O Brasil precisa ser capaz de se defender

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O Brasil tem que repensar urgentemente o papel, a missão e os recursos de suas forças armadas.
Kátia Abreu* 
Independentemente do juízo que se possa fazer do atual governo norte-americano, o fato incontestável é que ele está pondo fim à ordem internacional sob a qual vivemos desde o fim da Segunda Grande Guerra. Com o tempo, uma nova ordem vai se impor, mas não é possível agora prever como ela será.

A ordem que está em fase de decomposição assegurou para países com a localização e a dimensão do Brasil um longo período de paz e de segurança. O poderio militar incontrastável dos Estados Unidos e o conjunto de instituições multilaterais criadas sob sua inspiração e liderança evitaram que conflitos regionais se propagassem além dos seus limites e ainda propiciaram bens públicos globais, tais como a segurança da navegação nos ares e nos mares e regras para o comércio, que produziram a globalização das economias e a maior prosperidade econômica que o mundo conheceu em toda a sua história.

O fim desta ordem está marcado por várias consequências. A primeira é o fim, ou pelo menos a fragilização, das alianças militares explícitas ou implícitas, que se apoiavam no poderio militar americano. Daqui para a frente na Europa, na Ásia e em nosso hemisfério, todos os países terão que ser capazes de se defender militarmente ou, ao menos, dispor de suficiente força desencorajadora, para poder viver em relativa segurança. As forças armadas americanas não serão mais uma espécie de gendarme do mundo ocidental e estarão voltadas para os interesses internos do seu país.

Neste novo mundo é possível que voltem a acirrar-se os conflitos regionais e que questões antes contornadas pelas vias diplomáticas e pelas instituições de governança internacional, evoluam livremente para alguma confrontação militar.

No plano do comércio, cuja expansão tornou os diversos países mais dependentes uns dos outros e mais abertos para a articulação de interesses compartilhados, está sendo inaugurada uma nova fase em que os mais fortes impõem unilateralmente seus interesses. O comércio internacional não será mais uma via de aproximação, mas de luta e competição, sendo matéria fértil para conflitos mais sérios.

Brasil precisa ter um poder armado que, pelo menos, corresponda à sua preponderância.

Brasil precisa ter um poder armado que, pelo menos, corresponda à sua preponderância.Ministério da Defesa
No plano propriamente geopolítico, por mais surpreendente que isto possa parecer, a política externa americana está deixando em segundo plano a confrontação estratégica global com a China, reduzindo este conflito apenas à dimensão comercial. Ao mesmo tempo que antagoniza a Índia e a Europa, está movendo seu eixo para o nosso hemisfério, as Américas do Norte, Central e do Sul, concentrando aqui suas ações mais visíveis, inclusive o deslocamento de grandes dispositivos militares.

Uma longa lista de manifestações e de atitudes corroboram o novo pivot da política externa americana: a intenção de transformar o Canadá em estado americano, a ameaça de ações militares em território mexicano para combater os carteis de drogas, o cerco militar à Venezuela, as tarifas sem precedentes impostas às exportações brasileiras e os acordos financeiros e comerciais com a Argentina, que podem resultar numa grave fratura nas regras do Mercosul.

Enquanto as administrações anteriores estavam focadas na região do Indo-Pacífico, onde parece se situar o futuro da economia mundial e a luta pela hegemonia tecnológica, o atual governo americano parece fixado na consolidação de uma área regional de influência, voltando a uma ordem internacional semelhante a que existia antes da Primeira Grande Guerra.

Nosso hemisfério, antes um oásis de tranquilidade externa, pode transformar-se em uma área de turbulências, com os governos regionais buscando alinhamentos externos e envenenando as relações com os seus vizinhos.

Neste cenário, o Brasil tem que repensar urgentemente o papel, a missão e os recursos de suas forças armadas. Nossa tradição de pacifismo e de apoio ao multilateralismo, nos poupou até agora das durezas das corridas armamentistas. No entanto, é imprudente ignorar os sinais que estão à vista.

Nossos gastos militares são modestos e 80% deles se destinam a pessoal ativo e inativo. Investimos quase nada. Não é preciso ser um especialista para avaliar que nossa capacidade de defesa é muito pequena, mesmo diante de nossos vizinhos. Até agora isto foi uma escolha racional, pois nosso país tem carências imensas e grande parte de nossa população vive abaixo de um padrão civilizado de existência. Mas não somos quem escreve a história de nosso tempo e precisamos reagir ao que acontece.

