Explicador: por que motivo os líderes europeus de Defesa falam de uma (possível) guerra com a Rússia?

se queres a paz prepara-te para a guerra
Planear a guerra é o que os militares fazem e há sempre pressão dos generais e dos ministérios da Defesa para gastar mais

Uma onda de ansiedade tomou conta dos ministros da Defesa e das forças armadas europeias, à medida que políticos e líderes militares acreditam que Donald Trump, cético em relação à NATO, poderá ser eleito o próximo presidente dos EUA – e que a Rússia poderá não ser forçada a sair da Ucrânia ou mesmo ser derrotada. Este estado de espírito febril suscitou avisos crescentes de que a Europa poderia ver-se envolvida numa guerra com a Rússia, apesar de atualmente o país estar em conflito com a Ucrânia.

Ao mesmo tempo, as tensões no Médio Oriente continuaram a escalar. O ataque de Israel a Gaza continua; aumentam as hostilidades com o Hezbollah, alinhado ao Irão, no Líbano; e os EUA e o Reino Unido bombardearam áreas controladas pelos Houthi no Iémen para impedir os ataques a navios no Mar Vermelho.

O que dizem os políticos e generais?

De acordo com os britânicos do ‘The Guardian’, o exemplo mais flagrante foi do almirante Rob Bauer, presidente do comité militar da NATO, que indicou que “não é um dado adquirido que estamos em paz” e que é “por isso que estamos a preparar-nos para um conflito com a Rússia e os grupos terroristas, se for o caso”.

Grant Shapps, secretário britânico da Defesa, utilizou uma linguagem ainda mais forte, argumentando que o dividendo da paz da Guerra Fria tinha acabado e que o Reino Unido e os seus aliados estavam a “passar de um mundo pós-guerra para um mundo pré-guerra”, com o idealismo a ser substituído por um “realismo teimoso”. Já era altura, argumentou, de um rearmamento para proteger a Europa da “fúria de Putin”.

Já Boris Pistorius, ministro alemão da Defesa, sugeriu que, embora um ataque russo não fosse provável por agora, “os nossos especialistas esperam um período de entre 5 e 8 anos em que isso poderá ser possível”. A Europa, acrescentou, “lida com uma situação de ameaça militar que não existe há 30 anos.” Também os responsáveis da Suécia e Noruega fizeram advertências semelhantes no mês passado.

Isto não é apenas alarmismo por parte dos militares que querem mais dinheiro?

Planear a guerra, uma contingência remota, é o que os militares fazem e há sempre pressão dos generais e dos ministérios da Defesa para gastar mais. Mas a guerra na Ucrânia está a esgotar os arsenais ocidentais de munições. Parece cada vez mais provável, entretanto, que o Congresso dos EUA não vote um novo pacote de ajuda militar de cerca de 60 mil milhões de dólares para a Ucrânia devido à pressão dos republicanos.

As armas ocidentais estão a chegar a ‘conta-gotas’ à Ucrânia, embora tenham falhado em causar impacto nas linhas da frente russas – o que, se a futura ajuda militar dos Estados Unidos fosse interrompida devido ao impasse no Congresso, a Europa teria de lutar para preencher a lacuna. De acordo com os especialistas, sem os Estados Unidos, a Rússia pode gradualmente virar a situação.

Ao mesmo tempo, Trump parece prestes a vencer a nomeação republicana após vitórias nas primárias em Iowa e New Hampshire. As memórias da sua anterior presidência permanecem na Europa, em particular a sua ameaça na cimeira da NATO em 2018 de que os EUA poderiam “agir sozinhos” e desistir se outros países não aumentassem as suas próprias despesas militares.

O que isso poderia significar para a NATO?

Manfred Weber, líder do conservador Partido Popular Europeu no Parlamento Europeu, promoveu a ideia de que a UE deveria substituir a NATO na defesa do continente, propondo “um pilar europeu de defesa” que deveria incluir um guarda-chuva nuclear, fornecido por França, o único estado com armas nucleares na UE. “Quando olho para este ano como um político europeu, a primeira coisa que nos passa pela cabeça é Trump”, salientou.

Entre alguns políticos da UE fala-se sobre a necessidade de criar um comissário de Defesa da UE, mas a realidade é que é pouco provável que esta manobra suplante a força da NATO, cujos membros com grandes forças armadas incluem o Reino Unido, Turquia, assim como os EUA.

Poderia realmente haver uma guerra mais ampla com a Rússia?

O general sir Patrick Sanders, chefe do exército britânico, sugeriu que o exército profissional do Reino Unido era demasiado pequeno para durar muito tempo numa guerra total com a Rússia e que seria necessário um “exército voluntário” para a vencer, sugerindo um recrutamento. Embora esse cenário tenha sido rejeitado pelo Governo britânico como uma hipótese “inútil”, outros países europeus, como a Letónia e a Suécia, têm estado a reviver formas de serviço militar.

No entanto, está longe de ser claro que a Rússia, por mais agressivo que Putin queira ser, teria capacidade para atacar os Estados-membros da NATO. Segundo estimativas dos serviços de informação ocidentais, 315 mil russos foram mortos ou feridos na Ucrânia e as forças de Moscovo não conseguiram repetidamente romper com o seu vizinho mais pequeno. A ansiedade relativamente ao apoio dos EUA pode ser real, mas a ameaça não é tão significativa.

Excutive DIGEST (Portugal)

2 respostas

  1. Qual a condição de existência de qualquer militar? A possibilidade, mesmo que remota, de uma guerra.

    Seja interno ou externo, alguém vai está falando em guerra. Enquanto no exterior o assunto -militar – é levado a sério, aqui no Brasil a preocupação é com formaturas e aumento salarial.

  2. Se o Trump ganhar (Provavelmente ganhara), a Ucrânia Cairá assim como o Zelenski. Faz sentido a preocupação dos europeus. Acredito q o Trump intensificara a presença e a atividade militar americana no oriente Médio e na Ásia, baseado na sua administração anterior.

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