O coordenador de turma da Escola de Aperfeiçoamento de Sargentos das Armas (EASA): chefia e liderança

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O líder é, em princípio, uma pessoa que conhece bem a si mesmo antes de conhecer o mundo, a sua organização e as pessoas. (Motta, 2003, p.220)

ANDERSON ALEX CARACIOLI MACHADO*
Um líder possui muitas características que o identificam entre os demais, mas uma que merece destaque é a capacidade de motivar. Um profissional bem capacitado, com todos os recursos necessários, com um bom ambiente de trabalho, bons subordinados, não será vitorioso e não atingirá seus objetivos se não estiver motivado. Chiavenato (1994) revela que a motivação é o desejo de exercer níveis elevados de esforço em direção a determinados objetivos organizacionais, condicionados pela capacidade de satisfazer objetivos individuais.

Um militar preparado deve buscar liderar homens, não apenas pelo regulamento ou imposições administrativas, e sim pelo exemplo, conhecimento institucional, qualificação e entusiasmo profissional, levando o seu subordinado a se superar por meio da motivação na busca por objetivos.

No ano de 1994, o primeiro comandante da EASA, o então Tenente-Coronel Sérgio Westphalen Etchegoyen, tinha como diferencial, possuir um sargento que servia de ligação com o Corpo de Alunos que, na época, era comandado ainda por um oficial. No ano seguinte, ficou decidida a criação da função de Sargento Coordenador dos cursos, militar que era desvinculado das atividades de instruções e ensino, estrutura essa que durou até o final de 1996 e, logo após, ficou resolvido dar uma pausa nesse procedimento.

Tal experiência adotada pela EASA, de colocar à frente do Corpo de Alunos um graduado para comandar os sargentos-alunos, remonta ao ano de 1998, ano esse, em que foi concretizado o cargo, na época chamado de coordenador geral, pertencente ao Estado-Maior da Escola e diretamente subordinado ao Comandante da Escola.

Então, em 1998, foi concretizado um dos mais ousados e pioneiros passos na valorização das praças do Exército Brasileiro, a criação do cargo de coordenador geral do Corpo de Alunos e de Coordenadores de Turmas de Instrução, desmembrando de vez as atividades administrativas das atividades de ensino. O Sargento Anderson Scheidemandel, recém-chegado do curso de Sergeant Major, nos Estados Unidos da América, foi o primeiro a assumir a referida função. A estrutura dos cargos foi aprovada no Quadro de Cargos Previstos (QCP) somente no ano de 2005 e, em dezembro de 2013, por solicitação da EASA, o cargo recebeu a denominação de Comandante do Corpo de Alunos.

Hoje, o Corpo de Alunos da EASA é composto por um subtenente comandante, sete sargentos coordenadores de turma, um encarregado de material e um sargenteante, responsável por toda a documentação dos sargentos-alunos, entre alguns, cabos e soldados auxiliares. Discorrer sobre a configuração atual do Corpo de Alunos é falar sobre uma estrutura inovadora, porém sólida, que se consagrou ao passar dos anos, superando todas as expectativas e receios, plenamente superados através de muito trabalho, motivação, exemplo, liderança e dedicação.

O desafio de liderar pelo exemplo não é nada fácil, e essa tem sido a tarefa diária dos Coordenadores do Corpo de Alunos da Escola de Aperfeiçoamento de Sargentos das Armas, pois é ele quem compartilha do dia a dia do sargento-aluno do CAS (Curso de Aperfeiçoamento de Sargentos), recebendo suas demandas, seus anseios e suas angústias, sempre buscando o bem-estar comum.

Ao se apresentar para a fase presencial do Curso de Aperfeiçoamento de Sargentos das Armas, o sargento-aluno sofre o primeiro impacto ao perceber a estrutura em que será inserido, um Corpo de Alunos formado exclusivamente por praças, experiência nunca vivida por nenhum dos matriculados no CAS, mas que se torna positiva ao percebermos uma sensível mudança de postura e atitudes por parte dos sargentos-alunos, que automaticamente entendem a posição e a responsabilidade que recai sobre aquele profissional que está à frente de sua turma de instrução. Apesar de o Exército Brasileiro se sustentar em dois pilares muitos sólidos: a hierarquia e a disciplina, não é nada fácil comandar pares, pois todos são sargentos, o coordenador de turma não está comandando pessoas recém-incorporadas ao Exército Brasileiro, mas sim, militares experientes, já com mais de dez anos de efetivo serviço, muitos altamente especializados em suas áreas de atuação e devidamente experimentados em suas organizações militares.

