Depoimento de general detalha tensão entre Lula e militares no 8 de janeiro

CONFRONTO - Dias, Dutra e Arruda: generais argumentaram que operação poderia resultar em “banho de sangue”, e ex-chefe do GSI (acima) pediu demissão após a divulgação de imagens (Fátima Meira/Futura Press; Alcir N. da Silva; Antônio Oliveira/Exército Brasileiro/.)

A demissão de Gonçalves Dias, ex-chefe do GSI, comprova que existem muitas perguntas sem resposta sobre este ataque à democracia

Marcela Mattos
Aquele 8 de janeiro ainda estava longe de terminar quando os manifestantes deixaram a Praça dos Três Poderes. O governo estava acuado, assustado e tinha uma certeza: a invasão e a depredação dos prédios eram apenas a primeira fase de um golpe que ainda estava em andamento para tirar Lula do poder. Havia também a convicção de que setores militares estavam diretamente envolvidos na trama. O “sumiço” da tropa do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) provava que havia uma conivência cúmplice com a turba de vândalos. Atônito, o presidente cobrava uma reação enérgica e imediata. Apoplético, conforme a definição de um de seus auxiliares, Lula ordenou que, ainda naquele dia, o acampamento erguido próximo do quartel-general do Exército fosse desmobilizado — e os envolvidos nos ataques, devidamente presos. “É para tirar e prender todo mundo”, determinou o presidente aos ministros da Defesa, José Múcio, e da Justiça, Flávio Dino. A ordem, como se sabe, não foi cumprida. Um dos motivos foi a resistência de generais a desmontar o acampamento, sob a alegação de que poderia haver um “banho de sangue” no local.

Essa versão, a mais recorrente até agora, também sugere que militares confrontaram e desafiaram a autoridade do presidente, que é o comandante em chefe das Forças Armadas. Ela, no entanto, é apenas uma parte do enredo. VEJA teve acesso a detalhes do depoimento prestado à Polícia Federal pelo general Gustavo Dutra, que chefiava o Comando Militar do Planalto, no inquérito sobre o levante golpista. Ele conta como no auge da tensão, quando o temor de um golpe acossava Lula, o presidente interveio e aceitou que a retirada do acampamento bolsonarista e a prisão da maior parte dos radicais ficassem para a manhã do dia 9, como de fato ocorreu. Foram horas de tensão. Os governistas exigiam o cumprimento das ordens de Lula ainda naquela noite e estavam com forças policiais de prontidão para fazer o serviço. O general Dutra, por sua vez, insistia que não se tratava de boa ideia e defendia o adiamento da operação para a manhã seguinte. Enquanto o impasse prevalecia, militares reforçaram a segurança nas imediações do quartel-general, com direito a tanques e blindados, no que foi interpretado como um ato de rebeldia.

Ao perceber que não conseguia dissuadir os subordinados do presidente, Dutra resolveu driblar a hierarquia e passar por cima do então comandante do Exército, general Júlio César de Arruda, e do ministro José Múcio. Ignorando a cadeia de comando, ele ligou para o então chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Gonçalves Dias, ressaltou os riscos da ação noturna e pediu que as suas considerações fossem encaminhadas a Lula. Não se passaram nem cinco minutos, e o chefe do GSI retornou a ligação. A resposta não era a esperada: o presidente mantinha a decisão de prender todo mundo naquele mesmo instante. “Vai dar m…! Explica isso para ele, general”, rebateu Dutra. Foi aí que o próprio Lula assumiu a ligação. Do outro lado da linha, o presidente repetia a mesma frase o tempo inteiro: “São criminosos, general! Tem que ser todo mundo preso”. Dutra tentava contra-argumentar, mas era a todo momento interrompido. “São criminosos! Prenda!”, dizia Lula.

Na terceira vez, o militar fez uma ponderação. “Presidente, estamos todos indignados, hoje é um dia triste para o Brasil. Mas, até o momento, nós só estamos lamentando danos ao patrimônio. Se nós entrarmos agora, sem coordenação, vai morrer gente. O senhor quer isso?”. Lula, então, mudou o tom. “Seria uma tragédia”, ele disse. “É isso que eu estou falando para o senhor”. Lula respirou fundo e falou: “General, cerca todo mundo, não deixa ninguém sair da praça e prende todo mundo amanhã”. O general agradeceu a compreensão e desejou boa-noite ao presidente da República. Antes de desligar o telefone, Lula fez uma última pergunta: “O ministro Múcio está aí?”. O chefe da Defesa não estava. “Deveria estar”, disse Lula. Horas antes, o presidente e Múcio haviam se encontrado, e Lula não escondia a indignação com a manutenção do acampamento golpista. O ministro já estava sob fogo cruzado, porque antes mesmo do assalto golpista resistia a desmobilizar o acampamento, chegando a classificá-lo publicamente como uma “manifestação democrática”. Desde que assumiu o cargo, Múcio tenta se equilibrar entre os petistas e os militares. Ciente dos humores do chefe, o ministro até tratou, antes do fatídico dia 8, da remoção do acampamento com o então comandante do Exército, Júlio César de Arruda, que rechaçou a iniciativa. “Aqui ninguém mexe”, dizia o general.

