Cúpula fardada viu entrevista como ‘provocação’ e abriu brecha para presidente intensificar estratégia contra titular da Saúde
Gustavo Uribe
Daniel Carvalho
Talita Fernandes
BRASÍLIA – A decisão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, de aumentar o confronto com Jair Bolsonaro afetou o apoio que ele detinha junto à cúpula militar do Palácio do Planalto e estimulou o presidente a intensificar a estratégia para forçá-lo a pedir demissão do cargo.
Desde a semana retrasada, Bolsonaro avalia trocar o comando do Ministério da Saúde, mas vinha sendo demovido até a semana passada pela cúpula fardada. O conselho era para que ele fizesse uma mudança apenas em junho, ao término da fase mais aguda da pandemia do coronavírus.
Assim, além de não descontinuar políticas em andamento para o combate à doença, ele não correria o risco de ser responsabilizado sozinho caso o sistema de saúde entre em colapso.
No domingo (12), no entanto, o ministro criou o que militares do governo consideraram uma “provocação desnecessária”.
Em entrevista à Rede Globo, Mandetta disse que o brasileiro não sabe se escuta ele ou o presidente sobre como se comportar e alertou que os meses de maio e junho serão os mais duros.
Ele também criticou aglomerações em padarias. Na quinta-feira (9), novamente ignorando as recomendações de isolamento social, Bolsonaro entrou em uma padaria para fotos e cumprimentos a apoiadores.
Para a cúpula fardada, Mandetta fez um confronto público com Bolsonaro, não obedecendo à hierarquia do cargo, e reacendeu um conflito que havia diminuído de temperatura.
A avaliação foi de que o ministro desprezou o esforço do núcleo militar para que ele fosse mantido no cargo e está preocupado apenas com a sua imagem pública, em uma tentativa de se candidatar a governador de Mato Grosso do Sul em 2022.
Ao longo desta segunda-feira (13), a postura de Mandetta na entrevista à Rede Globo foi alvo de queixas feitas ao presidente por ministros militares. Segundo relatos feitos à Folha, se antes a opinião da maioria era pela sua permanência, agora passou a ser pela sua troca.
Com o diagnóstico de que Mandetta perdeu um apoio de peso, o presidente avaliou, de acordo com deputados bolsonaristas, ter sido aberta uma nova brecha para intensificar a estratégia de pressioná-lo a pedir exoneração. Ao forçá-lo a se demitir, Bolsonaro quer evitar que Mandetta saia do governo com a imagem de mártir.
Segundo assessores presidenciais, a ideia é que a partir desta terça-feira (14) o ministro seja escanteado de reuniões, não participe de decisões do governo e que seja dado mais espaço a quem lhe faz um contraponto público.
A defesa feita por integrantes do núcleo ideológico, por exemplo, é para que o presidente faça questão de sempre citar tanto em entrevistas à imprensa como em postagens nas redes sociais as opiniões do deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) e da médica Nise Yamaguchi.
Os dois são cotados para substituir Mandetta e defendem o uso de hidroxicloroquina para casos de coronavírus em estágio inicial, além da adoção do que chamam de quarentena vertical, que preserve apenas os grupos de risco.
A repercussão negativa da entrevista também criou desconforto no Ministério da Saúde. Nesta segunda-feira, Mandetta evitou aparições públicas e não compareceu à entrevista que tem sido realizada diariamente no Palácio do Planalto para apresentar atualizações no cenário do coronavírus no país. Segundo aliados do ministro, ele submergiu para não ampliar o desgaste.
A ausência de Mandetta, cuja participação era prevista, não foi justificada e gerou estranheza inclusive entre outros integrantes da equipe ministerial, como Sergio Moro (Justiça), que compareceu à coletiva de jornalistas.
Os técnicos do Ministério da Saúde disseram, sem detalhes, que o ministro estava em uma reunião e tentaria chegar a tempo. Aliados de Mandetta reconhecem que a postura adotada por ele foi equivocada e defendem que ele evite novos confrontos.
