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Comissão expôs rede suspeita de influência na gestão do general Pazuello na Saúde

Igor Gielow
SÃO PAULO

A crise de imagem vivida pelas Forças Armadas devido à sua associação com o governo do capitão reformado do Exército Jair Bolsonaro foi ampliada pelo foco direcionado da CPI da Covid à gestão de um general, Eduardo Pazuello, no Ministério da Saúde.
Desastrosa por todos os indicadores objetivos disponíveis, a temporada do militar à frente da pasta também trouxe consigo a formação de uma suspeita rede de influência de fardados da ativa e da reserva.
Pelo menos seis militares entraram no alvo da comissão, a começar por Pazuello e seu secretário-executivo, o coronel da reserva Élcio Franco.
A eles são imputadas grandes responsabilidades, seja pela morosidade no processo de aquisição de imunizantes, seja por movimentos suspeitos de favorecimento a grupos obscuros.
Para além dos cabeças, foram citados outros quatro fardados que participaram de suspeita de traficâncias com vacinas na pasta, além de explicitar o ambiente militarizado que Pazuello imprimiu à Saúde.
A apuração mexeu com os brios militares, levando a um dos capítulos tensos da crise institucional liderada pelo governo Bolsonaro neste ano. O ministro da Defesa, general Walter Braga Netto, secundou-se de apoio dos três comandantes de Forças para atacar a CPI.
Isso porque o presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), disse em julho que havia um “lado podre” das Forças Armadas sendo desvelado pelos senadores. A associação imediata foi feita com o termo usado para falar de milicianos das polícias, categoria próxima do bolsonarismo e da família presidencial.
A turma do deixa-disso operou e, por fim, a situação se acalmou. Mas o casco do barco militar ficou tisnado pelo tom francamente ameaçador adotado por Braga Netto, corroborado depois por uma inusual entrevista do chefe da Aeronáutica.
Isso tudo se insere num contexto maior, da suspeita perene de apoio dos generais que embarcaram no governo Bolsonaro aos desejos golpistas do presidente, expressos em sua totalidade no malfadado 7 de Setembro.
Até aqui, o dano à imagem militar foi relativamente contido, mas é aferível. Pesquisa do Datafolha em setembro mostrou que as Forças seguem sendo a instituição na qual o público mais confia, ainda que num patamar ligeiramente inferior ao do começo da série histórica da pergunta, em 2017.
Lá, 83% dos brasileiros confiavam no estamento fardado em alguma medida. Agora, são 76%, com um aumento no nível de desconfiança —de 15% em junho de 2017 para 22% em setembro.
O quanto irá sobrar para os militares no relatório de Renan Calheiros (MDB-AL) é incerto, mas a percepção de desgaste é claro.
Isso fica claro nas reações fardadas. Na semana passada, um general da ativa lamentava justamente a volta previsível do tema ao noticiário agora que a temperatura das confusões bolsonaristas envolvendo os militares baixou e eles deixaram as manchetes.
Pazuello, ainda na ativa e poupado pelo Exército após ter participado irregularmente de ato político com Bolsonaro, é um nome vetado na maior parte dos comandos militares brasileiros pela extensão da má imagem de seu trabalho.
Num ambiente altamente corporativista como o militar, contudo, segue majoritário o discurso de que os fardados são melhores administradores do que os civis —canto da sereia que levou à adesão ao governo Bolsonaro e ao preço que já começam a pagar.
FOLHA/montedo.com

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