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Belavistense integrou Missão de Paz no Haiti
Tania Santor

“Um forte terremoto de magnitude 7 devastou o Haiti às 16h53 do dia 12 de janeiro, hora local -19h53 de Brasília. O epicentro foi a poucos quilômetros da capital, Porto Príncipe. A situação humanitária do país, o mais pobre das Américas, é caótica. Pelo menos 200 mil pessoas morreram, 300 mil ficaram feridas, 4 mil foram amputadas. Há um milhão de desabrigados”. Fonte G1. Está foi a noticia que o Soldado Renan recebeu no dia de seu aniversario 12 de janeiro.

No dia 28 de julho de 2010, o Soldado Belavistense Renan Cristiano Doneda embarcou para sua primeira missão fora do Brasil, a missão de manter a Paz no Haiti e ajudar a reorganizar o que o terremoto havia destruído, devolvendo um pouco de esperança e paz a todos que já não tinham mais nada.
Renan Cristiano Doneda, de Bela Vista da Caroba ingressou no Exército em 2009, sua mãe nunca foi muito a favor do filho seguir carreira no Exército, mas nunca deu contra. “Antes de ele ir para o Exército passou dois anos no Seminário eu ficava bem mais tranquila, quando ele saiu do Seminário e resolveu entrar no Exército confesso que não gostei muito, eu acho perigoso, mas foi uma decisão dele, e se ele está feliz com essa profissão eu estou rezando para que ele continue feliz”, disse Cleni Doneda, mãe de Renan.
O Soldado Renan concedeu entrevista ao Jornal Novo Tempo e falou sobre os seis meses em que esteve no Haiti. Outro Soldado de família belavistense, Edemar Garda, também integrou a Missão de Paz no Haiti.
JNT – Como é a vida no Haiti?
Soldado Doneda- Para nós soldados, difícil pela saudade de tudo que ficou no Brasil, mas para os haitianos está muito mais difícil. Falta tudo: medicamento, comida, casas, pouca coisa foi mexida depois do terremoto e é muito triste ver as pessoas sem nenhuma perspectiva de vida.

JNT – Você estava preparado para enfrentar essa missão?
Soldado Doneda – Não pensei que eu fosse selecionado para ir, mas nós sempre temos que estar preparados, fomos treinados para as piores situações possíveis. Quando chegamos no Haiti nossa missão era manter a paz que já havia sido estabelecida em 2004, e isso acho que nós conseguimos fazer, por isso acho que minha missão foi cumprida.

JNT – Qual foi o momento mais tenso da missão?
Soldado Doneda – Foi nas eleições quando o povo se revoltou contra o MINUSTAH – Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti, foi muito difícil porque eles atacavam os soldados mesmo, fomos mandados para o norte do pais onde a população estava revoltada com os soldados do Chile, graças a Deus os haitianos gostam dos brasileiros e assim conseguimos manter o controle da situação novamente, alguns soldados ficaram feridos mas nada grave.

JNT – Como está a reconstrução do país?
Soldado Doneda – No meu ponto de vista não há reconstrução, está tudo como estava. O país não tem dinheiro para reconstruir e as pessoas vivem em péssimas condições, sem higiene nenhuma, sem comida, sem casa, quase não há energia elétrica. Na verdade quando se está aqui se tem uma noção de destruição, quando chega no Haiti, vê que tudo está pior do que se pensava.

JNT – O que você achou do povo Haitiano?
Soldado Doneda – Bastante esforçados, com vontade de trabalhar, porém sem expectativa de vida. Eles amam o Brasil, tem um respeito por nós brasileiros, eles são amigos, claro que existem bandidos em todos os lugares e lá não é diferente, porém tem muito mais pessoas boas do que ruins. Eles chamam os soldados brasileiros de “bombagai”, que significa gente boa, amigo.

JNT – Como é a educação Haitiana?
Soldado Doneda – A maioria das pessoas são poliglotas, o que aqui no Brasil uma pequena porcentagem fala mais de dois idiomas, lá eles falam quatro e até cinco, é um povo muito inteligente, porém não ha ensino público e poucos pais tem dinheiro para custear o estudo dos filhos, quando eles conseguem, ficam muito felizes pelo resultado. É muito comum ver as pessoas lendo no final do dia, antes que o sol se ponha, quando ainda há um pouco de luz, eles lêem muito e isso faz deles um povo diferenciado.

JNT – Tem algum episódio que mais te marcou nesses seis meses?
Soldado Doneda – Acho que não apenas um, mas toda vez que eu via uma criança mutilada, comendo lixo, chorando sem ninguém por ela, isso era a parte mais triste saber que essas crianças não terão oportunidades, eu ficava pensando o que vai ser delas amanhã, acho que isso me doeu muito, é ainda dói, deixamos crianças amigas lá e às vezes da vontade de saber como elas estão.

JNT – O que foi mais difícil?
Soldado Doneda – Ah, com certeza a saudade, foram seis meses de muito trabalho com poucas folgas, quando estávamos na base conseguíamos falar com as famílias pelo Skipe, MSN enfim a vontade de voltar pra casa nas festas era grande, mas sabia que o que estava fazendo era importante para muita gente.

JNT – O que faziam nas horas de folga?
Soldado Doneda – Não podíamos sair em Porto Príncipe, então quando precisávamos de alguma coisa e estávamos de folga, uma escolta nos levava até a divisa com a República Dominicana e lá era bem tranquilo podia sair. Compras eram os momentos em que podíamos relaxar um pouco.

JNT – O que mais vai te deixar saudade do Haiti?
Soldado Doneda – Ah, com certeza as crianças, quando estávamos de serviço na base sempre que podiamos nós traziamos maçãs e outros tipos de alimentos e eles sempre estavam a espera, tem três ferinhas que eu nunca vou esquecer que eram o Péle, Bebeto e Kaká, esses eram os apelidos deles e víamos eles todos os dias, quando arrumamos as malas para voltar ao Brasil, reunimos nossos pertences como roupas, calçados, óculos, materiais de higiene e distribuímos a eles, foi muito bom ver eles tão felizes, acho que isso eu nunca vou esquecer.

JNT – O que você trouxe de maior exemplo?
Soldado Doneda – Com certeza não reclamar mais da comida (risos), agora tenho mais certeza ainda que minha vida é maravilhosa e que existem milhões de pessoas querendo estar no meu lugar.

JNT – Voltaria ao Haiti?
Soldado Doneda – Acho que se tivesse condições de viajar até lá, iria sim, procuraria as pessoas que conheci nesse tempo, gostaria de ver aquele país reconstruído, e todas aquelas pessoas com expectativa de vida, eu iria lá sim e ajudaria ainda mais aquelas pessoas.

JNT – Já matou a saudade da família, amigos?
Soldado Doneda – Já, acho que já estão cansando de mim, logo volto ao trabalho e ai quero me dedicar ao máximo para seguir carreira no Exército.
Jornal Novo Tempo (Bela Vista-MS)
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