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Miniaturas de aeronaves não tripuladas revolucionam a estratégia de combate dos EUA

Elisabeth Bumiller e Thom Shanker

OHIO, EUA – A pouco mais de três quilômetros do pasto onde os irmãos Wright aprenderam a voar com os primeiros aviões, pesquisadores americanos estão trabalhando em outra revolução no ar: o encolhimento de aviões não tripulados controlados à distância, do tipo que atira mísseis no Paquistão e espiona os insurgentes no país, para o tamanho de insetos e pássaros.
O laboratório de voo interno da Base da Força Aérea Wright-Patterson é chamado de “microaviário”. Os aviões não tripulados em desenvolvimento são elaborados para copiar o mecanismo de voo de mariposas, falcões e outros habitantes do mundo natural.
A meio mundo de distância, no Afeganistão, fuzileiros navais se assombram com um dos novos balões de espionagem na forma de um pequeno dirigível que flutua a 4.500 metros sobre um dos postos avançados mais sangrentos da guerra, o de Sangin, na província de Helmand. O balão pode transmitir vídeo ao vivo – de uma distância de até 32 km – de insurgentes fabricando bombas caseiras.
De pequenos dirigíveis a insetos, uma explosão de aviões não tripulados está mudando a forma com que os EUA lutam e refletem sobre a guerra. Aviões não tripulados Predator, que dominam as operações desde o 11 de Setembro, são agora uma marca conhecida e temida no mundo. Muito menos conhecidos são os de tamanho e variedade de um universo de aviões em rápida expansão, junto com os dilemas que os acompanham.

Bin Laden e Kadafi já foram alvos

O Pentágono tem cerca de 7 mil destes aviões, comparados com menos de 50 há dez anos. Na próxima década, a Força Aérea prevê uma redução dos aviões tripulados, mas espera que os não tripulados “multitarefa”, como os Reaper – aqueles que espionam e atacam – quase quadrupliquem, para 536. A Força Aérea já está treinando mais pilotos remotos, 350 só neste ano, do que pilotos de caça e bombardeio juntos.
– É um mercado em expansão – disse Ashton B. Carter, chefe de Compra de Armas do Pentágono.
O Pentágono pediu ao Congresso cerca de US$ 5 bilhões para os aviões não tripulados no próximo ano e até 2030 prevê mais itens de ficção científica, como “moscas espiãs” equipadas com sensores e microcâmeras para detectar os inimigos, armas nucleares ou vítimas sob escombros.
A CIA espionou o complexo de Osama bin Laden no Paquistão com um vídeo transmitido de um novo modelo com asas de morcego, o RG-170 Sentinel, também conhecido como a “Besta de Kandahar”. Um dos rebeldes paquistaneses mais procurados, Ilyas Kashmiri, foi dado como morto este mês em um ataque da CIA, como parte de uma campanha com aviões não tripulados que os militares dizem que ajudou a paralisar a al-Qaeda na região – e se tornou uma justificativa possível para a retirada das forças americanas do Afeganistão. Desde 2006, estes aviões mataram mais de 1.900 insurgentes em áreas tribais do Paquistão.
Em abril os EUA começaram a usar os Predadores armados contra as forças de Muamar Kadafi, na Líbia. No mês passado, um Predador da CIA lançou um míssil contra Anwar al-Awlaki, o clérigo radical nascido nos EUA, que acredita-se estar escondido no Iêmen. O avião falhou, mas eles continuam a patrulhar os céus do Iêmen.
Grandes ou pequenos, estas aeronaves levantam questões quanto ao crescimento desconectado entre o público americano e suas guerras. Especialistas em ética militar reconhecem que eles podem transformar a guerra em um videogame, infligir baixas civis e, sem americanos diretamente envolvidos em riscos, lançar o país mais facilmente em conflitos.
– Há um tipo de nostalgia pela forma como costumava ser – disse Deane-Peter Baker, professor de Ética da Academia Naval dos EUA, em referência a noções nobres de combate cavaleiro contra cavaleiro. Para ele, estes aviões são parte de uma era pós-heroica e isso não é sempre um problema.
– É uma coisa ruim se não tiver um objetivo em primeiro lugar – disse. – Mas se tivermos uma causa justa, devemos celebrar qualquer coisa que nos permita alcançá-la.
Para Peter Singer, acadêmico do Brookings Institution, o debate em torno dos aviões não tripulados é semelhante à discussão sobre os computadores em 1979: eles estão aqui para ficar e o estrondo apenas começou.
– Estamos no estágio de aviador dos irmãos Wright nesse assunto – disse Singer.
O próximo passo agora é desenvolver tecnologia de “bater de asa” ou recriar a física do voo natural, com foco em insetos. Pássaros têm músculos complexos que movem as asas, o que dificulta a cópia da aerodinâmica. Insetos têm movimentos mais simples.
Em fevereiro, pesquisadores revelaram um avião não tripulado em forma de beija-flor, construído pela firma Aero Vironment para a reservada Agência de Pesquisa em Projetos Avançados de Defesa, que pode voar até 17 km/h e se empoleirar em uma janela. Mas é ainda um protótipo. Um dos menores destes aviões em uso no campo de batalha é o Raven, que soldados no Afeganistão lançam com as mãos.
Existem cerca de 4.800 Ravens em operação, embora vários tenham se perdido. Um modelo maior é o Global Hawk, usado para observar as atividades com armas nucleares na Coreia do Norte. Em março, o Pentágono enviou um deles sobre a arrasada usina nuclear de Fukushima Daiichi, no Japão, para averiguar danos.
O futuro destes aviões está na sede da Força Aérea na Base Conjunta Langley-Eustis, na Virgínia, onde centenas de TVs de tela plana ficam penduradas em esqueletos de metal. De fato, esta é uma das mais sensíveis instalações para o processamento de uma tsunami de informações a partir da rede global de sensores de voo. Desde o 11 de Setembro, as horas da Força Aérea em missões de voo para inteligência, vigilância e reconhecimento aumentaram 3.100%, a maioria com estes aviões.
As pressões sobre os humanos vão aumentar enquanto os militares avançam da visão de “canudo de refrigerante” dos sensores atuais para uma tecnologia que pode capturar vídeo ao vivo de uma cidade inteira, mas que requer 2 mil analistas para processar os dados de uma aeronave. O padrão de hoje é de 19 para cada avião.
NYT, via O GLOBO
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