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Diogo Schelp
Colunista do UOL

Quase ninguém gosta de ser contrariado, mas o presidente Jair Bolsonaro é um caso à parte. Mais do que receber como afronta pessoal qualquer manifestação contrária às suas convicções, Bolsonaro se ofende até com os fatos.
Um caso exemplar foi a rusga que resultou na demissão de Ricardo Galvão, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em agosto do ano passado, depois que o órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia divulgou, como sempre fazia, dados sobre o desmatamento no Brasil. Bolsonaro considerou que os dados faziam “campanha contra o Brasil”. Como não era possível demitir os fatos, exonerou seu mensageiro.
O presidente Bolsonaro é menos tolerante com o contraditório do que com comportamentos antiéticos. Seu ministro do Turismo, Marcelo Álvaro, que se viu envolvido em um escândalo de candidaturas laranjas no PSL, continua no cargo até hoje. O presidente também manteve no emprego seu secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten, apesar da ligação deste com uma agência com contratos com emissoras que se beneficiam de verbas do governo que ele mesmo aprova, num evidente conflito de interesses.
Em uma situação normal, o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que prega o oposto do presidente quanto à política correta para lidar com a pandemia do novo coronavírus, já teria sido demitido há algumas semanas.
Como não vivemos uma situação normal e a opinião pública em peso prefere a abordagem de Mandetta à de Bolsonaro para a pandemia, o presidente se viu obrigado a manter o ministro no cargo e passou a tentar minar sua capacidade de ação. A palavra correta não é mais “fritar”, como sempre foi a praxe de presidentes que queriam se livrar de um colaborador por meio do seu enfraquecimento e não da demissão pura e simples. O termo mais preciso agora é “sabotagem”. O presidente sabota as ações e recomendações do próprio ministro, na esperança de que a situação se torne insustentável. Quem vai ceder primeiro?
Para Mandetta, sob qualquer ângulo que se observe, a situação já é insustentável. Ele foi mantido no cargo na semana passada porque os militares que orbitam o presidente entendem o impacto que isso teria na legitimidade do ocupante do Palácio do Planalto. A mais recente pesquisa do Datafolha mostra que 82% dos brasileiros que votaram em Bolsonaro aprovam a atuação do ministro da Saúde.
As projeções já mostram que, sem uma ação coordenada entre União, Estados e municípios, a estratégia de achatamento da curva da pandemia não vai funcionar. Mandetta pode não querer estar à frente do Ministério quando isso acontecer.
Sua entrevista deste domingo de Páscoa ao Fantástico, programa da famigerada rede Globo que o bolsonarismo tanto detesta, foi uma tentativa de cutucar o ego do presidente e levá-lo a fazer o que gostaria de ter feito há muito tempo: trocar Mandetta por um negacionista do apocalipse coronavírus.
Quanto mais Bolsonaro vacila para tomar uma atitude, mais sua credibilidade sangra. O governo com dois polos de decisões antagônicas —um no Palácio do Planalto, outro no Ministério da Saúde — é um desgoverno.
Na prática, a demissão de Mandetta vai realçar o protagonismo que Estados e municípios estão tendo no enfrentamento da covid-19. Em qualquer situação, perde o presidente e perdem os brasileiros.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
UOL/montedo.com

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