O trabalho do coordenador começa antes mesmo da apresentação dos discentes, por meio do levantamento de dados, organização das salas de aula, material de apoio e, em seguida, tem a missão de bem recepcioná-los na guarnição de Cruz Alta-RS, acomodando-os nas instalações da EASA. Durante o período de onze semanas presenciais de instrução do Curso de Aperfeiçoamento de Sargentos, o coordenador acompanha sua turma em todas as atividades diárias, no controle de efetivo, controle disciplinar e comportamental, nas atividades administrativas, na aplicação de provas, viagens de instrução, exercícios no terreno, dentre outras; dessas, eu destaco uma em especial: “Ser o Instrutor das Disciplinas de Comando, Chefia e Liderança e de Treinamento Físico-Militar”.

Aponto ainda, algumas outras atribuições devidamente nominadas no Regulamento da EASA (Portaria – C Ex Nº 1.544 , de 29 de junho de 2021):

      • – Manter-se sempre a par das instruções e ordens do Comandante do Corpo de Alunos, a fim de assegurar a coordenação e a integração entre as atividades de ensino e administrativas;
      • – Comandar e instruir a turma de Sargentos Alunos que lhes for atribuída;
      • – Zelar pela correta apresentação individual dos Sargentos Alunos;
      • – Acompanhar, efetivamente, o rendimento escolar, visando à detecção de eventuais deficiências no processo educacional;
      • – Atuar no processo de ensino, a fim de intensificar a realização de valores morais, éticos e profissionais, com vistas ao aperfeiçoamento do sargento-aluno como militar; e
      • – Destacar-se pela ação de comando e pelo exemplo.
      • Torna-se evidente, que o coordenador de turma tem um papel importantíssimo nos processos e procedimentos da Escola de Aperfeiçoamento de Sargentos das Armas, proporcionando ferramentas para o bom cumprimento das missões, com a excelência esperada do Corpo de Alunos, sempre galgados pelo exemplo, motivação e entusiasmo de militares com alto conhecimento institucional, elevados níveis de liderança e experiências profissionais no Brasil e no Exterior, tudo para bem liderar os futuros sargentos aperfeiçoados do Exército Brasileiro.

    *S Ten Cav ANDERSON ALEX CARACIOLI MACHADO
    – Cursos Militares: Curso de Formação de Sargentos – Cavalaria – 2000 – ESA; Curso de Monitor de Educação Física – 2005 – EsEFEx; Curso de Aperfeiçoamento de Sargentos – 2010 – EASA; Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais – 2022 – EsIE.
    – Cursos em instituições civis: Tecnólogo em Segurança Pública – 2015 – Unisul.
    – Atual função: Comandante do Corpo de Alunos da Escola de Aperfeiçoamento de Sargentos das Armas (EASA).

    EBLOG

18 respostas

  1. Pois eu estava em 1994
    Westphalen Etchegoyen acabou com a carreira de um aluno a troco de nada.
    Um sgt me orientou a “louvar os oficiais, pois eles estudaram”, e se eu “louvasse quem estudou, poderia ter um bom lugar na mesa”.
    Ele saiu QAO.

    1. Etchegoyen Determinou Reunião De Oficiais E Sargentos.
      Oficial De Dia Adentrou No Auditorio E Recolheu O Aluno Ao Xadrez Da AD3 (Comando Da Artilharia Divisionária Da 3ª Divisão De Exército).
      Após Cumprir Punição Foi Sumariamente Desligado Do Curso.
      Impedido De Matricular-Se Novamente:
      – após 30 anos De Serviços, ingressou na Reserva como Segundo-Sargento.
      G. Dias, o General Do ex-Presidiário, diferentemente, saiu General.
      “Um Peso Duas Medidas”
      Tratar Uns Com Justiça E Outros Com Injustiça.
      Ter Condutas Diversas Diante De Situações Idênticas.
      Aplicar A Lei Ou A Regra Com Mais Ou Menos Rigor De Acordo Com A Conveniência.

