Reprovado em todos os testes, projeto de simuladores gerido pelo general expõe decisões solitárias dentro do Exército
Segundo o coronel veterano Rubens Pierroti Júnior, um projeto militar resultou em um prejuízo de mais de R$ 100 milhões aos cofres públicos e numa sucessão de irregularidades encobertas dentro do Exército.
O Projeto Simaf começou como um projeto para modernizar o treinamento militar com simuladores de artilharia, mas se transformou em um caso de desvio estratégico e moral.
Pierrotti, que é advogado e autor do livro “Diários da Caserna – Dossiê Smart: a história que o Exército quer riscar”, relatou o caso em entrevista ao canal GGN, 
O projeto “Simaf”
“Foi um general que teve a ideia — o general Marco Aurélio, que na época comandava o ensino militar e depois foi secretário de Esportes do governo Bolsonaro. Ele via que o armamento da artilharia do Exército estava muito defasado, e a força não tinha recursos para comprar novos equipamentos. Então pensou: se não há dinheiro para comprar equipamentos, vamos pelo menos comprar um simulador”, contou Pierrotti.
O coronel participou diretamente da execução do projeto, lançado em 2010, durante o comando do general Marco Aurélio Costa Vieira. Segundo ele, a proposta se apoiava em dois argumentos genéricos: menor custo e segurança.
O contrato para o desenvolvimento do sistema Simaf, que gera cenários e missões virtuais para o treinamento tático de militares, foi firmado com a empresa espanhola Tecnobit e previa transferência de tecnologia, além da instalação de simuladores em dois centros de treinamento: a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende, e o Centro de Simulação de Santa Maria (RS).
De acordo com o coronel, o projeto estava previsto para durar três anos, com custo aproximado de R$ 40 milhões, mas se prolongou por mais três, gerando gastos adicionais significativos.
O general Hamilton Mourão, então comandante do Comando Militar Sul, assumiu o projeto após uma crise interna e conduziu pessoalmente as negociações com a Tecnobit. Quando os primeiros protótipos chegaram ao Brasil, o simulador foi submetido a uma série de testes técnicos, com resultados desastrosos.
“Nós testamos o simulador sete vezes, e ele foi reprovado em todas. A empresa dizia que corrigia, mas nada mudava”, relata. Diante das falhas recorrentes, o grupo responsável pelo acompanhamento técnico se recusou a aprovar o recebimento do equipamento.
Prevaleceu a vontade do general
Mesmo assim, Mourão decidiu seguir adiante com o pagamento. “Para liberar o pagamento, eram necessárias três assinaturas: a do gerente, a minha e a do fiscal do contrato. Eu e o coronel Silas [fiscal] nos recusamos a assinar. Mourão assinou sozinho. Isso deu um problema enorme. A empresa chegou a ameaçar levar o caso para uma corte arbitral em Nova York, conforme previsto no contrato”, revela o coronel.
O caso foi investigado pelo Tribunal de Contas da União, que constatou que o edital da licitação favorecia a empresa Tecnobit, reproduzindo praticamente propostas que ela havia enviado anteriormente, o que configurava direcionamento por parte do comando do projeto. Mesmo assim, seguiu adiante.
“Durou o dobro e custou mais que o dobro. Encontraram [TCU] diversas irregularidades, mas o julgamento durou três minutos. O ministro [Marcos Bemquerer Costa] disse apenas: ‘Não façam mais isso’. E acabou em pizza”.
“Todos os pareceres técnicos foram contrários: da AMAN, da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, do Departamento de Ciência e Tecnologia. Todos disseram que não valia a pena importar uma tecnologia estrangeira cara e defasada. Esses pareceres foram engavetados. Prevaleceu a vontade de um grupo pequeno de generais que queria o contrato fechado a qualquer custo”.
Apesar dos pareceres técnicos contrários, o Exército conseguiu uma aprovação formal por meio de um estudo do Estado-Maior, que autorizou a aquisição do simulador no mercado externo.
Mais de dez anos depois, o simulador continua sem funcionar plenamente. “Recebo relatos de instrutores dizendo que o equipamento não opera como deveria. O Exército criou um grupo de trabalho para desenvolver a versão 2.0, mas nunca entregou a 1.0. É a síntese da gestão militar brasileira: ineficiência coberta por hierarquia”.
O caso do projeto Smart foi parar em um dossiê entregue a jornalistas do El País, reunindo cerca de 1.300 páginas de documentos e relatórios internos. “Era um material robusto, com provas de irregularidades, notas fiscais, despachos, atas de reuniões, tudo. O Ministério Público Militar arquivou a denúncia dizendo que era anônima. É o padrão: se o acusado é general, não se investiga”, diz Pierrotti.
