Defesa nacional: “Se atacar Itaipu e fechar o porto de Santos, acabou”, alerta ex-comandante da Marinha

Itaipu e Santos sob ataque (Imagem ilustrativa, gerada por IA)

Em entrevista, o almirante Ilques Barbosa Junior aponta Itaipu e o Porto de Santos como alvos estratégicos, critica a lentidão no deslocamento de tropas — como no caso de Roraima — e diz que o País segue preso a debates ideológicos do passado.

Ex-Comandante da Marinha, Almirante Ilques Barbosa Júnior (Pedro Ladeira/Folhapress)

A entrevista do almirante de esquadra Ilques Barbosa Junior a Marcelo Godoy, do Estado de São Paulo, expõe uma visão ampla e pouco convencional sobre Defesa Nacional, deslocando o debate do campo estritamente militar para uma lógica de sobrevivência do Estado, infraestrutura crítica e coordenação civil-militar. A seguir, os principais eixos analíticos da conversa:

Segurança de fronteiras e mudança do eixo estratégico

Ilques parte do diagnóstico de que o Brasil não tem mais ameaças relevantes a Oeste, no continente sul-americano. Segundo ele, o peso econômico e territorial do país torna improvável um conflito regional clássico. O problema estratégico, portanto, desloca-se para o Atlântico, o espaço aéreo, o domínio cibernético e as rotas logísticas globais.

Nesse contexto, a segurança de fronteiras deixa de ser apenas vigilância terrestre e passa a envolver fluxos: comércio, energia, dados, fertilizantes, alimentos e rotas marítimas. Para o almirante, pensar defesa hoje é pensar interrupção de sistemas, não invasões territoriais tradicionais.

Itaipu e Porto de Santos: vulnerabilidades existenciais

A afirmação mais contundente da entrevista — “Se atacar Itaipu, acaba o Brasil” — resume sua tese sobre infraestruturas críticas. Ao citar a Itaipu Binacional, Ilques a enquadra como ativo estratégico absoluto: energia, estabilidade econômica e segurança nacional convergem ali. Um ataque ou sabotagem teria efeitos em cascata impossíveis de conter apenas com resposta militar clássica.

O mesmo raciocínio se aplica ao Porto de Santos. Para o ex-comandante da Marinha, o fechamento ou sabotagem do porto teria impacto imediato sobre abastecimento, exportações e arrecadação. A crítica implícita é que o país trata essas estruturas como temas administrativos ou policiais, quando deveriam estar no centro do planejamento estratégico de defesa.

Mobilidade militar: o calcanhar de Aquiles do território nacional

Um dos pontos mais práticos e reveladores da entrevista é a dificuldade de deslocar tropas dentro do próprio Brasil. Ilques cita explicitamente o caso recente de Roraima, onde o envio de forças levou mais de um mês e exigiu uma operação logística complexa, improvisada e custosa.

O almirante escancara uma fragilidade estrutural: o Brasil tem dimensão continental, mas não planeja suas rodovias, ferrovias, hidrovias e portos com lógica de defesa. Diferentemente dos Estados Unidos e da Europa, a mobilidade militar não está integrada ao planejamento civil de infraestrutura. O resultado é um país grande, porém lento e vulnerável em cenários de crise.

Defesa além dos quartéis: civis no centro da estratégia

Ilques defende que a Defesa Nacional não pode ser monopolizada pelos militares. Energia, transporte, biossegurança, segurança alimentar e cibernética exigem especialistas civis com poder de decisão, atuando lado a lado com as Forças Armadas.

Nesse ponto, ele propõe fortalecer a atuação do Chefe do Estado-Maior Conjunto com a incorporação, no mesmo nível decisório, de responsáveis por áreas estratégicas civis — substituindo a lógica restrita associada ao termo estrangeiro Joint Chief por uma abordagem mais ampla e adaptada à realidade brasileira.

O peso do passado: Ustra, Che Guevara e o debate estagnado

Ao mencionar Che Guevara e o que chama de “maluco da tortura” — referência direta ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra — Ilques critica a obsessão recorrente com fantasmas ideológicos de mais de 60 anos.

Para ele, a insistência nesse embate simbólico paralisa o debate real sobre Defesa, orçamento, mobilidade e soberania industrial. Enquanto o país discute 1964, deixa de planejar 2040.

Indústria de Defesa e autonomia estratégica

O almirante também alerta para o risco de investimentos bilionários sem retorno estrutural. Ao citar feiras como a LAAD, aponta a frustração de depender de equipamentos sofisticados sem domínio tecnológico, cadeia logística ou recursos humanos. Sua defesa é clara: produção local, transferência de tecnologia e autonomia, mesmo que isso custe mais no curto prazo.

Síntese

A entrevista revela um pensamento estratégico que rompe com o modelo tradicional de Defesa. Para Ilques Barbosa Junior, o maior risco ao Brasil não é a guerra clássica, mas a interrupção de sistemas vitais, combinada à incapacidade logística e à ausência de coordenação política. Defesa, em sua visão, é menos sobre armas e mais sobre organização do Estado, planejamento e maturidade institucional.

