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Um dos relatos mais vívidos da Primeira Guerra Mundial, o diário do escritor alemão Ernst Jünger, está sendo publicado pela primeira vez. Sua descrição desapaixonada da vida e da morte na Frente Ocidental é uma fria denúncia da guerra – apesar de Jünger ter encarado o conflito como um glorioso teste de masculinidade.

26 de agosto de 1916, Guillemont, região do Somme, nordeste da França:
“Na frente do meu buraco está um inglês que caiu lá ontem. Ele é gordo e está inchado, tem sua mochila completa nas costas e está coberto por milhares de moscas azuis-metálicas”.
1º de julho de 1916, Monchy, perto de Arras:
“De manhã fui à igreja da aldeia, onde estão guardados os mortos. Hoje havia 39 caixas simples de madeira e grandes poças de sangue tinham vazado de quase todas elas; foi uma visão horrível na igreja vazia”.
22 de março de 1918, Vraucourt:
“… houve um ruído e ele caiu coberto de sangue, com um tiro na cabeça. Despencou em seu canto da trincheira e ali ficou, com a cabeça encostada na parede da trincheira, em uma posição agachada. Seu ronco mortal vinha em intervalos cada vez mais longos, até que parou totalmente. Nos últimos estertores ele eliminou água. Eu, agachado ao seu lado, registrava esses acontecimentos de modo impassível”.
Pouco antes do 92º aniversário do armistício que pôs fim à Primeira Guerra Mundial, em 11 de novembro de 1918, uma das descrições mais completas e vívidas do conflito é publicada pela primeira vez – os diários de guerra do escritor Ernst Jünger, um tenente da infantaria alemã que combateu desde pouco depois do início, em agosto de 1914, até agosto de 1918, três meses antes do fim, quando levou um tiro no pulmão. Foi seu sétimo ferimento. Jünger morreu somente em 1998, aos 102 anos.
O diário escrito em 15 cadernos – Jünger escreveu mais tarde que não se lembrava se as manchas neles eram sangue ou vinho – foi a base para seu livro “In Stahlgewittern”, ou “Tempestade de Aço”, uma reminiscência profundamente polêmica publicada pela primeira vez em 1920, que glorifica a guerra como um teste purificador do indivíduo e da força nacional. Ele se tornou um ícone dos nacionalistas conservadores depois da guerra, e os nazistas o celebraram como um herói. Mas Jünger os manteve à distância e se recusou a entrar no partido.
Diário cobre 13 anos e oito meses de combate
Jünger continuou refinando “Tempestade de Aço” com passagens cada vez mais poéticas para satisfazer suas pretensões literárias. Mas o diário agora publicado é um registro cru e factual dos acontecimentos, registrados horas ou no máximo dias depois de terem ocorrido. Ele oferece uma clara visão da vida e da morte nas trincheiras, por um soldado que esteve no “front” durante a maior parte da guerra que moldou o século 20. A viúva de Jünger, Liselotte Lohrer, só deu permissão para sua publicação no ano passado. Ela morreu este ano.
“Não tenho conhecimento de qualquer diário comparável, seja em alemão, francês ou inglês, que descreva a guerra com tal detalhe durante um período tão extenso”, disse a “Spiegel Online” o biógrafo de Jünger, Helmuth Kiesel, que providenciou sua transcrição e publicação. “Todos os outros diários geralmente são muito menores e abrangem apenas algumas semanas ou meses.”
Isso porque um soldado de infantaria tinha uma pequena chance de sobreviver até um ano ileso, quanto menos durante todo o conflito. E a maioria não se dispunha a reviver a miséria da vida nas trincheiras anotando tudo, dia após dia, em detalhes anatômicos.
Jünger, que tinha 19 anos no início da guerra, alistou-se imediatamente, como milhões de jovens em toda a Europa, que pensaram que seria uma aventura rápida. Mas, enquanto a terrível realidade do combate rapidamente esfriou o ardor da maioria dos homens, Jünger parece ter sido tomado por um fascínio pela guerra como um julgamento através do combate.
“Ainda assim, a impressão heróica e grandiosa dada por esta interminável passagem da morte anima e revigora a nós, sobreviventes. Por mais estranho que possa parecer, aqui você reencontra seus ideais, a devoção total a um ideal, até a terrível morte em batalha”, ele escreveu em 3 de julho de 1916.
Em 3 de setembro desse ano, depois de ter sido ferido pela segunda vez, por estilhaços na perna esquerda, Jünger escreveu: “Eu testemunhei tanta coisa nesta Grande Guerra, mas o objetivo de minha experiência de guerra, o ataque tempestuoso e o choque da infantaria, me foi negado até agora (…) Que este ferimento sare e me permita voltar para lá; meus nervos ainda não tiveram o suficiente!”