  2. A estrutura dos cargos foi aprovada no Quadro de Cargos Previstos (QCP) somente no ano de 2005 e, em dezembro de 2013, por solicitação da EASA, o cargo recebeu a denominação de Comandante do Corpo de Alunos.

    Realizei o cAS em 2010 e já existia a função de Comandante do corpo de alunos, naquela época quem exercia essa funçãoera o 1° Sgt Machado, excelente militar, diga-se de passagem!

    Creio que essa essa data de 2013, que foi mencionada no texto como criação da função de comandante está equivocada!

  3. A motivação com apenas palavras bonitas e frases de efeito não existe. O que impera é o trabalho no dia dia. É não ser passado prara trás com promessas vazias após uma “reestruturação da careira” por exemplo. É não morrer à míngua. É prover meios de tratamento de saúde de um militar ou familiar seu. Sem humilha-lo. Sem a nítida intenção de acabar com vida dele, como se ele não fosse homem ou humano. É vc ser tratado com igualdade coo o oficial em uma junta médica. O resto? Tudo isso que foi dito na postagem. é perfumaria.

  4. Essa questão de líder que motiva seus liderados é muito bacana na teoria, isso em qualquer nível de cargo/Função ou instituição.

    O ser humano é motivado por recompensas, ninguém consegue liderar uma equipe sem meios, valorização da equipe ou estrutura boa pra isso.

    Vemos diariamente pessoas desqualificadas exercendo Função de comando/chefia somente pelo cargo e não pela capacidade de estar ali! Fato!

    1. Enquanto um tenente de npor com ensino medio e 19 anos for chefe de um sargento com mestrado

      Enquanto um veinho pttc que nao foi contratado nem pra entregador de pao na iniciativa privada for chefe de um capitao experiente

      Viveremos isso

      Pois no exercito, diferente de qualquer outra instituicao, ser mais antigo é ser chefe. Não é competencia, é ser mais antigo. E pra ser mais antigo é só esperar o tempo passar.

      Por isso nenhum processo anda:

    2. Aprendi muito na EASA. Sair daí super motivado, segui os conselhos dos meus Cmts Oficiais. O Acervo das palestras, o conhecimento dos nobres Oficiais e tudo que nos foi passado foi de grande valia para minha carreira. Ouvir em 1237 palestras a pergunta: Quem aqui é habilitado? E a afirmação: As missões no exterior começam agora ” cães adestrados ” kkkkkk. Pois bem, fiz o CAS em 2007, hj com meus 36 anos de serviço e habilitado em mais de 46 idiomas do nosso mundo e de mais dois planetas, Júpiter e plutão. Ainda aguardo minha 1° Missão no Exterior!kkkkk, mas continuo firme e forte, ontem o Cmt passou por mim e disse: gafanhoto, a sua hora vai chegar! Kkkkkkk

  5. Tanta teoria, mas na prática todos os praças são comandados por oficiais temporários, com estágio de 45 dias ou do CPOR/NPOR, com curso militar de meio-período, que nunca foram militares antes.

    Quanto tempo dura a Formação do Oficial da Reserva?

    O Curso de Formação de Oficial da Reserva dura aproximadamente 10 meses, sendo matriculado em fevereiro, e sendo declarado Aspirante na primeira semana de dezembro. Durante ao curso, o Aluno se especializa em alguma Arma (Infantaria, Cavalaria, Artilharia, Comunicações e Engenharia), Quadro Material Bélico ou Serviço Intendência. Ao final, é declarado Aspirante a Oficial, sendo considerado Praça Especial.

    Eu tenho que estar matriculado em uma Faculdade para fazer o CPOR/SP?
    Atualmente, não é necessário que o candidato a Aluno esteja matriculado em uma Faculdade.

  6. Chegará o dia em que haverá o cargo e respectiva função de Comandante de Corpo de Tropa exercido por um subtenente, ao qual caberão os encargos técnicos/administrativos da vida vegetativa da OM e, aos oficiais incidirá o encargo pelo emprego tático. Os tempos mudam, o exército evoluirá profissionalmente como evoluem os homens e mulheres que o compõem.

