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*Milton Corrêa da Costa
“O Rio é, hoje, a Medélin dos anos 90. [ ] Um estado com média anual de 5 mil homicídios e roubos em números estratosféricos assusta.”

O Rio de Janeiro de há muito — e as recentes cenas da invasão de traficantes ao Morro dos Macacos mostraram mais uma vez — é o epicentro da violência urbana no mundo ocidental, onde uma incomparável guerra urbana, de caráter permanente, numa ambiência de criminalidade atípica, impõe a todos o medo e o terror, ainda que cientistas sociais, voltados para a militância de direitos humanos, vivendo na contramão de direção, num mundo irreal de sonhos e fantasias, insistam em desconhecer e mascarar.
É cristalino constatar o contexto narcoterrorista que envolve o Rio, e há que se reconhecer que a capacidade operativa do aparelho policial do estado, ainda que bravos policiais, heroicamente, derramem o sangue a todo instante na defesa da sociedade, chegou ao seu limite. A análise de cenário conflagrado pela guerra urbana nos demonstra claramente que de há muito estão esgotados, pelo estado, todos os instrumentos destinados à preservação permanente e eficaz da ordem pública, observada a impossibilidade, por carência absoluta de efetivo humano, mormente da polícia ostensiva, de preservar a incolumidade (relativa) das pessoas e do patrimônio.
O Rio é, hoje, a Medélin dos anos 90. O que é pior: sem perspectivas, a curto e médios prazos, que se resolva a questão a um patamar de razoabilidade. Um estado com média anual de 5 mil homicídios e roubos em números estratosféricos assusta.
Não há como ficar esperando o recompletamento de efetivos policiais para a Copa do Mundo e Olimpíada. A guerra do tráfico está aí a nos desafiar, e tem que ser encarada com os dispositivos legais disponíveis no estado democrático brasileiro, onde a participação operacional das Forças Armadas, na defesa da lei e da ordem, com fulcro na Lei Complementar 97/99, com as alterações da Lei Complementar 117, não pode mais ser descartada.
Policiais, inferioriorizados numerica e taticamente, e cidadãos ordeiros não podem mais permanecer correndo risco iminente de vida. A paz social e o direito de ir e vir tem que ser buscados agora, antes que seja tarde. O policiamento de vias expressas, nos entornos de pontos críticos e dos quartéis, são missões que devem ser atribuídas, urgentemente, às Forças Armadas, no apoio ao aparelho policial do estado, hoje deficitário em contingente humano necessário ao cumprimento da complexa missão de preservação da ordem pública e da própria polícia investigativa. Segurança é hoje prioridade número um no Rio.
A arma de guerra e a ousadia de narcoterroristas, que abateram, na manhã de 17 de outubro, o helicóptero da Polícia Militar, nas proximidades do Morro dos Macacos, matando dois policiais e ferindo quatro, é a mais pura caracterização de um teatro de operações só imaginável numa ambiência de guerra de guerrilha ou numa guerra convencional. Este é o cenário do Rio. Lindo pelas mãos da natureza e violento por orquestração do tráfico. O mínimo que deve ocorrer, numa guerra entre morros que dura mais de 20 anos, é a ocupação do Morro São João e dos Macacos pelas Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). O quadro de urgência e o bem-estar de moradores da região, sob o pânico e o terrorassim o exigem.
Obviamente que se tal episódio, extremamente negativo para a imagem da cidade, tivesse ocorrido momentos antes da indicação da cidade sede para a Olimpíada de 2016, o Rio teria sido excluído com todas as letras. Quem mata cidadãos e policiais em profusão e infunde o estado de pânico, impedindo o direito de ir e vir, ferindo de forma gravíssima a ordem pública e a própria ordem institucional — quem mata policiais em serviço atenta contra o Estado — cabe ser duramente reprimido na forma da lei. Ou agora ou nunca. Ousadia tem limites.
*Milton Corrêa da Costa é tenente-coronel da PM do Rio na reserva
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