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Ricardo Montedo

Em meio à divulgação das lambanças secretas de Sarney et caterva, passou quase despercebida a audiência pública realizada no dia 17 último pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) do combalido Senado da República, que ouviu representantes de “movimentos sociais” sobre a atuação da tropa brasileira que compõe e comanda a Missão da ONU para Manutenção da Paz no Haiti (MINUSTAH).
A comitiva, ciceroneada pelo PSTU, partido que prega uma “democracia ampla para os trabalhadores e uma ditadura dos trabalhadores sobre a burguesia” – seja lá o que isso signifique – disparou críticas contra a atuação brasileira, pontilhadas por palavras-chave do defasado discurso-padrão comuno-socialista universal, como imperialismo, burguesia, conspiração, opressão do povo, ocupação, etc.
À “tchurma” além de membros do próprio PSTU, juntaram-se representantes da Rede Jubileu Sul, PACS(não o do Lula, é outro), Conlutas, Batay Ouvrier (a CUT do Haiti) e entidades afins.
O delírio esquerdófilo latino-americano típico atingiu seu clímax com a fala do representante da Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas).
Após sugerir que deveríamos imitar Cuba (what???), o luminar lascou:
– Está na hora de o Brasil inverter a sua presença. Por que não se pensa em um PAC para o Haiti?
E mais não digo para não cansá-los. A íntegra da audiência está aqui.
A história haitiana evidencia uma desigualdade crônica, pois, desde a independência (1804), jamais o País ostentou uma situação social livre de conturbações. Essa instabilidade permanente culminou na conjuntura caótica de 2004 (ano da criação da MINUSTAH), assim descrita por um militar brasileiro, ex-membro da Missão:
– Não havia instituições políticas sólidas, polícia estruturada, segurança; as escolas não funcionavam.
– Tudo era dominado por gangues armadas, que seqüestravam, matavam e comandavam quase tudo no país, até mesmo a venda de água dos poços artesianos.
– Era muito comum ocorrerem tiroteios entre gangues ou assassinatos de várias pessoas nas ruas sem motivo aparente. As pessoas morriam por estarem na hora e local errados. As tropas encontravam por vezes grupos de 5 ou mais corpos espalhados pelas ruas.
Gradualmente, as tropas pacificaram as áreas, retirando as gangues do comando e substituindo-as por lideranças comunitárias, buscando proporcionar à população uma vida normal. A rotina segura abriu campo para reivindicações antes impossíveis, como saúde, comida, emprego, educação e outros quesitos, todos, obviamente, de responsabilidade do estado haitiano e não dos militares.
Os “movimentos sociais”, espertamente, omitem que, antes da pacificação, eles não poderiam sequer se expressar, sob pena de extermínio.
Também silenciam sobre a tomada, por soldados brasileiros, da “Base Jamaica”, baluarte e QG de gangues em Cite Soleil, transformada em um centro de assistência social .
Os “movimentos sociais” não citam o trabalho da Engenharia do Exército Brasileiro, asfaltando quilômetros de ruas, reconstruindo escolas, praças e outros bens públicos.
Curiosamente, nunca viram os brasileiros distribuindo água, comida, medicamentos, etc., tampouco os médicos e enfermeiros militares ajudando a dar à luz a inúmeras crianças dentro dos postos de saúde das bases.
Para não ser injusto, devo presumir que os “movimentos sociais” estejam preocupados e comprometidos com a melhoria das condições de vida da população haitiana, certo?
Só que, na visão distorcida dessa gente, tudo passa pela “autodeterminação do povo haitiano”, com um temperinho ideológico, claro, que ninguém é de ferro.
Exemplifico: o mesmo militar brasileiro descreve o boicote de uma ONG ambientalista (“movimento social” por excelência) a um projeto que previa a construção de latrinas em determinada área (as observações entre parêntesis são minhas).
– Na primeira reunião -narra ele- a alegação (verdadeira) foi de que as latrinas contaminariam a água do subsolo. (Bravo!)
– Em nova reunião, foi sugerida a coleta e envio de esgoto até o despejo em uma vala. Nova obstrução, pois poluiria o rio mais próximo. (Comovente a preocupação com o meio ambiente.)
– Nova sugestão: construir fossas junto às casas! Também não, da mesma forma, poluiria as águas subterrâneas. (Aplausos!)
– A decisão?
– Não fazer nada!!!
E assim, os moradores da comunidade continuam a fazer suas necessidades no quintal, esperando que a chuva espalhe os dejetos!!!!
Afinal, os “movimentos sociais” estão aí, a postos, para garantir que “autodeterminação do povo haitiano” lhes garanta o direito de decidir o que fazer com suas próprias fezes, não é mesmo?

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