O coronel conta que escreveu o livro como forma de registrar o que viveu, mas que ainda paga o preço por isso.
“Escrevi como romance porque, se fosse denúncia, iam me prender. Mesmo assim, o Exército me processou por ofensa às Forças Armadas e abriu um tribunal de honra para tentar me expulsar da reserva e cassar a aposentadoria. É o lawfare militar: usam o regulamento como arma política, como fizeram na ditadura”.
Apesar da retaliação, “Diários da Caserna – Dossiê Smart” foi finalista do Prêmio Laurel Verbo, segundo colocado no Prêmio Book Brasil, e está entre os finalistas do Jabuti e do International Latino Book Awards, em San Diego.
“O subtítulo ‘a história que o Exército quer riscar’ acabou sendo profético. Eles realmente querem apagar essa história. Mas eu vivi isso por dentro, e não vou deixar que apaguem”.
Com informações da jornalista Clara Castanho, da GGN
Respostas de 14
Ele, como advogado, se esqueceu de dois caminhos: ao invés do MPM deveria ter escrito uma denuncia para o MPF que protege o denunciante pelo sigilo ou ter entrado com ação popular queria ver se houvesse algo não teriam acabado com a alegada farra, digo isso como exemplo próprio, claro ciente das possíveis consequências. O medo mata a razão.
Todos aqui sabem o porquê o Cel esqueceu o livro.
Sobre a licitação. é difícil colocar no TR em caixa alta e em negrito: “instalação, entrega técnica, treinamento e garantia de 1 ano por parte do fabricante “.
Não é crime nem abuso cobrar do fabricante uma mera garantia de funcionamento. O óbvio tem que ser dito
Constatou, viu e viveu, não de ouvir falar, que os órgãos de fiscalização não funcionam. Fez um livro, falou tudo que na época o “recruta” já sabia, e nada, nada de alguém investigar de forma séria e imparcial essa história de horror onde, sugeiras podem terem sido varidas para baixo do tapete e erros cometidos. Me pergunto: onde está o inerte MPM? O MPF? o Comandante do Exército da época? O Ministro da Defesa da época? A PF?
Admiro o Coronel Pierrotti, fez o que pôde para mostrar aos órgãos de controle que algo, possivelmente, estava errado. Encontrou uma máquina de guerra em seu caminho, o próprio Exército. Quem sabe
hoje não teríamos mais mortos fictos e menos políticos.
Cara vc vive em que mundo….Vc usa esse termo em latim para dá um verniz de sabedoria mas não possa de um nefelibata. A denuncia está ai….onde anda o seu MPF. que mundo que vc vive…Isso aqui e brasil…onde o denunciante vira o bandido e o Bandido, acusador, julgador e vitima.
Verdade.
Vejam o caso do padre “conquistador”: agora a polícia e o MP estão atrás de quem fez aquelas imagens da traição e de quem as disseminaram na internet.
Vou lá atrás: o caseiro Francenildo que denunciou as festas “bacanais” que Palocci e outros grandes do partido faziam na época do mensalão e regado a dinheiro público foi o único prejudicado.
Brasil não é um país sério.
Aqui, condena-se o mensageiro do crime, não o criminoso.
Mas os únicos que cometeram algum crime, foram os que invadiram a casa do padre, fizeram imagens e divulgaram na internet sem autorização dos envolvidos…
Cuide de sua tribo. Meu sonho era saber latim, seria bem melhor que ficar latim-do.
A única certeza incontrastável, para quem conhece a caserna é: não se pode falar a verdade contra a Instituição. Se falar que a Instituição errou, acabou sua carreira
Simples assim.
falou tudo, pois o militar que denunciar alguma irregularidade dentro de uma caserna, acaba a carreira, será perseguido, promoções atrasados, etc…
Errata: …de quem as disseminou…
O cara e tao arrogante, aue o processo foi arquivado no TCU e JMU, e ele ainda continua insistindo fazendo ilacoes! Está tendo oportunidade agora para provar, e caso nao prove, confirmara que a obra dele e uma ficçao, com a reputacao de pessoas e colocando a credibilidade da instituicao em xeque! “Nao justificado”, lepa!
Reputação? Credibilidade da Instituição? Você é PRF? PF? PM? BM? GM? Maj Cav, essas Instituições sim, possuem credibilidade! Produzem! Vc faz o que? Organizando a Formatura? Assinando o Arranchamento? Montando um PTrab? Fala sério Oficial de Amae Iludido.
Kkkkk humilhou o pobre major.
O major ainda não sabe, mas ele vive apenas para o ego do chefe dele
Esse Cel ainda está no lucro. O diplomata José Jobim escreveu um livro sobre corrupção na construção de Itaipu e foi encontrado suicid@do por enforcamento com os pés tocando o chão (padrão Herzog)