Pistas da PF mostram que apuração sobre golpismo precisa ir fundo em segredos militares

Bolsonaro conversa com o comandante do Exército durante cerimônia do Dia do Soldado - Gabriela Biló/Folhapress

Enquanto não se souber o que ocorreu nos bastidores da relação de Bolsonaro com as Forças Armadas, nunca poderemos medir quão legalistas foram nossos militares


Malu Gaspar

A esta altura do campeonato, ninguém em sã consciência diria que ainda há risco de golpe de Estado no Brasil. Jair Bolsonaro está inelegível, as sucessivas operações da Polícia Federal e as sentenças de Alexandre de Moraes extirparam os golpistas do cenário político, os sinais da caserna são de calmaria.

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Mesmo assim, sobram interrogações sobre o que se deu no interior das Forças Armadas no governo passado e sobre como se permitiu que chegássemos tão perto de uma ruptura institucional.

Algumas perguntas começam a ser respondidas com as revelações da operação sobre o ex-presidente, seus ministros militares e outros 13 oficiais envolvidos no planejamento do golpe. O pouco que veio à tona, porém, foi suficiente para demonstrar quão profundo é o baú de segredos dos militares.

Fica patente no enredo traçado pela PF que uma das razões por que a “virada de mesa” não prosperou foi a resistência de dois comandantes em aderir a ela — o general Freire Gomes, que Walter Braga Netto chama de “cagão” nas mensagens captadas pela PF, e o brigadeiro Carlos Baptista Júnior, a quem os golpistas se referem como “ traidor da pátria”.

Está bem documentado também que os homens de confiança de Bolsonaro orquestraram uma onda de assédio digital para intimidar os “melancias”, assim batizados porque, dizia-se, eram “verdes por fora e vermelhos por dentro”.

Tais episódios, contudo, estão na superfície da engrenagem golpista. Os próprios delegados da PF admitem, na representação em que pedem o aval de Moraes para as buscas e prisões, que falta saber exatamente como foram as conversas entre Bolsonaro e esses comandantes.

Primeiro porque, embora esteja claro que eles resistiram ao golpismo, não está descartada a hipótese de omissão. Depois para saber até que ponto foram os militares que resistiram e até que ponto foi Bolsonaro quem deu para trás em seu arroubo autoritário.

Essa dubiedade permeou a relação do ex-presidente com os comandantes militares ao longo de todo o seu governo, e não seria exagero dizer que fomentou a crença de que se poderia dar um golpe caso ele perdesse as eleições.

Em março de 2021, o ministro da Defesa e general Fernando Azevedo deixou o governo depois de se recusar a apoiar um estado de sítio ou de defesa, num episódio que levou à demissão conjunta dos três comandantes das Forças Armadas.

Antes, porém, o mesmo Azevedo havia sobrevoado com Bolsonaro uma manifestação contra a “ditadura do STF” e a favor de intervenção militar, num helicóptero do Exército, em ato de clara intimidação ao Supremo, na época em conflito com o Planalto em torno da reação à Covid-19.

Meses depois, o então general da ativa Eduardo Pazuello subiu ao palanque de um comício com o presidente da República, num ato de flagrante desobediência ao estatuto dos militares. Mas o comandante Paulo Sérgio Nogueira se recusou a puni-lo, no que ficou subentendido como um “liberou geral” para a tropa se enfronhar na política.

Quando a CPI da Covid avançou na apuração sobre suspeitas de corrupção envolvendo Pazuello e outros oficiais na negociação para a compra de vacinas, o brigadeiro Baptista Júnior deu entrevista ao GLOBO em tom de ameaça, dizendo que não toleraria “ataques levianos” às Forças Armadas.

O mesmo Freire Gomes que resistiu ao golpismo assinou uma nota conjunta de comandantes com críticas ao Judiciário e se recusou a reprimir os acampamentos na porta dos quartéis depois da eleição.

Até hoje, pouco ou nada se sabe a respeito do que se passou nas entranhas do Exército nesses e noutros episódios cruciais para a História do país. Ao assumir, Lula apostou na pacificação e nomeou o comandante do Exército por antiguidade, mesmo avisado de que as conexões do general Júlio Cesar Arruda com o bolsonarismo poderiam causar problemas.

O presidente também sufocou iniciativas da esquerda para cortar privilégios e restringir legalmente a ação política dos militares. E, apesar de ter sido obrigado a demitir Arruda por sua conduta durante o 8 de Janeiro, virou lugar-comum dizer que, dados os riscos que corríamos, Lula não tinha outra alternativa a não ser a acomodação sem ruídos.

É uma hipótese. Mas, enquanto não se souber ao certo o que ocorreu nos bastidores da relação de Bolsonaro com as Forças Armadas, nunca poderemos medir quão legalistas foram nossos militares e quanto dependemos do Supremo para conter o golpismo. Os golpistas podem até ser condenados e presos, mas um capítulo importante da História permanecerá nas sombras.

O GLOBO

4 respostas

  1. Creio que não existe inocente nesse grupo.

    Poderia dividir os “estrelados” em três grupos, até o dia 8 de janeiro de 2023:

    1° grupo: os mais exaltados e envolvidos com a possibilidade de romper a normalidade e entregar o Governo indefinidamente nas mãos do parMito;

    2° Grupo: os moderados. Não queriam se expor, mas faziam o que podia nos bastidores para contribuir com esse rompimento;

    3° Grupo: os indiferentes. Aqueles que ficaram “em cima do muro”. O pensamento desses era: se “romperem” a normalidade me apresento de imediato como colaborador em troca de dividendos; se o golpe não vingar, não serei envolvido e me mostrarei como “legalista”.

    A prova de que foi mais ou menos assim é que não existiu, até o fim de 2022: nenhum pedido desses “estrelados” para ir para a Reserva (porque não concordavam); nenhuma reação verdadeiramente legalista, como determinar a retirada dos acampamentos e/ou denúncia formal ao PGR das iniciativas e atitudes ilegais do ParMito e seus asseclas.

    Agora, muitos aparecem como “leões” legalistas.

    Mas no fundo todos estavam aguardando os acontecimentos para “lucrar” com quaisquer dos dois resultados.

    Pergunto: por que o então comandante do EB não deu voz de prisão ao ParMito ou o denunciou ao PGR quando lhe fez a consulta sobre o tal “estado de sítio”?

    Por isso, não vejo nenhum inocente.

  2. Para início da total virada de página, o atual Governo deveria passar para a Reserva Remunerada todos os oficiais generais de 4 estrelas das três FA que integravam o Alto Comando de cada Força até o dia 8 de janeiro de 2023.

    Ninguém aqui fora – que não integra esses grupos – sabe realmente como cada um se portou naqueles eventos.

    Além disso, daria uma boa “oxigenada” na direção das nossas FA.

    Simples assim.

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