O dia em que um F-5 da FAB atropelou uma vaca

Par de caças F-5 do Esquadrão Pampa no final da década de 1980. Foto: Antônio Ricieri Biasus/Revista Força Aérea.

Incidente pitoresco ocorreu em 1979, no Rio Grande do Sul

Gabriel Centeno

Não, caro leitor, o título da matéria não está errado e você também não leu de forma incorreta, é exatamente disso que vamos falar. Um caça F-5 da Força Aérea Brasileira (FAB) atropelando uma vaca, por mais estranho e absurdo que isso possa parecer. Uma história real que ocorreu no Rio Grande do Sul, há um bom tempo, e que por ter ocorrido em tal unidade da federação, não poderia ter terminado de outra forma: churrasco.

Em setembro de 1979, o Esquadrão Pampa (1º Esquadrão do 14º Grupo de Aviação) da Base Aérea de Canoas estava realizando uma extensa campanha de treinamento de emprego ar-solo. A unidade, a segunda mais antiga da aviação de caça brasileira, fez uso de todos os tipos de munições disponíveis para uso nos F-5E Tiger II, incluindo bombas, foguetes e os canhões internos M39 de 20 mm.

Na ocasião, os pilotos exercitavam o ataque ao solo em condições noturnas, decolando da BACO para disparar contra alvos montados no Estande de Tiro de Butiá, também chamado de São Jerônimo, uma área do Exército Brasileiro. Na época não se usavam os flares iluminativos, então os alvos eram iluminados com holofotes e tambores de óleo em chamas.

Na noite do dia 05/09/1979, um par de F-5 da Esquadrilha Branca decolou de Canoas para mais uma missão da campanha, sob comandos do então Capitão Gilberto Burnier, liderando o voo a bordo do jato de matrícula 4829, e acompanhado do seu ala, Tenente Ademar Chies, no FAB 4851.

Em entrevista ao Portal Aeroflap, o Tenente-Brigadeiro Burnier, hoje na reserva e com 4750 horas de voo na sua “carteira”, conta que naquela data “a noite estava escura, sem lua, mas sem chuva ou nevoeiro.”

Burnier já estava no esquadrão desde 1975, onde chegou como 1º Tenente, sendo o único militar desta patente escalado para ir aos Estados Unidos para trazer em voo os então novos F-5E, comprados pela FAB dois anos antes.

“O Pampa era um especialista em ataque ao solo, haja vista a proximidade com a fronteira sul do País. Nós treinávamos muito em regime H-24, todas as modalidades de emprego convencional que se usava em aviões de caça: bombas de todos os tipos, foguetes, canhões e interferência eletrônica, além de Recce Foto [reconhecimento fotográfico com câmeras adaptadas no nariz do F-5].”

Após diversos passes contra os alvos em Butiá, o Pampa Branco de Burnier e Chies retornava para Canoas. Ainda era prevista mais uma última saída para aquele dia, às 23h00, com os mesmos aviões que retornavam do estande de tiro.

“No retorno da missão, estávamos em formação básica e puxei o pilofe. Baixei o trem e entrei na final conforme previsto no manual na velocidade correta (145 KIAS + correção). O meu ala me acompanhava atrás como de costume”, relata o aviador.

Alinhado com o centro da cabeceira 12 (hoje 13) de Canoas, Burnier trazia o F-5 para mais um pouso noturno. Conforme explicado por ele, e no livro À Caça, Pampa!, o piloto não enxerga muito à sua frente durante a aproximação do ‘Tigre’, por conta do alto ângulo de ataque, ou seja, com o nariz apontado para o alto.

“Os faróis de pouso baixados na asa ficam com um ângulo para baixo, a fim de permitir que o piloto veja pelo lado do nariz um pouco do solo. Somente após tocarmos a bequilha [trem de pouso frontal] no solo é que automaticamente os faróis se movimentam para uma posição paralela ao solo, sob as asas.”

O F-5 toca a pista da BACO e Burnier executa um aerobrake, ou frenagem aerodinâmica, manobra onde o piloto levanta o nariz do avião ao máximo, sem raspar a cauda. Os speedbrakes são acionados e os flaps de manobra recolhidos.

O aerobrake reduz a velocidade do caça rapidamente, mas faz com que o piloto perca a visão dianteira. Em qualquer outra situação não haveria nenhum problema, se não fosse pela infeliz surpresa que aguardava por Burnier. A bequilha do F-5 toca o solo e os faróis de pouso trocam de posição, iluminando o caminho à frente. A luz revela algo completamente inesperado: quatro vacas caminhando pela pista de Canoas. Uma delas estava fatalmente na frente do 4829, a meros 150 metros.

Com a palavra, o Brigadeiro Burnier:

O então Capitão Aviador Gilberto Burnier no cockpit de um F-5 do Esquadrão Pampa. Foto: Antônio Ricieri Biasus.

