Escolha uma Página
Evandro Éboli
Givaldo Barbosa/O Globo

O clima de constrangimento era zero. Um dia após levar um cala-boca do Comando do Exército e suspender a palestra “A contrarrevolução que salvou o Brasil”, sobre o 31 de março, o general Augusto Heleno estava muito à vontade ao lado de quem ordenou o seu silêncio, o comandante do Exército, general Enzo Peri, e do ministro da Defesa, Nelson Jobim. O encontro festivo ocorreu nesta sexta-feira de manhã após uma cerimônia militar, no 4º andar do Quartel-General.

Heleno, Peri e Jobim conversaram animadamente, descontraídos, e riram várias vezes. A conversa durou mais de uma hora, com direito a uísque servido pelo cerimonial e poses para fotos com parentes de militares presentes ao evento.
Popular entre os oficiais, o general Heleno circulava bem à vontade pelo salão. Em conversa com O GLOBO, o militar se mostrou resignado por não ter feito seu discurso. Mas fez questão de enfatizar que todo ano sempre o fez. Sem citar nomes, sugeriu que a proibição de se manifestar no dia em que se comemora o golpe militar partiu da presidente Dilma Rousseff.
– Sempre fiz (discurso nesta data). E nunca houve isso (proibição). Órdi é órdi (ordem é ordem) – brincou Heleno.
Perguntado sobre de quem partiu a determinação para não falar, respondeu:
– Você não vai arrancar isso de mim. É trabalho para vocês, que analisam cenários e tal – afirmou.
A palestra do general estava marcada para esta quinta-feira, mas foi suspensa quarta-feira, após determinação de Peri.
Mesmo se a suspensão fosse a poucos minutos da palestra, eu a suspenderia. Estou tranquilo. Vida que segue – disse Heleno.
No discurso que fez em 2010, no Quartel-General, Heleno reverenciou os militares que atuaram contra militantes de esquerda e, segundo ele, ajudaram a impedir que o país seguisse o exemplo de Cuba, Coreia do Norte, Albânia e União Soviética. Disse que, fora do contexto, é fácil falar sobre abusos na luta contra a subversão e que, entre os que condenam os militares, há muitos ex-guerrilheiros que ocupam altos postos da República.
Heleno está na reserva, mas continua à frente do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército. Ele deixará o cargo em maio. A solenidade desta sexta-feira foi de transmissão de cargos dos novos chefe de Gabinete do Comando do Exército, general Mauro César Cid, e do general Edson Leal Pujol, novo chefe do Centro de Informações do Exército (CIE).
Skip to content