  7. Admiro a forma como as FFAA enaltacem a figura dos Sargentos. Na FFAA eles são verdadeiros lideres. Existe uma cadeia de comando onde ao Sargento é confiado funções de comando de grupos, de instruções e etc.

    não sou das FFAA. pertenço a policia MIlitar de Minas Gerais- PMMG.
    aqui, a figura do Sargento deixou de existir a partir do início dos anos 2000, quando a corporação passou a promover todo os praças pelo critério de tempo de serviço. Anos e anos foram passando desde então e os interstícios para as promoções a Cabo e Sargento foram diminuindo mais e mais.
    No atual cenário todos os militares oriundos do curso de formação de soldados – CFSD são promovidos a terceiro Sargento com 16 anos de serviço e todos irão para a reserva como Subtenentes.

    a Princípio consideramos esta politica de promoções como algo bastante significativo para a valorização da carreira dos Praças, contudo efeito colaterais surgiram.

    Na policia MIlitar de MInas, talvez de algumas outras, não existe diferença de círculo social entre Cb/Sd e Sten/Sgt, apenas no Rcont, na prática, no cotidiano operacional não existe. Isto contribui para a falta de deferência dos subordinados para com os graduados mais antigos. Com a garantia de que será certa a sua promoção a Sargento, cabos e soldados deixam cada vez mais de se imbuírem dos valores militares que honram e que os façam assumirem qualquer função que precise exercer o papel de fiscalizar e dar exemplo aos seus subordinados.

    Os Oficias, em proporção de efetivo na Instituição cada vez maiores passaram a exercer na prática a função que antes seria papel dos Sargentos cumprir. Oficiais subalternos viraram Sargentos e Sargentos viraram Soldados.

    Existe ainda uma anomalia na Instituição que trata-se de um concurso interno entre Cabos e Soldados para que estes possam se formarem Sargentos através de um Curso Superior Tecnológico. Neste Curso que é ministrado na Academia de Polícia Militar do Prado Mineiro em Belo Horizonte, os alunos do CFS são ensinados que ao se formarem assumirão funções de Comandos de grupos, de patrulhas, De operações, de fiscalização, ministrarão instruções, serão o braço direito dos oficiais, como dizem “o elo de ligação entre a tropa e o comando” e etc.

    Pouco disso é real. Ao se apresentarem nas variadas unidades do Estado eles descobrem que a sua formação não lhe legitimou para sequer comandar aqueles que não se esforçaram assim como eles. Militares que optaram por fazerem cursos civis e bicos ao invés de se especializarem dentro da corporação serão mais antigos do que eles. Todo aquele garbo e disciplina trazido com eles da APM se perdem em meio aos vícios e a “experiencia” dos Cabos velhos. Se por acaso este jovem Lobinho(como dizem aqui) quiser nadar contra a correnteza, ele será menosprezado pelos seus pares e subordinados e desautorizado, deslegitimado pelos Oficiais.
    No Batalhão onde eu sirvo existe apenas 1(UM) Sargento de verdade, não apenas de direito mas de fato! Infelizmente ele é odiado por todos.

    1. Muito impactante seu relato pois no E.B há uma tentativa velada de implementar esse cenário por intermédio da promoção de soldados à subtenentes, possibilidade defendida por um grupo de soldados sem concurso que conseguiram promoção por decreto até segundo-sargento. Percebe-se nesse grupo de militares exatamente essas características desleixadas e pouco profissionais que você descreveu, felizmente ainda não conseguiram avançar além disso.

  8. Em 1997 já estava o Sgt Voltani egresso do Curso de Sgt Major à frente do Corpo de Alunos, mas esta função é burocrática, assim como ade de comandante, tanto que estão previstas. Já para ser Líder não existe previsão de vagas e não está atrelado a qualquer posto, função ou graduação, mas ao grau de conhecimento e comprometimento com aquilo que executam.

  9. Texto bastante informativo. De fato, as trocas de experiências são bem válidas aqui neste canal. Infelizmente, meus pares (EB) E os demais das forças armadas, não todos, fazem guerrinha de fFAA e PM, e também ocorre o oposto. Mas todos nós estamos aqui juntos… no mesmo barco… no mesmo território…

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