Em meio aos combates, o Exército ucraniano adapta drones militares para entregar comida e itens de conforto a soldados isolados na linha de frente, reforçando o moral sob fogo constante.
Oleksandr Chubko e Cassandra Vinograd — Ucrânia
Em uma guerra em que drones se tornaram símbolo de morte e destruição, parte da frota ucraniana ganhou uma função improvável: entregar biscoitos, café e até bolo de aniversário a soldados entrincheirados na linha de frente. Em vez de explosivos, algumas aeronaves carregam sacos com bacon defumado, purê de batatas e maionese, pedidos feitos por rádio por militares isolados em bunkers e atendidos no mesmo dia.
Por volta das 7h30 de uma quinta-feira, as solicitações começaram a chegar como listas de compras comuns sob circunstâncias extremas. “Copiado”, respondeu o comandante do outro lado da linha. Do leste da região de Dnipro, equipes passaram a preparar os pacotes que seriam lançados do céu horas depois.
A Ucrânia aperfeiçoou esse tipo de entrega por necessidade. Com drones de ataque dominando o campo de batalha e tornando qualquer deslocamento um risco elevado, enviar suprimentos por meios tradicionais ficou mais difícil. A solução foi ampliar o uso de aeronaves não tripuladas para abastecer posições avançadas, sobretudo sob a cobertura da noite.
— Tentamos tornar as coisas um pouco melhores para eles, levantar o ânimo, para que não se sintam tão para baixo lá — explica um militar identificado pelo codinome Lesyk, responsável por montar os pacotes na região leste. — Até as pequenas coisas importam — acrescenta.
Grande parte das entregas é feita por drones pesados do modelo Vampire, fabricados na Ucrânia. Projetados para missões de combate, eles podem alternar entre o transporte de explosivos e o envio de mantimentos. Segundo militares ucranianos, estes dispositivos voam sob condições climáticas adversas e são mais difíceis de derrubar.
Do lado russo, ganharam o apelido de Baba Yaga, referência à bruxa do folclore eslavo que caça à noite. Entre soldados ucranianos, porém, quando carregam comida e cigarros, passaram a ser chamados de “drones mamãe”.
Cigarros, lenços umedecidos, café, shawarma… e até um bolo de aniversário de chocolate com avelã. A unidade de Lesyk, conhecida como Da Vinci Wolves, tenta atender a todos os pedidos.
A meta é realizar lançamentos diários, com entregas no mesmo dia, uma logística complexa em meio à guerra.
Zhurba, soldado de 22 anos que se identificou apenas pelo codinome, faz compras diariamente a partir das listas transmitidas por rádio. Ele leva os itens para um cômodo estreito que funciona como despensa e centro de empacotamento.
Em uma manhã, Lesyk, de 29 anos, organizava cinco sacos de lona à sua frente. Sobre o balcão, canetas marcadoras e bolsas ainda vazias. Um pequeno quadro branco preso a um armário listava posições na linha de frente e os pedidos correspondentes.
Cada saco é montado de forma personalizada, conforme as solicitações específicas. Enquanto escreve o nome de uma posição em um novo volume, Lesyk ri ao saber que alguns descrevem o trabalho como “Papai Noel”.
— Pode-se dizer que sim — ele comenta, com um brilho nos olhos cansados.
As mãos não paravam: pães, latas de energético, cebolas. A cada item colocado, ele riscava o pedido correspondente no quadro. Há um mês na função, Lesyk se recupera de um ferimento sofrido em combate, experiência que, segundo ele, o fez entender o impacto de “algo agradável” na rotina da linha de frente.
— Não dá para ficar só com ração seca por muito tempo — afirma.
No inverno, os pacotes não podem ultrapassar cerca de 10 quilos, já que os sacos absorvem a umidade da neve. Se o peso fica abaixo do limite, ele completa com maços de cigarro Camel e punhados de balas. Líquidos exigem embalagem reforçada para não estourarem na queda. Clementinas são protegidas dentro de latas de batata frita; sanduíches e charutos de repolho seguem em recipientes plásticos envoltos em camadas extras.
Lacuna deixada pelos EUA: ajuda militar à Ucrânia atinge nível mínimo, mas Europa limita queda, diz instituto
A operação é minuciosamente organizada. Os pacotes precisam estar prontos até o meio-dia, quando seguem de carro até caminhões que atravessam túneis cobertos por redes antidrone rumo a pontos mais próximos da frente. Dali, veículos terrestres não tripulados transportam a carga até os pilotos dos Vampires.
Diferentemente do zumbido de drones de ataque, que provoca tensão, o som de um Vampire carregado de mantimentos desperta entusiasmo entre as tropas.
— Os soldados conseguem diferenciar pelo som — diz Lesyk. — O inimigo não usa esses.
Guerra na Ucrânia: mais um brasileiro morre atingido por fogo de artilharia durante operação militar
Por volta das 19h de uma noite recente, os drones decolaram no escuro. Nas imagens transmitidas pelas câmeras, pequenos pontos vermelhos no chão indicavam os locais de lançamento. Um pacote, visível em branco na visão noturna, caiu próximo a uma trincheira. Um soldado saiu rapidamente para recolhê-lo.
— Obrigado pelos presentes, foi muito gentil da parte de vocês — diz uma voz pelo rádio. — Copiado. Amamos você — responde o posto de comando.
Pouco depois, começaram a chegar os pedidos do dia seguinte: água, maçãs, jornal, trigo-sarraceno, macarrão instantâneo, açúcar, leite condensado, chá a granel, papel higiênico, cebolas e aquecedores de mão.
— Copiado — responde o comandante.
The New York Times