Respostas de 13

  1. O Ilques não precisaria falar nada, pois entrou no panteão das personalidades navais da história, por se negar aos intentos golpistas do Pres.Rep anterior, ele e os demais Comandantes. Concordo em parte com ele, pois o país se desenvolveu totalmente dependente da forma rodoviária, enquanto que a maioria das potências procuraram se desenvolver de todas as formas (férrea, cabotagem, rodoviária, aérea) que facilitam a logistica, bem como estar preso a apenas uma hidrelétrica, quando na realidade a dependência energética com base limpa das hidrelétricas deveria existir em outros locais com cursos de água e próprias. A energia nuclear, para fins de energia elétrica é ufanista, todavia seria útil para ser utilizada em belonaves. A demora da conclusão do submarino nuclear (se a França mudar de ideia já era). Quanto ao discurso ideológico de que trata, infelizmente é necessário nesse momento, pois alguns Flertaram e flertam com o golpe antidemocrático e uma instalação de ditadura vem com os horrores de toda sorte de tortura. Relembrar o passado para não cometer os erros no futuro. Como falei acima a barreira contra o golpe começou com eles que ligaram o alerta da atitude golpista.

    1. cara vc não entendeu nada que o Almirante falou….vc como bom petralha vem falar em golpe Tabajara e é justamente o que o Almirante vem falando deixar as falácias do passado e olhar para o futuro. Como bom petralha vc vem ressuscitando um mentira que somente existe na cabeça baldia do esquerdalha. Golpe Tabajara.

      1. Cara, você deve ter déficit cognitivo, não é possível e não é de hoje. Eu li o que ele falou e coloquei meu ponto de vista do que não concordava, se bem que não maioria concordei, todavia discordei com argumentos factíveis. E você com os meus argumentos o que propôs? Simplesmente xingar. Vai cuidar da sua doença antes de vir aqui e destilar sua raiva incontida. Passe lá no posto e tome uma antirábica. Passar bem.

  2. essas verdades ditas pelo almirante são conhecidas .Essa entrevista reforça tambem que autoridades quando na ativa calam-se por questoes hierarquicas, politicas ou mesmo por incompetencia. Ao senhor almirante que, com mais de 40 anos de serviço ativo, teve em maos o comando dos meios navais pouco ou quase nada realizour, a nao ser a rotina marinheira. Mas culpa-lo é covardia. Somos todos culpados.
    culpados por aceitar essa condiçao de submissos a uma politica destruidora, culpados por calar-mos diante das pessoas e coisas erradas. Somos uma sociedade que visa o “proprio umbigo” e que o certo so incomoda e o errada ” é assim mesmo”. Ou mudamos nosso comportamento ou seremos sempre o “país de um futuro Distante e incerto”

  3. Esse têm visão geoestratégica, deu o bizú convicto e sem medo! Lembrando que: Não vamos apoiar ninguém nessa eleição. Vorcaros continuarão a surgir assim como outros alexandres e os praças sem aumento. Ao menos que recebamos um aumento antes das eleições segue o veredito: sem apoio à ninguém. Quem quiser valorize-nos antes, promessas não pagam boletos.

  4. Se me permite, acrescentaria que depois de Itaipu cair, teríamos muita dificuldade com um contra-ataque, pois não teríamos munição suficiente.

    Lembrando que um soldado executa em média 15 a 25 tiros na sua formação.

    Temos pouquíssimos recursos para a atividade-fim. O triste é que se gasta muito em firulas, como combustível para deslocar viaturas com tropas para participar de… formaturas.

  5. Há muito já se disse que no brasil se costuma sempre olhar para o retrovisor, nunca para o parabrisa.

    Diversos artistas, por exemplo, ganharam – e ainda ganham – notoriedade e dinheiro, muiro dinheiro, por se apresentar como “exilado”.

    Esses “filhos de 1964” não vivem outro mundo. Continuam estacionados lá atrás. Para eles, calça “boca de sino” continuará sempre na moda.

    E assim, o país vai ficando também para trás…

  6. Se atacar Itaipu quem sofrerá é o Paraguai que depende 90% de Itaipú. O Brasil depende mensos de 10% e pode realocar a malha e acionar as termoelétricas. Atacar o Portode Santos? !!!

  7. Quando trocaram os CC M41 pelos leopard, no inicio dos anos 2000, ouvi de um general que o exército estava enfrentando problemas diante da decisão de concentrar os meios no CMS. Isto porque nossas ferrovias (as poucas em uso) não haviam sido pensadas para o transporte estratégico de meios militares. Bitolas diferentes em cada trecho, tuneis estreitos, pontes Sub dimensionadas, obrigavam que os CC fossem descarregados das composições para que fossem levados “rodando” até o próximo trecho, o que tornava o deslocamento lento, complexo e custoso em termos financeiros. Imagina isso numa crise? Outros casos também sugerem uma reflexão: em 2010, levamos 3 meses para mobilizar, equipar e transportar 1.500 homens para o Haiti, por ocasião do terremoto que devastou aquele país. Em 2024/25, precisamos de 30 dias para entregar um punhado de blindados em Roraima etc. Isso tudo faz a gente pensar que o problema da Defesa exige muito mais do que um recruta com um fuzil nas mãos e que, ao contrário do que muitos imaginam, esta questão SEMPRE foi Negligenciada em nosso país.

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