Exército barra contratação de medalhista do Pan que tem deficiência física

Anny Bassi, velocista brasileira Imagem: Wagner Carmo/CBAt

Anny tinha os requisitos esportivos para ser contratada pelo Exército, mas foi rejeitada por causa da deficiência

Demétrio Vecchioli
Uma das melhores velocistas do país, Anny Bassi se vê no limbo. É uma pessoa com deficiência, mas não é apta a ser uma corredora paralímpica. Construiu, ainda assim, uma carreira de destaque no atletismo olímpico, mas sofre por falta de apoio. Tinha todos os requisitos esportivos para ser contratada pelo Exército, mas foi rejeitada por causa da deficiência.

“O que me incomoda é eu ser considerada deficiente para algumas coisas, não para outras. É como se eu não me encaixasse. Quando tento entrar em uma coisa, sou barrada por não ter deficiência. Quando tento entrar na outra, sou barrada porque tenho deficiência. Sou barrada duas vezes, dos dois lados”, diz a velocista catarinense de 26 anos.

Ela foi a única atleta reprovada no exame de saúde no edital de 2024 do badalado Programa Atleta de Alto Rendimento (PAAR) do Exército, que todo ano contrata esportistas para ingressarem como cabos e sargentos temporários das Forças Armadas. É por causa desse vínculo que atletas se tornam militares e batem continência no pódio de grandes competições.

O Ministério da Defesa foi procurado, e pediu que a coluna questionasse o Exército. Isso foi feito na sexta-feira, mas até agora não houve resposta. Caso ela seja enviada, o texto será atualizado.

Como funciona o edital?
A cada edital, Exército, Marinha e Aeronáutica listam o tipo de atleta que procuram e os critérios para escolha. Para atletas de provas olímpicas, são pontuadas participações e resultados recentes em Campeonatos Mundiais e posição no ranking mundial. A contratação é por um ano, renovável anualmente por até oito anos.

Como a dedicação é pouca (basicamente participação em um torneio militar internacional e um curso de reciclagem por ano), mas a grana é boa (soldo de R$ 3,8 mil), o edital costuma atrair os melhores de cada prova no país. Para a vaga aberta nos 100m, no edital do Exército deste ano, se inscreveram Anny, que foi sexta colocada do ranking brasileiro de 2023, Bárbara Leôncio, sétima, e Suellen Vitória, oitava.

As três foram chamadas para o exame médico, com Anny e Bárbara empatadas pela análise curricular. “Quando vai fazer a entrevista, eles falam que a gente está entrando para ser atleta, mas que está lá para essa função [ser sargento] caso seja necessário. Eles consideram que eu sou inapta nesse sentido. Está mais do que provado que consigo correr”, diz.

Inapta para ser atleta militar
Durante a inspeção médica, ela não foi informada que não havia sido aprovada, só quando o Exército publicou os resultados. Única reprovada entre mais de 60 atletas que chegaram a esta etapa, optou por não recorrer. “Eu sabia da possibilidade, porque o edital especifica, mas fiquei chateada. É aquilo de ser barrada dos dois lados.”

O edital fala que o atleta deve “gozar de boa saúde física e mental e não ser portador de deficiência incompatível com o exercício das funções atinentes ao cargo a que concorre, bem como, as atividades inerentes ao serviço militar”.

Anny nasceu com a Síndrome de Poland, uma deformidade que afeta a região do peito e que, em alguns casos, como o dela, causa malformação de membro superior. Anny não tem os dedos e a maior parte da mão esquerda, que só vai até até a articulação do dedão. A deficiência a atrapalha no atletismo convencional, mas não é limitadora o suficiente para que ela seja aceita na classe mais alta do atletismo paralímpico.

Como a mão gera maior impacto na natação, pela puxada da água, Anny seria elegível no movimento paralímpico, entre outras modalidades, na natação. Ela até chegou a tentar a sorte no novo esporte, mas percebeu que seu lugar é o atletismo. “Não tenho que aceitar onde as pessoas querem que eu esteja, mas estar onde eu quero estar. Eu poderia fazer outros esportes, mas tem que ter o dom”, contou Anny à coluna, durante os Jogos Pan-Americanos de Santiago, quando foi bronze com o revezamento 4x400m feminino Ela também correu o 4x100m, que, bastante desfalcado, terminou em quinto.

Apoio do Exército viria em boa hora
Anny busca o índice olímpico nos 100m e vagas nos dois revezamentos em Paris. Antes, quer estar nas equipes que vão ao Mundial de Revezamentos, em maio, nas Bahamas. Quase todas suas concorrentes na prova mais veloz são ou foram atletas militares, incluindo agora Bárbara Leôncio, selecionada no último edital.

Sem essa possibilidade, Anny tem que se virar com o pouco apoio que tem. Recebe o Bolsa Atleta internacional, de R$ 1,8 mil, e deve ser contemplada com uma bolsa de cerca de R$ 1 mil da prefeitura de Balneário Camboriú (SC), sua cidade. O plano é que o clube local que ela defende passe a pagar também um salário, que ainda não começou a cair na conta.

A prefeitura ao menos topou pagar uma passagem de ida e volta para a Europa, onde Anny vai ficar durante quase um mês, entre maio e junho, disputando o maior número de competições possíveis em busca do índice ou de pontos no ranking mundial que também classifica a Paris.

“Eu estou bem animada com o ano, treinando muito bem. Quando teve a negativa do Exército, era uma coisa que eu queria, e eu fiquei chateada por um momento, mas sabia que não poderia me abalar. Não poderia perder tempo ficando chateada com isso. Eu estou com expectativa alta, treinando muito bem, melhor do que nos anos anteriores. Acredito que vou estar entre as top 5 das duas provas, dos 100m e dos 400m, e vou representar o Brasil nas Olimpíadas.”

UOL

9 respostas

  1. Cara viramos cabide de emprego, olha os militares que estão na´penúria, sem aumento no salario a 8 anos, acorda ai comandante, sai do conforto, e olhe a tropa com mas seriedade, mudar e preciso acorda Brasil.te

  2. O exercito dos atletas.
    Os corredores

    Vao fugir dos drones numa guerra

    Contratam atletas para ganhar medalha e aparecer.

    Improbidade administrativa evidente, desvio de finalidade evidente.

    Forcas armadas é defesa da patria, nao competir olimpiadas

  3. Esses “militares” não dão serviço, não fazem ordem unida Com armamento ou seja No contrato que assinam como Temporário e para alto rendimento, a mao de Continência é a direita é corredora. Se fosse para um de carteira até entendo. No mais existem competições Paraolímpicas. Por isso que digo EUA estão a anos luz, lembro do caso do mergulhador master Chieff que mesmo sem uma perna galgou até o ultimo posto ate o fim da carreira. Poderiam ter retirado tal medida do edital para esse atletas. Fazer o que para quem reforma um militar que realiza cirurgia de Alteração de Gênero apto para o trabalho.

    1. Dê uma pesquisada na história do Brasil, pode ser no google e procure pelos atletas Edson Arantes do Nascimento, ou João Carlos de Oliveira, será que eles tem algum vínculo com os praças do exército?

  4. Assim é fácil o Exército ganhar competições, queria ver pegar um militar que tira serviço de Guarda, vai pra reunião rolha no dia seguinte, vai pra missão, para o campo, e mais serviço, e faxina, e serviço com faxina, e outra reunião rolha, e por aí vai. Não tem militar que consiga se dedicar ao esporte, a não ser que seja “peixe” do comandante ou seja um atleta pronto, de alto rendimento, contratado especificamente para isso.

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