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Nem vem que não tem (Ricardo Alexandre)
Trecho da biografia de Wilson Simonal
Simonal não perdeu a oportunidade de se aproximar de um músico de verdade. Edson o ensinou a tocar violão e, logo em seguida, a passar os acordes de violão para o piano. A capacidade de observação e memorização – que dona Maria chamava de “tristeza” – entrava em ação. Os três garotos começaram a conversar sobre formar um grupo e até a ensaiar. Mas a pátria chamou dois deles, Simonal e Moran, para o serviço militar.
Soldado Simonal
Simonal se alistou no 8º Grupo de Artilharia de Costa Motorizado, praticamente em frente à favela onde morava. (Hoje nem a favela existe mais; foi removida no final da década de 1960 pelo governador Negrão de Lima. O gacosm deu lugar ao Batalhão da Polícia Militar do Leblon e foi transferido para Niterói). Edson também se alistou no mesmo grupo, mas foi dispensado nos últimos momentos.
Dona Maria não podia esconder a alegria por ter o filho convocado para o serviço militar, pois seu grande desejo era que Simonal seguisse carreira no Exército. Mas já se alegrava com a tranquilidade de vê-lo alimentando-se decentemente, fazendo exercícios, iniciando novas amizades, recebendo algum dinheiro – e ainda com tempo de encarar alguns bicos nas horas vagas.
A artilharia de costa é a prática de defesa a partir do litoral. Os exercícios eram feitos em lugares desertos, como no Recreio dos Bandeirantes e na Barra da Tijuca, onde os soldados passavam dias na pouco empolgante tarefa de enquadrar com tiros de canhão os alvos deslocados no mar por rebocadores. No meio militar carioca, o 8º gacosm era considerado um quartel “artístico”, famoso pelo futebol e pelos eventos repletos de música. Entre os recrutas daquele ano estava Amarildo, futuro atacante da seleção brasileira de futebol que venceria a Copa do Chile, em 1962. À boca pequena, os colegas consideravam os soldados daquele destacamento um bando de boas-vidas, que mal sabiam segurar em uma baioneta e só se importavam em jogar bola e tocar violão.
Simonal fazia o que podia para justificar essa má fama. Com Marcos Moran sempre pronto a “fazer sua divulgação” e diversos frequentadores dos shows na praça Antero de Quental em seu destacamento, não demorou para que todo mundo descobrisse que havia um cantor ali. No começo, Simonal era famoso apenas pelas paródias pornográficas que fazia dos sucessos da época, mas não demorou para ser chamado para chefiar a torcida do time de futebol do grupo, bicampeão no torneio interquartéis. Simonal tocava corneta e comandava os colegas.
“Percebi que podia dominar o público”, contou o cantor, anos depois. “Como, nem sei explicar direito. Descobri o valor da entonação e aprendi que há um segredo na maneira de falar, na maneira de olhar, na maneira de se portar. Quando não gritava, me impunha com o olhar, naturalmente.”
O próximo passo na carreira do soldado Simonal foi como encarregado dos comandos de ordem unida, ensinando hinos nas unidades do grupo. Ao final de 1957, Marcos Moran deu baixa e Simonal foi promovido a cabo. Cada vez mais, desenhava-se a carreira militar sonhada por sua mãe. Em 1958, em comemoração ao aniversário do 8º gacosm foi realizado um grande evento, dividido entre shows à tarde e à noite. Simonal foi chamado para cantar para os colegas na festa vespertina. “Eles precisavam de um soldado que se apresentasse no show [da tarde]”, lembrou. “Um oficial chegou e foi dizendo: ‘Quem é o que canta?’. O pessoal respondeu logo: ‘O 256!’. Fui lá e dei o recado, imitando o Agostinho dos Santos em ‘Três Marias’. O sucesso foi tão grande que eu tive de bisar. Apelei para o Belafonte, cantando ‘Matilda’ e ‘Banana boat’. À noite, levaram os integrantes do show da [boate] Night and Day, mas os soldados ficavam gritando que eu cantava melhor do que o George Green, que também havia cantado ‘Matilda’ e ‘Banana boat’. Acabei voltando ao palco, cantando e fazendo o maior sucesso.”
A vida de Wilson Simonal começava a mudar. O coronel Aldo Pereira, chefe daquele grupo, adorou a performance e convidou o 256 para se apresentar em shows particulares. Teimando contra sua vocação, a possibilidade de cantar nas horas vagas só fazia com que Simonal gostasse ainda mais da vida de militar. Foi promovido a sargento, mas, oficialmente, continuou atuando como cabo, para não se desviar de suas funções. Virou diretor da banda, valorizou os soldados que já houvessem tocado em escolas de samba, cuidou da mise en scène (colocando os músicos para marchar no meio das tropas) e convidou um pistonista para solar durante as apresentações. A fama do soldado cantor chegou até o general Justino Alves Bastos, futuro líder das forças militares do iv Exército, que enfrentou as Ligas Camponesas em 1964. Bastos se transformou em seu primeiro grande fã.
Marcos Moran, que testemunhou de perto os primeiríssimos passos de Simonal, saiu do quartel levando muito a sério a antiga ideia de montar um grupo ao lado de Edson Bastos e do cabo Simonal. Os três convidaram outro adolescente de Copacabana, Zé Ary, para tocar violão, e chamaram Zé Roberto, irmão mais novo de Simonal, para o saxofone. Alguém teve a erradíssima ideia de traduzir para o inglês “garoto enxuto” como “dry boy”. Na época, “enxuto” era uma gíria para “na linha”, “em forma”, “com tudo no lugar”. O nome ficou: Dry Boys. Não demorou muito os amigos estavam cantando em pequenas festas, eventos e programas de televisão, e logo os quatro colegas iniciaram uma pressão para que Simonal abandonasse o quartel e ficasse com a agenda livre para os ensaios e as apresentações do conjunto.
Para desespero de dona Maria, Simonal realmente deixou a carreira militar – não por causa da música, mas de racismo. Em 1960, o coronel Aldo Pereira deixou o comando do 8º gacosm e assumiu o Forte de Copacabana. Foi substituído pelo coronel Jaime Montinho Neiva, que, segundo as memórias de Simonal, “chamava a atenção de um soldado branco de uma maneira e de um preto de outra” . De cara, Neiva cortou as regalias que Simonal havia amealhado, como a liberdade de bater ou não continência ou de se apresentar à paisana nos eventos do quartel. O cantor tentou uma transferência para Copacabana, sem sucesso. Foram meses de infelicidade até que ele resolveu responder às provocações:
“A tropa estava toda formada [reunida, organizada e alinhada], quando, de repente, o coronel deu um grito, ‘cabo Simonal! Não se mexa, em forma, componha-se e dê exemplo a seus colegas!’, e por aí afora. Acontece que eu não estava em forma e sim de cabo da guarda [fazendo a segurança do quartel, dispensado de se alinhar com o resto do grupo].
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