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MÁRIO SABINO
A temporada de caça à Lava Jato foi aberta por Gilmar Mendes, com seus ataques constantes aos procuradores da operação e ao então juiz Sergio Moro, continuou com Rodrigo Maia e o Centrão legislando em causa própria para torpedear o pacote anticrime, atingiu desfaçatez criminosa com o roubo e a publicação das mensagens roubadas por hackers estelionatários, numa história que permanecerá mal contada como reza a tradição brasileira — e, agora, está sendo coroada com a autorização pela Segunda Turma do STF para que a defesa de Lula continue a explorar o conteúdo das mensagens surrupiadas, a fim de mostrar que os procuradores e Sergio Moro teriam se associado de maneira delinquente para condenar Lula. A suspeição de Moro deve ser julgada até meados do ano, e já há praticamente certeza de que o ex-presidiário será beneficiado pela maioria dos ministros do Supremo, abrindo caminho para que sejam anuladas outras condenações no âmbito da Lava Jato.
Em nome da manutenção do estado de direito, um dos maiores criminosos que este país de grandes criminosos já conheceu deverá obter passe livre para voltar à política, com aval do STF, a bênção de quase todos os políticos, que não querem que haja outras operações como a Lava Jato, e a cumplicidade de bolsonaristas e petistas, boa parte da imprensa incluída, que desejam um duelo em 2022 entre Lula (ou um lulista) e Bolsonaro, ambos os lados acreditando que vencerão o outro.
Era óbvio que o establishment (ou o sistema, o mecanismo, não importa o nome) reagiria. O que não era esperada era a abulia da sociedade na defesa a Lava Jato — aquela porção que não foi cooptada pelo bolsonarismo, entenda-se. Está certo que a pandemia tirou as pessoas das ruas, mas é de se perguntar se, mesmo sem a Covid-19 grassando, haveria tanta gente em manifestações como ocorria em 2016. O establishment vence também pela atávica falta de resiliência da nossa sociedade. Sim, estou culpando os cidadãos de bem pela vergonha encenada em Brasília neste momento.
Vivemos neste momento o pesadelo de ver Renan Calheiros pedindo a prisão de Moro no Twitter, num resumo da ópera-bufa em curso. Ele é só mais um entre tantos baluartes da honestidade alegres com a perseguição ao ex-juiz, que precisa ser destruído também politicamente, e aos procuradores da operação que ousaram desafiar a gatunagem.
Não merecemos a Lava Jato. Merecemos essa gente aí!
O Antagonista/montedo.com

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