado pelo texto do jornalista, li a obra de um trago, vendo-me, por vezes, como um dos entrevistados pelo professor.
Ela se baseia na dissertação de mestrado do autor, defendida em 1989, junto ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Eram raros os trabalhos acadêmicos na área de antropologia analisando militares. Como novidade, Celso Castro obteve autorização para conviver, por semanas, dentro da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), algo inimaginável para a época.
Descreve aspectos básicos da formação, preparando terreno aos não iniciados, para, em seguida, dedicar-se a destrinchar a alma de cadetes ambientados no pós-governo militar.
O livro ajuda a compreender algumas das características da profissão das armas. Com elevada confiança junto à opinião pública, é das categorias mais comentadas e menos conhecidas da sociedade.
“Mas é bom lembrar que sempre existe o reverso da medalha e que o que podemos captar, […] sempre é uma aparência ou, pelo menos, uma versão de um todo muito mais complexo, cujos mistérios se sucedem interruptamente, à medida que temos a ilusão de tê-los desvendado” (Gilberto Velho).
A frase do orientador do professor deixa clara a fragilidade de assumirmos a História como imutável e não nos abrirmos a novas perspectivas.
Sem mais spoiler, vou direto ao ponto que me trouxe a este artigo.
Para sustentar sua proposta, Celso Castro entrevistou, além dos cadetes da época (final dos anos 1980), oficiais formados nas décadas de 1930, 1940 e 1950.
Os mais antigos relataram, com saudosismo, o respeito que a sociedade devotava aos militares, fardados ou não.
Os mais modernos, a frustração por não perceberem reconhecimento do mundo “lá fora” pelo esforço que faziam em nome da pátria.
Três décadas se foram. Aqueles jovens cadetes amadureceram, construíram famílias, galgaram postos da carreira, conviveram com outros exércitos, adquiriram notáveis experiências. Hoje, sentem-se acolhidos e reconhecidos.
Desde a pesquisa, a formação assumiu novas luzes, passando a privilegiar ciências sociais, onde antes eram ciências matemáticas. Psicologia, filosofia, Direito, dentre outras áreas, são protagonistas nesse processo.
Insiro uma provocação, sem paixões, para discussão por acadêmicos, políticos, militares e cidadãos em geral:
— O profissionalismo estimulado nos últimos anos amenizou o impulso de “soldados salvadores”?
— As vivandeiras buliçosas, acantonadas à porta dos quartéis, ainda contaminam a missão das Forças Armadas?
— Como a sociedade, consciente de sua importância no processo, deve atuar na proteção dos interesses castrenses?
De minha ótica, os chefes militares estão conscientes do papel de instituição de Estado e estabeleceram uma permanente linha de vigilância e defesa contra investidas não republicanas.
Eles sustentam a imparcialidade profissional dos que detêm o monopólio da violência em nome do Estado, dispondo-se a garantir rotas seguras no Brasil carente até de bússola.
Precisarão, contudo, do apoio sereno de todos. Como se a sociedade fosse a ultima ratio regis (o último argumento dos reis — expressão usada na Antiguidade, e ainda hoje pela tradição, que traduz a impossibilidade de resolver um conflito pelo diálogo) contra oponentes encegueirados pelo poder.
Paz e bem!
*General de divisão da reserva
O Globo/montedo.com

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