Arruda manteve a posição mesmo após a invasão e a depredação das sedes dos Três Poderes. Segundo auxiliares de Lula, o general agiu assim para impedir que parentes de militares que estavam no local fossem presos. “Eles foram retirados de lá durante a noite. Só ficaram e foram presos os inocentes úteis”, diz um ministro. Demitido por Lula duas semanas depois dos incidentes em Brasília, Arruda caiu por quebra de confiança na relação com o presidente. No dia da confusão, em meio ao impasse sobre a desmobilização e a prisão dos radicais, o general chamou o então interventor Ricardo Cappelli para uma conversa, da qual também participou Fábio Augusto Vieira, então comandante da Polícia Militar do Distrito Federal, corporação encarregada de executar as ordens de Lula. Os relatos sobre o encontro são contraditórios. De um lado, militares negam que o general Arruda tenha se recusado a cumprir a determinação do presidente. Ele teria apenas defendido a realização de uma operação organizada, à luz do dia, a fim de evitar mais desastres. Já os governistas acusam o general de quebra de hierarquia e até de ameaça.

Conforme o relato de uma testemunha da conversa, o então comandante do Exército perguntou a Cap­pel­li: “O senhor ia entrar com as tropas sem a minha autorização?”. O interventor negou e disse que iria consultá-lo. Arruda, então, virou para o chefe da PM: “Acho que eu tenho um pouco mais de tropas que o senhor, não é, coronel?”. Arruda ainda teria feito uma observação de cunho político para sustentar a posição dele. “Vocês têm que entender que o país está dividido.” O ministro Flávio Dino relatou a integrantes do Supremo Tribunal Federal que Arruda, “completamente alterado”, chegou a erguer o dedo em riste próximo a seu rosto diante da ofensiva governista contra o acampamento. Cem dias após o 8 de janeiro, ainda há muitas dúvidas sobre o que realmente ocorreu. O governo, que ganhou politicamente com o episódio num primeiro momento, ao unir o país em defesa da democracia, agora coleciona contratempos. Na quarta-feira 19, o general Gonçalves Dias pediu demissão depois de a CNN Brasil divulgar um vídeo com imagens da atuação de militares do GSI quando os radicais depredavam o Planalto.

Numa parte das imagens, um capitão distribui água aos invasores, como se estes não estivessem numa ação criminosa. Em outras imagens, o próprio Gonçalves Dias aparece caminhando no 3º andar do palácio, onde fica o gabinete presidencial, enquanto nos andares inferiores os radicais agiam livremente. As imagens tornaram a permanência do general à frente do GSI insustentável e ainda deram fôlego à ofensiva para forçar o presidente do Congresso, senador Rodrigo Pacheco, a ler o requerimento de criação da CPI do 8 de Janeiro, com a qual os oposicionistas querem vender a tese de que Lula e o PT se omitiram diante dos radicais a fim de desgastar a imagem de Jair Bolsonaro e lucrar politicamente. Senadores dizem ter em mãos um relatório elaborado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), órgão vinculado ao GSI, que apontou para o risco de invasão dos prédios públicos, inclusive com o uso de armas. O governo, intencionalmente, conforme a narrativa dos oposicionistas, nada teria feito em relação a isso. O fatídico 8 de janeiro ainda está longe de acabar.
veja/montedo.com

26 respostas

    1. Nunca se sabe amigo…

      O General Nas imagens não tem como negar, mas o papel aceita tudo. Ele já estava com uma equipe trabalhando, se preparando para assumir meses antes, o que pode lhe tornar vítima ou, incompetente.

      A novíssima técnica do capitão de obter alguma vantagem dos invasores distribuindo água seria risível se não fosse trágica. Esse fato vai ser estudado no curso de inteligência do Exército exaustivamente, mas não será Entendida por ninguém, pelo menos nesse século, não existe ainda inteligência humana capaz de entendê-la.

      Como alguém em quatro anos causa tanto dano a imagem das FFAA? Parece o Rei Midas as avessas ( em tudo que ele toca vira merd@).

      Pobre Brasil a mercê de micheques e esbanjas.

