Exposição de meninos armados em ações de propaganda e recrutamento na guerra civil do Sudão aponta para o uso sistemático de crianças no conflito.
Vídeos que circulam nas redes sociais mostram meninos armados, alguns aparentando ter menos de 12 anos, participando de atividades militares ligadas às Forças Armadas Sudanesas (SAF), o exército do governo do Sudão. As imagens revelam crianças disparando rifles para o alto, cantando slogans e sendo conduzidas por adultos em ações que caracterizam recrutamento e uso de menores em conflito armado.
Em um dos registros, um adulto orienta o grupo, entoando cânticos de apoio à SAF enquanto as crianças repetem as palavras em uníssono. O ambiente é tratado como celebração, mas o contexto é de guerra ativa. As crianças aparecem armadas com fuzis de tamanho desproporcional aos seus corpos, evidenciando a precariedade e o risco extremo a que estão submetidas.
Os vídeos foram gravados com telefones celulares e amplamente compartilhados em plataformas como o TikTok, onde o conflito é apresentado de forma distorcida, associando o combate a noções de orgulho, pertencimento e poder. A exposição pública dessas imagens sugere que o recrutamento infantil não apenas ocorre, mas é promovido abertamente.
Guerra trouxe destruição, fome e violação dos direitos humanos
A guerra civil no Sudão teve início em abril de 2023, após o colapso das relações entre as Forças Armadas Sudanesas e as Forças de Apoio Rápido (RSF), duas estruturas armadas que disputam o controle do país. O conflito rapidamente se transformou em uma guerra de grandes proporções, com cidades destruídas, deslocamento em massa da população civil e avanço da fome.
Ambos os lados do conflito são acusados de graves violações de direitos humanos. A RSF é responsabilizada por massacres, estupros coletivos e saques sistemáticos. Já a SAF, embora se apresente como exército nacional, carrega um histórico de repressão, militarização da fé e violência institucional herdado de décadas de regime autoritário, que persiste entre seus quadros.
Com o prolongamento da guerra e o esgotamento de combatentes adultos, crianças passam a ser alvos preferenciais de aliciamento. De acordo com o relatório mais recente da ONU sobre Crianças e Conflitos Armados, foram verificados ao menos 209 casos de recrutamento e uso de crianças no Sudão apenas em 2023 — um aumento significativo em relação a anos anteriores.
Outros vídeos analisados mostram adolescentes uniformizados cantando músicas militares tradicionalmente entoadas por soldados da linha de frente. Em registros ainda mais perturbadores, crianças muito pequenas são filmadas repetindo slogans militares sob orientação de adultos, aparentemente sem compreender o significado do que dizem.
Imagens obtidas junto a fontes sudanesas mostram meninos dentro de veículos militares, usando cintos de munição e posicionados ao lado de armas pesadas. Em outras, grupos de crianças recebem ordens de oficiais em formações típicas de treinamento militar. Há também registros de adolescentes posando armados, em cenas que buscam associar o porte de uma arma à identidade, status e valor pessoal.
Essas imagens têm sido usadas como ferramenta de propaganda e recrutamento. Para quem as assiste, a guerra é apresentada como algo simples e até atraente, enquanto a violência real — postos de controle, bombardeios, emboscadas e mortes — permanece fora do enquadramento.
Na prática, essas crianças são utilizadas como combatentes, vigias, mensageiros ou carregadores. Todas são expostas diretamente ao risco de morte. Poucas conseguem sair ilesas.
Prática é crime de guerra
O direito internacional é claro: o recrutamento e o uso de crianças em conflitos armados constituem crime de guerra. As evidências dessas práticas no Sudão não estão ocultas em relatórios confidenciais, mas circulam livremente em redes sociais, visíveis ao público e às autoridades.
O impacto desse tipo de violência não termina com o fim de um confronto. Crianças expostas à guerra perdem o acesso à infância, à educação e à proteção. A experiência do combate molda suas vidas de forma permanente, frequentemente com consequências irreversíveis.
Nos vídeos, os meninos aparecem sorrindo e gritando, com armas erguidas. Fora das imagens, porém, está a realidade de um conflito que transforma crianças em instrumentos de guerra e as conduz, deliberadamente, para a linha de frente da morte.
Com informações e imagens de Lucas Almeida (Jornal Metropolitano) e agências internacionais