Após depoimento de ex-comandante do Exército, PF ouve Cid novamente

O tenente-coronel Mauro Cid (à esq.) e o ex-comandante do Exército e general da reserva Marco Antônio Freire Gomes — Foto: Fotos de Pedro França/Agência Senado e Cristiano Mariz/O Globo

Freire Gomes passou sete horas com policiais esclarecendo possível participação de Bolsonaro em trama golpista
Dimitrius Dantas

Brasília – Ex-ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro, o coronel Mauro Cid prestará nesta segunda-feira um novo depoimento à Polícia Federal sobre a suposta articulação realizada pelo ex-mandatário e seus aliados por um golpe de Estado no final de seu mandato, em 2022. A defesa de Cid foi acionada pelos investigadores na última semana. O militar fechou um acordo de delação premiada com a Polícia Federal, homologado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, em setembro de 2023.

A oitiva de Cid foi marcada após o o general Marco Antônio Freire Gomes, comandante do Exército até o final de 2022, prestar seu depoimento à Polícia Federal. Fontes ligadas à investigação indicaram que o depoimento de Freire Gomes implicou o ex-presidente Jair Bolsonaro nas discussões sobre um golpe de estado.

A expectativa é de que Cid seja questionado sobre o papel de Bolsonaro na trama por um golpe de estado. Segundo as investigações, o objetivo da ruptura institucional estudada por aliados do ex-presidente seria manter Bolsonaro no poder e, consequentemente, impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Cid também deve ser perguntado sobre se Bolsonaro orientou a manutenção dos acampamentos na frente dos quartéis no final de 2022. O ex-presidente nega que tenha atuado contra a democracia.

Nas últimas semanas, as investigações avançaram com a deflagração da Operação Tempus Veritatis, que revelou uma reunião ministerial em que auxiliares de Bolsonaro defenderam que o governo tomasse alguma ação. Além disso, discussões sobre minutas golpistas também foram identificadas em conversas por aplicativos de mensagem. Em uma delas, Cid enviou um áudio ao então comandante do Exército, o general Freire Gomes, indicando que Bolsonaro teria feito alterações em uma das propostas de minuta.

“E hoje ele mexeu naquele decreto, né. Ele reduziu bastante e fez algo muito mais direto, objetivo, curto e limitado”, disse o militar a Freire Gomes, em 9 de dezembro – dois dias depois da reunião de Bolsonaro com os militares no Palácio da Alvorada.

O ex-ajudante de ordens também deve ser perguntado sobre a participação de outros militares da cúpula das Forças Armadas na discussão do plano golpista. No último mês, a PF cumpriu mandados de busca e apreensão contra 16 militares, entre eles os generais e ex-ministros Walter Braga Netto, Paulo Sérgio Nogueira e Augusto Heleno.

Como colaborador, Cid não pode mentir e deve responder todos os questionamentos sob pena de ter o acordo cancelado. Cid ficou preso preventivamente por cinco meses antes de optar pelo acordo. Na última semana, o general Freire Gomes permaneceu por sete horas prestando depoimento aos policiais. O general implicou o ex-presidente Bolsonaro nas discussões sobre o golpe, de acordo com fontes à par da investigação.

Freire Gomes confirmou que Bolsonaro convocou uma reunião no dia 7 de dezembro de 2022 no Palácio da Alvorada para discutir detalhes sobre uma minuta que previa a realização de novas eleições e a prisão do ministro do STF Alexandre de Moraes. Em seu primeiro depoimento, Cid relatou que soube da existência do documento apócrifo, quando o então Assessor da Presidência Filipe Martins lhe apresentou uma versão impressa e em formato digital para que fossem feitas alterações pedidas por Bolsonaro.

O GLOBO

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