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Heróis esquecidos
Sertanejos foram atraídos pelo governo para extrair látex na Amazônia durante a II Guerra Mundial
"Soldados da borracha" lutam por equiparação salarial com pracinhas da Força Expedicionária Brasileira Marcelo Monteiro/Agencia RBS
Soldados da borracha ainda buscam reconhecimento pelo sacrifício a que foram submetidosFoto: Marcelo Monteiro / Agencia RBS
Marcelo Monteiro | Porto Velho (RO)
As quedas de Adolf Hitler e Benito Mussolini e as bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki não trouxeram paz para um grande contingente de brasileiros. Sete décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, os soldados da borracha ainda buscam reconhecimento pelo sacrifício a que foram submetidos em nome da pátria no chamado “front interno”.
Recrutados pelo governo do presidente Getúlio Vargas para atuar na extração de látex, que seria enviado à indústria bélica norte-americana, os remanescentes da Batalha da Borracha lutam pela equiparação salarial com os integrantes da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Com idade avançada — muitos deles têm sérios problemas de saúde —, esses heróis esquecidos veem no possível aumento nos ganhos a sua grande e última esperança por dias melhores no fim da vida.
Em 1988, com a sua inclusão oficial na condição de combatentes da guerra, os soldados da borracha passaram a ter direito a uma pensão vitalícia, de atualmente R$ 1,35 mil, menos de um terço do soldo recebido pelos pracinhas (R$ 4,6 mil).
— Quando o governo precisou, eles (trabalhadores) vieram de boa vontade. Agora é a hora de reconhecer o esforço desses homens — afirma George Menezes, neto de soldado da borracha e atual vice-presidente do Sindicato dos Soldados da Borracha e Seringueiros de Rondônia (Sindsbor).
Entre 1942 e 1945, cerca de 60 mil brasileiros — em sua maioria, nordestinos — fugiram da seca no sertão, migrando para a Amazônia. Acreditando na promessa de prosperidade na região Norte propagandeada pelo governo, sonhavam com trabalho e fortuna.
Porém, nos seringais inóspitos do Amazonas, Pará, Acre e na área do atual Estado de Rondônia (criado oficialmente em 1982), maior parte deles — em torno de 35 mil — deparou com a morte. Além de doenças como malária, beribéri, tuberculose, febre amarela, muitos pereceram atacados por onças, sucuris e cobras peçonhentas. Outros acabaram mortos por índios nativos e ainda selvagens. Outros, ainda, terminariam assassinados por pistoleiros a mando de seringalistas, verdadeiros coronéis da borracha, que em suas propriedades adotavam práticas hoje consideradas análogas à escravidão.
Se, na propaganda oficial, o governo prometia aos migrantes toda a estrutura necessária — alimentação, estadia e materiais de trabalho como tigelas, facas, baldes e bacias —, na prática, os seringueiros já chegavam à Amazônia com dívidas junto aos donos dos seringais.
— Não nos foi dado nada. Foi vendido. Nós compramos tudo. Aliás, compramos esses utensílios duas ou três vezes — conta o baiano Antônio Barbosa da Silva, 90 anos.
Recrutado em 19 de abril de 1942, em sua cidade natal, Alagoinhas, dois meses depois Silva já estava na região onde hoje fica a capital de Rondônia, Porto Velho. Segundo ele, em razão do alto preço determinado pelos seringalistas, que monopolizavam a venda de itens de alimentação e higiene, com preços entre 200% e 400% acima do mercado, os trabalhadores dificilmente conseguiam produzir o suficiente para quitar as dívidas.
Impedidos de plantar frutas e verduras e de criar animais para consumo próprio — o que reduziria os ganhos dos seringalistas —, os trabalhadores eram obrigados a pagar o valor imposto nos barracões por produtos como farinha, carne seca e fumo. Um pacote de café, por exemplo, chegava a custar quatro vezes o preço pelo qual era vendido nas cidades. Assim, quanto mais os seringueiros trabalhavam, mais endividados ficavam.
— Eles diziam “ó, arigó, esse rancho você leva e, se não produzir (látex), não tem mais. E, se tentar fugir, eu mando atrás e mato”. E matavam mesmo — conta Silva.

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Criados para operacionalizar o recrutamento e a transferência dos trabalhadores para a Amazônia, o Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia (Semta) e a Comissão Administrativa de Encaminhamento de Trabalhadores para Amazônia (Caeta) prometiam aos arigós — trabalhadores que aceitavam a missão nas inóspitas terras do Norte — toda a assistência médica e social necessárias. O governo ainda garantia que, após a guerra, quem quisesse poderia retornar para a cidade de origem, sempre com o apoio oficial.
Entretanto, dos 60 mil jovens que migraram para o Norte, estima-se que apenas 6 mil — um em cada 10 trabalhadores — tenham efetivamente voltado para casa. Os outros quase 20 mil — o número é estimado, pois não há dados oficiais exatos — permaneceram na Amazônia, muitos endividados com os seringalistas, outros simplesmente sem dinheiro para retornar para o Nordeste.
Entre os que ficaram na região, a assistência oficial praticamente inexistiu. A imensa maioria nunca contou com a atendimento médico ou proteção jurídica do Estado. Abandonados à própria sorte, muitas vezes a milhares de quilômetros do aglomerado urbano mais próximo, muitos morreram à míngua, isolados do mundo, deixados para trás como um dos tantos — e tristes — espólios da Segunda Guerra em todos os continentes.
ZERO HORA/montedo.com
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