Nesta segunda, questionado por jornalistas sobre a entrevista do ministro exibida no domingo (12), Bolsonaro disse que não assiste à Rede Globo e não quis comentar as declarações do auxiliar presidencial.
Segundo assessores palacianos, no entanto, no final da tarde de domingo Bolsonaro foi informado que Mandetta havia concedido uma entrevista à Rede Globo naquela tarde.
Segundo relatos feitos à Folha, ele assistiu ao conteúdo no Palácio da Alvorada e, para a surpresa de aliados, minimizou as declarações, avaliando que não foram graves.
Na tarde desta segunda, Bolsonaro participou ao lado do ministro da Defesa, Fernando Azevedo, de videoconferência com os responsáveis pelos dez comandos que discutem ações de combate ao coronavírus. O presidente deixou o ministério sem falar com a imprensa.
A relação entre Bolsonaro e Mandetta nunca foi próxima, sempre foi protocolar. O ministro foi indicado ao cargo pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), aliado de primeira hora do presidente, mas hoje rompido com ele por divergências na conduta de combate ao coronavírus.
Pela falta de afinidade com Mandetta, Bolsonaro chegou a cogitar a sua substituição em setembro de 2019, mas desistiu ao constatar que ele tinha amplo apoio junto ao setor da saúde.
No início da pandemia do coronavírus, o presidente se queixou ao ministro de que ele deveria defender mais o governo e o repreendeu por ter participado de uma entrevista ao lado do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), adversário político de Bolsonaro.
Mandetta modulou sua retórica e passou a pregar a importância de a atividade econômica não parar. Ele, no entanto, não se dobrou à pressão do presidente contra a medida de isolamento social, o que iniciou o embate entre ambos.
A crise com Mandetta abalou Bolsonaro. Segundo assessores presidenciais, pela primeira vez desde que assumiu o cargo, o presidente receou estar perdendo capital político ao constatar que parte da base bolsonarista nas redes sociais apoia o ministro.
De acordo com um aliado do presidente, preocupada com o marido, a primeira-dama Michelle Bolsonaro chegou a recomendar ao presidente que diminuísse o ritmo da agenda política para evitar um quadro de estresse.
Mandetta já mandou recado a Bolsonaro que só deixa o cargo se for exonerado. Ele, no entanto, tem demonstrado sinais de cansaço com a relação conturbada. Segundo servidores da pasta, amigos e familiares de Mandetta têm defendido que ele peça demissão.
Em jantar recente, correligionários do ministro disseram que ele estava visivelmente esgotado e que ele reconheceu que sua relação com Bolsonaro está muito desgastada. No encontro, ele também teria demonstrado irritação com o comportamento de Osmar Terra.
O ex-ministro da Cidadania tem dado entrevistas defendendo ideias contrárias às de Mandetta. Ao jornal argentino Clarín e a uma rádio, por exemplo, ele disse que o coronavírus “não matará mais do que a gripe do inverno”, menos de 1.000 pessoas. Até agora, 1.328 morreram no Brasil, segundo balanço do Ministério da Saúde.
Além do receio de que uma demissão transforme Mandetta em um mártir, Bolsonaro teme também a reação dentro de sua própria base de apoio.
Pesquisa Datafolha divulgada no início do mês mostrou que a aprovação do Ministério da Saúde no combate ao coronavírus subiu e já é mais do que o dobro da do presidente da República. Governadores e prefeitos também têm avaliação superior à de Bolsonaro.
A aprovação à atuação da pasta comandada por Mandetta passou de 55% no mês passado para 76% em abril. Já a aprovação ao presidente seguiu estável (33% ante 35%), dentro da margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos.
