Quem é o 1º comandante negro da FAB em SP: ‘Faltam oportunidades de educação na sociedade’

MAJOR BRIGADEIRO LUIZ CLAUDIO MACEDO SANTOS

Sobre ascensão na FAB: “Tratamento igualitário e a valorização dos méritos individuais”, diz brigadeiro

GONÇALO JUNIOR

Quando o Major Brigadeiro do Ar Luiz Cláudio Macedo Santos se posiciona para a foto desta reportagem, à frente do painel histórico dos antigos comandantes do IV Comar (Comando Aéreo Regional) da Força Aérea Brasileira (FAB), um contraste chama a atenção. Em mais de 80 anos de história, ele é o primeiro negro a liderar o órgão estratégico para a defesa do espaço aéreo do País que abrange os Estados de São Paulo e de Mato Grosso do Sul.

“O que ficou muito claro para mim desde o início na minha carreira foi um tratamento igualitário e a valorização dos méritos individuais”, diz o brigadeiro, quando questionado sobre as dificuldades para ascensão de um homem negro na Força Aérea.

O oficial também afirma não ter sofrido com um episódio de discriminação em sua carreira. “Outras pessoas já me perguntaram isso, em diversas situações, e a resposta é ‘não’. Muito pelo contrário. Sempre fui muito recebido em todos os ambientes em que cheguei. Se houve algum tipo de discriminação sempre foi pelas costas, nunca foi pela minha frente”.

Por outro lado, a representatividade de negros ainda é baixa, na opinião do oficial. “Não me classifico como uma exceção. Eu me classifico como mais um para quem foram dadas as oportunidades. Mas entendo que a representatividade é baixa, se olharmos o ambiente em que os negros formam a maioria da população brasileira”, avalia.

No IV Comar, Macedo calcula que cerca de 20% do total de 50 homens e mulheres são negros. “Se a representatividade é baixa, muito provavelmente o problema esteja na origem, na falta de oportunidade de uma educação igualitária para todos”.

Piloto de aviões de caça com MBA em Gestão de Projetos
Quando ingressou na Força Aérea em 1985 na Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR), o principal desafio era se formar aviador. Naquela época, metade das turmas ficava pelo caminho em função da exigência intelectual, física e psicomotora da preparação. Três décadas atrás, não existiam simulares de voo tão sofisticados como os de hoje.

“No voo, não imaginamos como o organismo vai reagir e como vamos transferir o estudo teórico para prática. Alguns não conseguem atingir os níveis de aprendizado e são afastados da atividade aérea”, afirma o oficial.

Macedo percorreu todos os postos da hierarquia da Força Aérea. A experiência de voo inclui 3,5 mil horas, sendo mais de 2.970 horas na aviação de caça, entre eles o Xavante AT26, primeiro modelo a jato fabricado no Brasil, o F5, principal modelo de primeira linha no País, e o Super Tucano A29, selecionado por mais de 15 forças aéreas, incluindo a dos Estados Unidos. Possui 21 condecorações nacionais e uma internacional.

Desde fevereiro, Macedo é responsável por um dos sete Comandos Aéreos Regionais (Comar) criados para facilitar a gestão e as atividades operacionais no espaço aéreo no País. Na prática, ele representa o Comando da Aeronáutica em São Paulo e Mato Grosso do Sul, além de exercer a governança e a gestão da qualidade nas atividades de apoio administrativo e de suporte. Entre as unidades subordinadas ao IV Comar estão as base aéreas de São Paulo, Santos e Campo Grande.

O filho e neto de policiais militares fala até da infância no Rio. Uma das lembranças é a apresentação do avô, Aurélio Rodrigues dos Santos, que era oficial e músico da PM. “Eu me recordo de tê-lo assistido em um concerto na Quinta da Boa Vista em uma apresentação da Orquestra Sinfônica Brasileira com o maestro Isaac Karabtchevsky. Ele tinha uma um carinho muito grande por mim e pelo meu irmão”.

O comandante é pai de duas filhas, uma estudante de Medicina na Unicamp e outra que está na carreira diplomática; a mulher é pedagoga. Com as câmeras da reportagem desligadas, Macedo fica mais descontraído e revela preocupação com a temporada do Flamengo, que ainda não conseguiu títulos neste ano, apesar dos grandes investimentos. Na saída, faz questão de acompanhar a reportagem até a saída do prédio militar, na zona norte paulistana.

A discussão sobre cotas raciais nas Forças Armadas
A trajetória do brigadeiro Macedo reforça a discussão sobre pretos e pretas nas Forças Armadas. Para entrar na Aeronáutica, é preciso ser aprovado em um exame de admissão. Esse é um dos gargalos para os jovens negros.

Numa prova de atletismo, quando duas pessoas competem a partir de uma mesma linha de partida, o vencedor é aquele que cruza a linha de chegada em primeiro. Ele venceu porque mereceu. Em um exame de admissão nas Forças Armadas, nem sempre os candidatos partem do mesmo ponto. Muitos largam mais atrás porque tiveram maiores dificuldades na educação básica, como a falta de professores ou conteúdo insuficiente, por exemplo.

Em 2018, as Forças Armadas firmaram acordo com o Ministério Público Federal para garantir reserva de 20% das vagas para candidatos negros em cargos efetivos e também temporários. O pedido foi feito a partir de uma ação civil pública da ONG Educafro, focada na inclusão de pessoas negras e de baixa renda em universidades públicas e particulares, com a argumentação de que a Lei 12.990, de 2014, prevê a cota para negros e pardos em todas as instituições da administração pública federal.

Frei David, padre franciscano fundador e diretor-geral da Educafro, afirma que pretende solicitar uma audiência com o Ministério da Defesa para um balanço sobre a efetividade das ações afirmativas nas Forças Armadas.

“Nossa intenção é tornar as Forças Armadas mais diversificadas e mais equânimes do ponto de vista racial, representando de forma mais fidedigna a composição da população brasileira”, diz o líder.

Das 140 vagas para a Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR), em Barbacena (MG), onde o Comandante Macedo iniciou sua carreira, 28 vagas são destinadas a negros (pretos e pardos). Procurado pela reportagem para fazer um balanço sobre a adoção de ações afirmativas nas Forças Armadas, o Ministério da Defesa não respondeu.

* Este conteúdo foi produzido em parceria com a ONG Educafro, voltada à inclusão de pessoas negras e de baixa renda no ensino superior

ESTADÃO

3 respostas

  1. sempre vem aquela conversinha fiada de que os negros não tem as mesmas oportunidades que os brancos. por acaso existe alguma lei que dificulte a entrada de negros nas forças armadas, no ensino publico ou qualquer concurso público? é claro que não. então porque essa conversa mole de desigualdade de oportunidade. ora bolas, vão pentear macaco.

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