Primeira mulher general do Exército afirma não se considerar feminista e diz que ascensão foi fruto de trabalho

A médica Cláudia Lima Gusmão Cacho se tornou, nesta quarta-feira, a primeira mulher a alcançar o generalato nos quase 400 anos de História do Exército (Imagem: O Globo)

Claudia Gusmão diz que trajetória foi construída por mérito e destaca abertura gradual das Forças Armadas às mulheres; oficial nega resistência por gênero e defende igualdade de oportunidades

A general Claudia Lima Gusmão Cacho, primeira mulher a alcançar o posto de general no Exército Brasileiro, afirmou em entrevista à Folha de S.Paulo que sua trajetória na Força foi construída com base em mérito individual e na evolução institucional do próprio Exército para a inclusão feminina.

Ascensão e mudança institucional

Segundo a militar, sua promoção ao generalato não ocorreu de forma abrupta, mas como resultado de um processo gradual de abertura das Forças Armadas às mulheres ao longo das últimas décadas.

Ela destacou que o ingresso feminino em carreiras militares mais altas só foi autorizado em 2012 e que, desde então, a presença de mulheres tem crescido de forma contínua.

Claudia afirma que não enfrentou resistência por ser mulher e que sempre atuou em condições iguais às dos colegas homens. Para ela, o ambiente militar se baseia em regras comuns, deveres compartilhados e oportunidades equivalentes.

“Nunca me considerei feminista”

Em um dos pontos centrais da entrevista, a general declarou:
“Nunca me considerei feminista”.

Ela defendeu, no entanto, a igualdade de oportunidades e afirmou que o sucesso profissional depende de escolha pessoal,
preparação e dedicação.

“Você tem opções, escolhas e vai lutar por aquilo que quer”, disse.

Exemplo e inspiração

A oficial também reconheceu que sua posição acaba servindo de referência para outras mulheres, embora ressalte que sua
ascensão se deve ao desempenho profissional.

Segundo ela, o aumento da participação feminina no Exército deve ocorrer de forma gradual, podendo chegar a 20% do efetivo
até 2035, conforme diretrizes do Ministério da Defesa.

Instituição “permanente e apartidária”

Ao comentar o cenário político e episódios recentes envolvendo militares, Claudia afirmou que o Exército mantém sua natureza
constitucional.

Ela classificou a instituição como “permanente e apartidária”, com foco na defesa da pátria e em sua missão institucional.

Comando no Hospital Militar

Atualmente à frente do Hospital Militar de Área de Brasília, a general destacou os desafios da gestão em saúde dentro das
Forças Armadas, que exige equilíbrio entre demandas técnicas, logísticas e operacionais.

 

Respostas de 11

  1. A trajetória de Maria Quitéria de Jesus e de Claudia Lima Gusmão Cacho representa dois marcos históricos da participação feminina no Exército Brasileiro, separados por mais de duzentos anos. Durante a Guerra da Independência, em 1822, Maria Quitéria precisou disfarçar-se de homem e assumir a identidade de “Soldado Medeiros” para ingressar nas forças que combatiam as tropas portuguesas na Bahia, uma vez que as mulheres eram formalmente excluídas do serviço militar. Sua bravura e habilidade em combate lhe renderam reconhecimento de seus superiores e do próprio imperador Dom Pedro I, que lhe concedeu honrarias militares e a Ordem Imperial do Cruzeiro. Apesar desse reconhecimento, sua participação constituiu uma exceção em uma instituição que não admitia mulheres em seus quadros.

    Mais de dois séculos depois, em 2026, Claudia Lima Gusmão Cacho tornou-se a primeira mulher a alcançar o posto de general do Exército Brasileiro. Diferentemente de Maria Quitéria, sua ascensão ocorreu dentro da estrutura formal da instituição, como resultado de décadas de mudanças legislativas e institucionais que ampliaram gradualmente o acesso das mulheres às carreiras militares e às possibilidades de progressão funcional. Sua promoção simboliza a consolidação de um processo de inclusão feminina que permitiu às mulheres atingir os mais altos níveis da hierarquia militar.

    O contraste histórico entre ambas é significativo. Enquanto Maria Quitéria precisou ocultar sua condição feminina para servir à Pátria, Claudia Gusmão alcançou o generalato sendo oficialmente reconhecida como mulher em todas as etapas de sua carreira. Enquanto a primeira lutou em combate durante a Independência e permaneceu uma figura excepcional em um ambiente exclusivamente masculino, a segunda construiu sua trajetória profissional na área de saúde militar, beneficiando-se de uma abertura institucional que permitiu a crescente participação feminina nas Forças Armadas. Maria Quitéria recebeu honrarias por seus feitos, mas não teve a oportunidade de desenvolver uma carreira militar permanente; Claudia Gusmão, por sua vez, alcançou o mais elevado posto possível em sua trajetória profissional dentro da Força.

    Há ainda uma ligação simbólica entre essas duas personagens. Desde 1996, Maria Quitéria é a patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro, tornando-se uma referência histórica para gerações de militares. Assim, a ascensão da primeira mulher ao generalato pode ser vista como um marco que dialoga com o legado daquela que foi a primeira mulher a destacar-se militarmente na história do Exército. Em certo sentido, Maria Quitéria abriu caminho ao desafiar as limitações impostas às mulheres no início do século XIX, enquanto Claudia Gusmão representa o resultado da evolução institucional que tornou possível a presença feminina nos mais altos níveis de comando da Força Terrestre.

    Fontes: COELHO, Raphael Pavão Rodrigues. A memória de uma heroína: a construção do mito de Maria Quitéria pelo Exército Brasileiro. Dissertação (Mestrado em História), Universidade Federal Fluminense, 2019; GOMES, Nathan Yuri. Teatro da memória, teatro da guerra: Maria Quitéria de Jesus na formação do imaginário nacional (1823-1979). Dissertação (Mestrado), Universidade de São Paulo, 2022; MAIA, Helder Thiago. Maria Quitéria/Soldado Medeiros: um soldado entre as condecorações nacionais e o esquecimento. Pontos de Interrogação – Revista de Crítica Cultural, v. 12, n. 1, 2022; entrevista de Claudia Lima Gusmão Cacho à Folha de S.Paulo, reproduzida pelo [Montedo.com.br](montedo.com.br?utm_source=chatgpt.com) em 16 de junho de 2026.

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