“Imediatamente comandei o paraquedas de arrasto, freei o avião com vigor e avisei ao meu ala para arremeter e seguir para o Salgado Filho, pois a pista estava com vacas. A vaca colidiu contra e sob a minha asa esquerda, foi rasgada ao meio pelo trem de pouso esquerdo, quebrou o meu speedbrake esquerdo com a cabeça e chifre, bem como com o tranco na asa, o meu lançador de mísseis da asa esquerda se desprendeu e seguiu em frente.”

“Quando parei na margem esquerda da pista, sobre os pilones laterais, cortei o motor, o que não foi um bom procedimento, pois no F-5 você perde o gerador e fica um breu!”.

Burnier saiu ileso da batida. As outras vacas fugiram. Elas pertenciam ao senhor Firmino, dono de uma propriedade rural do lado da base. O Tenente Chies pousou no Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre. Logo após a colisão, chega o Sargento de Dia do Esquadrão Pampa para socorrer o aviador e, também, com uma importante solicitação: carnear a vaca, prontamente autorizada pelo então capitão, o que foi realizado ali mesmo pelos militares.

A pista ficou interditada por conta do acidente e o voo que deveria sair na mesma noite foi cancelado. “Quem ficou brabo comigo foi o Tenente-Coronel Trompowsky que era o comandante do Pampa e estava escalado para voar em seguida com as nossas aeronaves. Contudo, devido ao ocorrido eles abortaram o voo.”

“Logo após carnear a vaca o comandante mandou pegarem no rancho aqueles ganchos de carne que ficam pendurados nos açougues e colocou-os na porta do hangar do 14 para todos verem no dia seguinte. Estava bem frio, cerca de 4ºC e não teve problemas.”

Sediado na região metropolitana de Porto Alegre, o Pampa carrega marcas gaúchas não só no nome – que representa um bioma predominante no estado – mas também na rotina da unidade. A vaca carneada não serviu apenas como troféu, mas também virou churrasco. Nada mais justo, não é?

“Por volta das 23:00 o comandante Trompowsky tocou o sino do hangar (quando é tocado é para todos entrarem em forma e tirarem os faltantes), e após a tirada de faltas estavam presentes, sem precisar, sem se pedir, sem ordens, só por amor àquela unidade aérea, 85% do efetivo.. Naquela época o esquadrão contava com 252 militares de todas as patentes.”

O F-5 FAB 4829 ficou extensivamente danificado após a colisão com a vaca. O animal, por sua vez, virou churrasco. Foto: Antônio Ricieri Biasus

“No almoço do dia seguinte, o comandante encerrou o expediente e convidou todos para comermos um churrasco no Rancho Azul, antigo Centro de Tradições Gaúchas dentro da BACO. A festa foi ótima e eu fui aquinhoado com a picanha MAIS DURA que eu já comi em toda a minha vida!!!”

O FAB 4829 sobreviveu a colisão com a vaca, mas ficou um bom tempo passando por reparos até retornar às condições de voo. Burnier estima que o conserto custou, na época, US$ 836 mil, cerca de US$ 3,5 milhões em valores atualizados. “Vaquinha cara, né?”, finaliza o aviador, com tom de brincadeira.

Aliás o 4829 permanece voando. O avião foi um dos 49 F-5 que receberam a já conhecida modernização realizada pela Embraer e AEL Sistemas. O upgrade deu uma sobrevida ao pequeno caça, que deve parar de voar no país no início da próxima década. Esperamos que, até lá, nenhuma outra vaca seja atropelada por outro F-5.

O Esquadrão Pampa em 1979. Sediada na Base Aérea de Canoas, unidade ainda opera os F-5, hoje modernizados. Foto: Antônio Ricieri Biasus.

O Aeroflap agradece o Coronel-Aviador (R1) Antônio Ricieri Biasus por ceder fotos de sua autoria e o contato do Tenente-Brigadeiro Burnier para compor a matéria.
Com informações do livro À Caça, Pampa! 75 anos do 1º/14º GAV, dos pesquisadores Leandro Casella e Rudnei Dias da Cunha.

AEROFLAP

2 respostas

  1. Época boa em que o dinheiro e a atenção eram dedicadas ao preparo e emprego, não para levar cesta básica para índio e aparecer na mídia por isso.

    Eles queimavam munição, hoje é gritando: powpowpowpow

  2. Nos feitos da Marinha do Brasil, também tem uma história curiosa: Em 1918, no final da primeira Guerra Mundial, em Gibraltar, ao verificarem movimento nas águas, e, pensando ser um submarino alemão, nossos marinheiros abriram fogo contra um cardume de toninhas. Não havia nenhum submarino, foi só um susto! 😁

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