Enquadramento
No dia 6 de abril, um dia depois de ameaçar “usar a caneta” contra ministros que “viraram estrelas”, Bolsonaro foi questionado por Mandetta sobre o motivo pelo qual não o demitia. A pergunta surgiu em reunião de ministros; o presidente, segundo relatos, não respondeu. Ministros militares, em parte responsáveis por demover Bolsonaro da ideia de exonerar o titular da pasta da Saúde, tentaram contornar a situação. Mandetta também perguntou por que fora nomeado, já que o presidente não o ouvia
Recados em discurso
Após um dia inteiro de indefinição, na mesma segunda-feira (6), Mandetta anunciou que ficaria na pasta e mandou recados ao presidente. Defendeu insistentemente o respeito à ciência e citou o mito da caverna de Platão, uma alegoria sobre o conflito entre a ignorância e o conhecimento. Também apoiou as medidas dos governadores que se tornaram antagonistas do presidente na crise de saúde
Críticas ao presidente em Goiás
No sábado (11), depois de Bolsonaro participar de aglomeração de apoiadores em Águas Lindas de Goiás, Mandetta, que também estava na cidade e observou a multidão à distância, criticou o presidente.
“Posso recomendar, não posso viver a vida das pessoas. Pessoas que fazem uma atitude dessas hoje daqui a pouco vão ser as mesmas que vão estar lamentando”
Entrevista ao Fantástico
Em entrevista no domingo (12) ao Fantástico, da TV Globo, Mandetta disse que o brasileiro “não sabe se escuta o ministro da saúde, se escuta o presidente, quem é que ele escuta”. Ele defendeu que o governo federal tenha uma “fala única” sobre a pandemia para orientar a população.
FOLHA/montedo.com
Respostas de 9
A maioria se preocupa em como se perpetuar no poder e na vida boa que a política proporciona! Povo? Serve só para votar e manter esta casta no luxo de seus gabinetes! Com seus auxílios disto e daquilo, viagens, hotéis e restaurantes de luxo, muitas passagens aéreas e jatos da FAB à disposição, seguranças e carrões blindados, muitos assessores, uma vida de marajá! Quantas “excelências” morrerão de coronavírus? Certamente nenhuma! Já no povão…
Que chance de se alçar ao nível de um Getúlio está perdendo. Bastava liderar o país desde o início da crise ao invés de sabotá-lo.
Não podemos comparar um sujeito que saiu do EB da maneira que saiu, que acabou com a operação Lavajato, que pairam todas as suspeitas sobre envolvimento com Milicia, que publica Fake, que afirma hoje e amanha volta atrás, que esconde seu Vice, que vai contra o mundo cientifico, que muitos eleitos com ele já o abandonaram ( menos os sanguessugas), que é grosseiro nas suas falas, que se cercou de militares, embora o governo não o seja, então só usa a imagem da instituição para desgastá-la perante a opinião pública; esse camarada não poderia ser comparado a Getúlio, lhe falta caráter.
Obs: sou anti PT…mas não sou cego!
Temos agora o que lutamos para ter: um Lula Livre verde -amarelo.
Vc é idiota e mal informado mesmo ou e mau caráter mesmo.
Bolsonaro nunca mais.
Não perde seu tempo com piadas. Vai piar em outro terreiro. Nós não elegemos uma dama de honra para carregar flores nesse casamento. Uma das piores coisas que aconteceu com o Brasil foi Getúlio Vargas. Só ganhamos a Cia Siderúrgica Nacional por conta da pressão dos EUA.
Me impressiona constatar que a manipulação é tanta que um desconhecido fala em nome da “cúpula fardada” e ainda tem gente que concorda ou até discorda como se fosse a palavra oficial. Onde vamos parar!
Ninguém é insubstituível.
O Presidente é quem deve falar pelo poder executivo, todas as decisões cabem a ele, somente o presidente é responsável pelo que fez e o que deixou de fazer.
Uma coisa é ser ou se considerar imprescindível. Outra é ser ou se considerar insubstituível. Não há ninguém exatamente igual. Eu te considero insubstituível. Vc não é um parafuso. Tua falta pode causar grandes infortúnios. Há uma passagem que diz assim: ” Houve um desconhecido que salvou uma cidade inteira e depois ninguém mais se lembrava dele”. Como já perguntaram antes, eu pergunto novamente:
Quem substituiu Ludwig Van Beethoven?