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DANIELA MELLER
A reportagem da Folha acompanhou com exclusividade a troca de tropa que compõe a Força de Paz do Haiti, na última sexta-feira, 13. Hoje o Brasil mantém no local contingente de 2.200 militares do Exército e Marinha, que também possui uma companhia de fuzileiros navais em solo haitiano. Cada grupo passa seis meses no país mais pobre das Américas, que foi devastado por um forte terremoto em 12 de janeiro, deixando milhares de mortos e desabrigados.
Os voos, iniciados no segundo semestre deste ano, devem ocorrer até a troca completa dos militares que fazem parte da missão. Até lá, aproximadamente mil militares do Exército Brasileiro devem passar por Roraima.
Durante a viagem, realizada em um avião Boeing KC-137, da Força Aérea Brasileira (FAB), 130 militares de diversas cidades da região Sul do Brasil, se deslocaram ao país para substituir os integrantes do 12 Brabatt (Brasilian Batalian, ou o 2º Batalhão de Infantaria de Força de Paz), que estavam no Haiti há quase sete meses. O avião partiu da Base Aérea de Boa Vista, às 7h45 de sexta-feira e por volta das 9h40 pousou em solo haitiano. No retorno, 128 militares, com apenas uma mulher, voltaram ao Brasil.
Em solo haitiano, a equipe de reportagem recebeu apoio da seção de comunicação do 2º Batalhão de Infantaria de Força de Paz (Brabatt 2). Acompanhada pelo tenente coronel Faulstich, a equipe permaneceu apenas três horas no local.
Da saída do Aeroporto Internacional do Haiti, até o centro da capital, Porto Príncipe (Port-au-Prince, em Francês), a equipe seguiu até o Forte Nacional, em um veículo blindado (Guara). Durante o trajeto de ida, de apenas seis quilômetros, foram necessários aproximadamente 40 minutos por conta do trânsito caótico.
A equipe seguiu pela avenida principal, passando pelas áreas consideradas mais críticas no quesito violência, entre os bairros Sité Solei e Belair. Durante o percurso a reportagem observou o sofrimento do povo haitiano. Além da lentidão e confusão no trânsito, é difícil não ver a grande quantidade de lixo espalhado pelas calçadas, ocupando parte das ruas e a entrada das poucas casas que não foram completamente destruídas pelo terremoto.
Segundo o oficial, Sité Solei, antes da atuação do Brabatt 2, era considerado um dos bairros mais perigosos e violentos de Porto Príncipe. Os crimes mais comuns praticados pelas gangues na região eram tráfico de drogas, furtos, roubos e homicídios.
Na época do terremoto, ali estava instalada a Blue House (Casa Azul), uma espécie de posto de apoio do Batalhão, que ajudava as patrulhas. Com a destruição do prédio, 12 militares morreram.
Atualmente, segundo o tenente coronel, o índice de violência reduziu consideravelmente. A Folha pôde comprovar isso, vendo a atuação direta dos militares brasileiros, que andam e se misturam junto aos nativos, sem problemas mais sérios.
Já Belair, considerado o centro político e administrativo da capital, apesar de ser um bairro rodeado por diversas bases criminosas, a maioria delas de tráfico de drogas, também está com seu índice de violência diminuindo por conta da atuação diária das tropas da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah).
RETORNO – O comandante do 12º contingente do Brabatt 2, coronel Rêgo Barros, que teve sua tropa substituída nesta viagem, falou sobre a experiência vivida nos quase sete meses em solo haitiano.
Ele contou que chegou ao país no dia 20 de janeiro, oito dias após a catástrofe natural. Antes disso, o oficial já tinha ido ao local outras duas vezes, o que proporcionou a ele uma experiência maior, que naturalmente foi repassada a tropa.
“O Haiti, desde a atuação das tropas avançou muito. Com a tragédia todos os sonhos, principalmente do povo haitiano, parecia que estava próximo ao fim. Mesmo assim conseguimos manter um ambiente seguro e estável. Distribuímos mais de 8 mil toneladas de alimentos. Neste período a FAB realizou mais de 260 voos além de quatro embarcações da Marinha, que levaram equipamentos e ajuda humanitária”.
“Pessoalmente, retorno feliz por mais uma missão cumprida. Poder voltar ao meu país em segurança e enfim rever minha família, com certeza é muito gratificante”, finalizou.
CHEGADA – Por outro lado, quem chegou ao país estava cheio de expectativas. A capitã de corveta da Marinha Brasileira, Daniella Nougueira, especialista em endocrinologia e clínica médica, falou sobre a expectativa de poder fazer parte da ajuda que o Brasil vem prestando ao povo haitiano desde 2004, com a implantação da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah).
A médica contou que logo após o terremoto, se voluntariou para a missão mas não obteve êxito. “Depois disso passei dois meses no Chile, fazendo parte da equipe que atuava no hospital da companhia, e agora felizmente consegui vir pra cá. Estou realizando um sonho. Poder ajudar as pessoas com certeza vai me trazer muito mais experiência. O povo haitiano precisa desse apoio”.
A capitã e o restante da tropa foram recebidos no aeroporto Internacional do Haiti e de lá foram levados para os diversos acampamentos espalhados na capital.
O Brasil foi um dos primeiros países que iniciou as ações, por meio da Organização das Nações Unidas (ONU), para reconstruir o país devastado pelo terremoto. Além de engenheiros, médicos e outros profissionais, os militares fazem a segurança da população na distribuição de alimentos e também dos sete mil brasileiros voluntários.
 
Cotidiano do povo haitiano é de caos e sofrimento

Barracos de lona construídos por famílias desabrigadas após terremoto que devastou Porto Príncipe
Nas três horas em que permaneceu no Haiti, a Folha observou o sofrimento do povo e o caos da cidade. Muitas pessoas desorientadas e com amputações perambulam pela cidade. Além da lentidão e confusão no trânsito, é difícil não passar por grande quantidade de lixo espalhado pelas calçadas, o que provoca mal-estar em quem não está acostumado com todo aquele caos. O lixo e entulho ocupam parte das ruas e a entrada das poucas casas que não foram completamente destruídas pelo terremoto.
As ruas e avenidas estão tomadas por barracos improvisados com lonas, muitos deles erguidos em frente a edificações importantíssimas, a exemplo do palácio nacional, também destruído pelo terremoto e outras centenas de prédios que caíram e deixaram moradores sob os escombros.

Em meio aos destroços de construções que vieram abaixo, haitianos tentam recomeçar a vida
Vistos de cima, os barracos formam enormes corredores. Os haitianos desalojados vivem em situações subumanas, sem eletricidade, saneamento básico, ou qualquer tipo de higiene pessoal. Eles sobrevivem ainda da doação de alimentos e água potável.
Apesar disso, segundo o tenente-coronel Faulstich, as crianças já voltaram a estudar, existem hospitais [inclusive um deles pertencente a uma universidade local] e a vida aos poucos volta à normalidade. Existem ainda instituições públicas e privadas, bancos e comércio que empregam grande parte da população. Os mais desassistidos sobrevivem da troca, ou seja, se o vizinho tem dois quilos de arroz e o outro morador tem dois de feijão, eles mutuamente se ajudam.
TERREMOTO – Um terremoto de magnitude 7 na escala Richter atingiu o Haiti no dia 12 de janeiro, às 16h53 horário local (19h53 em Brasília). Com epicentro a 22 km da capital, Porto Príncipe, segundo o Serviço Geológico Norte-Americano, o terremoto foi considerado pelo órgão o mais forte a atingir o país nos últimos 200 anos.
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