O Brasil tem uma preponderância geográfica e econômica na América do Sul. Precisamos agora ter um poder armado que, pelo menos, corresponda a esta preponderância e cobre um preço alto a quem se proponha a ameaçar a nossa soberania e nosso desenvolvimento.

A atual administração americana não vai durar para sempre. Mas a ordem que foi rompida não deverá ser restaurada nos mesmos termos. Dar ao nosso país a capacidade de se defender e proteger suas riquezas, como o mar territorial e a Amazônia, levará tempo. Precisamos começar agora.

* Psicóloga, empresária, pecuarista e política brasileira, filiada ao Progressistas. Foi a Ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento durante o segundo governo da ex-presidente Dilma Rousseff, deputada federal e senadora pelo estado do Tocantins.
CONGRESSOemFOCO – Edição: Montedo.com

Respostas de 13

  1. valorizar os militares, principalmente com salário decente e treinamento suficiente para enfrentar um exército treinado e não com militares dando um número insignificante de tiro anual.

  2. A questão toda é se os militares querem mesmo essa mudança.

    A maioria está feliz em ganhar pouco e correr, no máximo, o risco de perder a partida de futebol no campo do Subão no meio expediente de sexta-feira.

    1. Verdade!

      No meu caso terei mais um ano e meio como “servidor administrativo militar” antes da tão aguardada Reserva.

      Uma Tropa onde o soldado dispara apenas 20 tiros não pode se considerar “de guerra”. Somos todos “servidores administrativos militares”.

      P.S.: outro dia, a tropa “de guerra” foi empregada para salvar os parreirais de um agricultor!?

  3. Quem defende isso está sendo contra o Presidente “grande inteligência emocional”.

    Ele afirmou categoricamente que o Exército deve treinar seus soldados para combater incêndios, não para a defesa do país.

    Ou querem agora dizer que ele mentiu, que falou asneiras e que não tem mais uma “grande inteligência emocional”???

  4. A questão, na verdade, é SE os nossos Of Gen querem tais mudanças. As 💉, armamentos e munições utilizados pelo crime organizado são transportados pelas nossas POROSAS fronteiras. Pq manter OM em grandes centros urbanos, quando são nessas localidades q necessitam de maior presença das FFAA?!?!?!

    1. Só presença mesmo porque amparo jurídico nao tem nenhum pra realizar esse trabalho de “policia” nas fronteiras. Experimenta querer revistar um garimpeiro e ele fazer queixa em alguma “ong” pra ver se a trozoba nao vem…

  5. DEFENDER DO QUE OU DE QUEM?
    Por deus eu so faço formatura e faxina.
    As questões de fronteira foram pacificadas ha 200 anos.
    Não há guerras aqui e ficamos buscando uma utilidade que justifique pagar pensão para filha que nem nasceu (de quem sentou praça antes de 2.000).

    Parem de comprar blindado velho para fazer formatura e nos deem aumento.

    Nao vai ter guerra, a gente não liga de matar mosquito e entregar água ao sertanejo, nem de horas treinando para a formatura que vai promover o coronel, mas deem aumento

  6. Talvez fosse mais fácil de convencer a melhorar a estrutura das Forças Armadas se alguns por aí não tentassem usar isso pra dar golpe de estado de vez em quando.

  7. Não existe soberania sem Forças Armadas BEM Equipadas: caças, blindados, Navios, drones, sistemas antiaéreos e SALÁRIOS DECENTES!!

    Pagar 2k para um fuzileiro naval não contribuiu com a soberania!
    As Forças precisam de uma reestruturação salarial urgente com ênfase na valorização dos Praças da mesma maneira que fizeram com as PMs nos últimos 10 anos!

    Polícia bem paga e Equipada, criminalidade em baixa!
    Forças Arnadas bem Equipadas e bem pagas, soberania garantida!

    …..o resto é mimimi e choro de quem nos chamam de melancia ou golpistas!

  8. “O Brasil não vai se armar” – José Múcio, vulgo Ministro da defesa em entrevista para CNN em 12 de abril de 2023.

    A internet não deixa cair, viu comedores de mortadela!

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