Em 19 de junho de 1917, depois de liderar uma perigosa patrulha na terra de ninguém, ele escreve: “Ser um líder com a cabeça clara nesses momentos é assemelhar-se a Deus. Poucos são escolhidos”.
Sorte milagrosa
A maioria das pessoas consideraria sua atitude desesperadamente orgulhosa e até insana. Kiesel disse que talvez Jünger tenha escrito essas palavras porque queria ser lembrado como um herói se fosse morto – mas também porque estava decidido a manter o sentido de valor individual em uma guerra mecanizada, com bombardeios maciços, em que o indivíduo nada valia.
Jünger, que ganhou a Cruz de Ferro e o mais alto galardão militar, o “Pour le Mérite”, participou da batalha do Somme em 1916 e lutou em Ypres em 1917, assim como em Artois e na Champagne. Passou quase três anos nas trincheiras no triângulo sangrento entre as cidades de Arras, Albert e Cambrai, no nordeste da França, na chamada Frente Ocidental. Foi promovido a tenente em novembro de 1915.
“É a experiência de guerra de um líder de tropa empedernido”, disse a “Spiegel Online” o historiador Gerd Krumeich, um dos autores do livro “National Socialism and the First World War” [Nacional Socialismo e a Primeira Guerra Mundial].
Jünger teve tanta sorte quanto coragem. É quase milagroso que ele não tivesse sido morto ou aleijado. O diário está cheio de momentos arriscados como bombas caindo sem explodir ao seu lado, outras explodindo onde ele havia estado um minuto antes e estilhaços de cartucho zumbindo entre suas pernas ou perto de seus ouvidos.
Ele foi atingido por 14 projéteis, apenas três dos quais vieram de fogo de artilharia indiscriminado. Os outros 11 – balas de rifle e estilhaços de granadas manuais – foram dirigidas a ele pessoalmente por soldados britânicos ou franceses. Sua companhia do 73º Regimento de Infantaria de Hanôver foi quase completamente eliminada em duas ocasiões. Quando ele foi ferido pela última vez em Cambrai, dois homens que tentaram carregá-lo nas costas para salvá-lo foram mortos com tiros na cabeça.
Abordagem animada contrasta com a maioria dos autores
A abordagem de Jünger contrasta fortemente com a maioria dos outros retratos importantes da Primeira Guerra Mundial. O escritor alemão Erich Maria Remarque e autores britânicos como Siegfried Sassoon, Wilfred Owen, Robert Graves ou Edmund Blunden a pintaram como um desastre inqualificável para os homens que a combateram e para toda a humanidade. Blunden descreveu a batalha de Passchendaele como “assassinato, não apenas das tropas, mas de suas fés e esperanças”.
O relato de Jünger se compara, pelo menos em extensão no serviço de guerra, ao do soldado britânico Francis Philip Woodruff, cuja memória, “Old Soldiers Never Die” [Velhos soldados nunca morrem], escrita sob o pseudônimo de Frank Richards, foi publicada pela primeira vez em 1933. Woodruff serviu durante toda a guerra como soldado de infantaria na Frente Ocidental, de agosto de 1914 até o armistício, sem sofrer ferimentos sérios. Ele disse que teve “uma sorte de 20 mil para 1”.
Paradoxalmente, o entusiasmo de Jünger torna seu diário drasticamente eficaz como um livro antibélico, porque descreve a morte e a destruição com uma precisão incansável. Ele documentou os fatos com a mesma dedicação científica que demonstrou em sua outra paixão, a coleção de besouros. Em sua determinação a não esquecer nada, ele também transmite como os soldados se tornavam anestesiados diante da morte ao seu redor e ao sofrimento dos outros nessa primeira guerra moderna de constantes barragens de artilharia, ataques com gás, metralhadoras e tanques.
“Esta tarde encontrei dois dedos ainda presos ao osso metacarpo, perto da latrina da fortaleza de Altenburg”, escreveu Jünger em 17 de outubro de 1915. “Eu os apanhei e tive a agradável ideia de transformá-los em um porta-cigarros. Mas ainda havia carne decomposta branca-esverdeada entre as juntas (…) por isso desisti.”
Os diários são cheios de referências a festas com bebedeiras e relatos de semanas passadas em trincheiras úmidas e frias sob constante fogo de artilharia. Ele descreve os ferimentos mais horríveis com um olhar desapaixonado e mostra como a morte nas trincheiras por uma bala de franco-atirador ou um cartucho perdido torna-se tão comum que os soldados não permitem que ela interrompa por muito tempo seu jogo de cartas.
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