  1. Eu vou fazer uma pergunta aqui? Independente de que lado a pessoa está. Mesmo que as portas dos poderes tivessem abertos em Brasília,quem lhe tá o direito de invadir e quebrar o patrimônio público????? Se ninguém financiasse as campanhas de protesto esse pessoal todo estaria em Brasília? Foi gente chamado a depor em Brasília e acompanhei alguns casos. Vou relatar um a Polícia a Abin tinha gente infiltrada lá dentro e uma delegada amiga do Anderson Torres e já tinha trabalhado juntos e agora esses também não sabia que o pessoal iam invadir o congresso nacional no domingo dia 8 de janeiro? Olha se fosse outro lado iam dizer a mesma coisa,na democracia a maioria escolheu Luís Inácio lula da Silva e não a Minoria. o protesto é livre desde que seja democrático e não do jeito que foi. Outra o que diz o estatuto militar e a constituição federal sobre as pessoas ficaram acampados na frente dos quartéis? Tem gente que não quer aceitar a derrota e quer um país mergulhado nos caos e tem somente uma pessoa responsável por isso que falava em democracia em jogar nas 4 linhas e respeitar a constituição federal, Deus,Amor, pátria, família. Mas não respeitou nenhum desses que ele mesmo pregava. Alguns exemplos:. Queria desmoralizar a justiça eleitoral, STF, chamar os embaixadores fazendo o Brasil passar vergonha mundial, menor Venezuelana, não reconhecer a vitória de lula e subestimar a maioria que assim o Elegeu Fakes atrás de fakes e não eu que estou falando isso, precisa não ser inteligente para ver tudo. Esse é Alguns dados que existem centenas ainda que podia cita do ex presidente Jair Messias Bolsonaro o falso Messias o espalhador de fakes e ainda pior usa Deus em vão. O pior cego não é que não enxerga e sim que está com os olhos abertos e tudo acontecendo na frente do seu nariz e se recusa a enxergar a verdade. O tempo é o senhor absoluto da razão.

      1. E os outros voltaram por acaso? Foi a maioria que foi votar e outra e as obstruções na região nordeste que foi arquitetado por Quem? Quem desobedeceu o STF no dia da eleições? A andorinha ou o Anderson Torres e mais alguém que ele se encontrou um dia antes ? Não tente passar o pano e achar que não foi a maioria e se não foi porque não consegue provar?. Chega ser ridículo essa gente não saber perder na vida. A vida é feita de derrota e vitórias e quem não consegue aceitar a derrota devia se mudar de país . Pois do que eu saiba estamos no país democrático e não nos caos que o ex presidente Jair Messias Bolsonaro o falso Messias o espalhador de fakes e ainda pior usa Deus em vão. Aceita a derrota que ela dói menos. Nada melhor que um dia após o outro. O tempo é o senhor absoluto da razão.

        1. kkkkk….”obstrução da região Nordeste” boa piada!! Vc acha que mesmo se alguem tivesse a insanidade de, através de blitz de transito, achar que iria fazer frente a falcatruagem das milhares de urnas programadas e mesarios treinados para digitar voto pro Luladrão, iria mudar o resultado das eleições para que Bolsonaro fosse reeleito? Mas é um Cabeça fraca mesmo com as narrativas ditadas pelos manuais para esquerdopatas de plantão, acreditando no que essa corja colocou na sua mente lavada. Por isso que vc está tendo os mafiosos no poder de novo que merece, pois Luladrão teve os votos da minoria sim que foram os mesmos que votaram em Hadad 2018 e foi um fiasco, o demais foram os eleitores chamados de “LOG de URNA” que colocaram esse marginal no poder novamente!! kkkkk…..Segue ai firme que tua gasolina tá mais barata e tua picanha está a preço de banana.

    1. Vc deve ter sido aprendiz de corneteiro, repete todo dia a mentira para que ela seja aceita como verdade. Toda transgressão de Bolsonaro foram mentiras e narrativas criadas pela grande mídia. Hoje, o ladrão, fala um monte de abobrinhas no lugar das picanhas e os canalhas nem abrem o bico para exigir a “liturgia do cargo”. Vá ao site da ANVISA, por exemplo, e veja as vacinas proibidas, a calamidade que foi injetada na população que quis se vacinar.

        1. Isso! As vacinas deveriam ser proibidas! Onde já se viu tomara vacina contra a gripe? E sarampo, poliomielite e outras doenças inventadas! Maldita indústria farmacêutica comunista!

          1. As vacinas para humanos sempre foram amplamente testadas antes de serem aplicadas em humanos. Já vc pode tomar a vacina que quiser.

    2. Li até metade….a mesma ladainha de esquerdistas. Agora “eleição não se ganha, se toma” e “missão dada é missão cumprida” vc não fala nada né??? Aff.

  2. fALA serio meu amigo. Esta tudo errado desde eleições sem código fonte e a Descondenação de um candidato, com o simples intuito de concorrer e ganhar uma eleição.

    1. O código fonte foi liberado em outubro de 2021, um ano antes e o Ministério da Defesa pediu o acesso somente em agosto de 2022. Em todas as eleições o código fonte tem o acesso liberado seis meses antes e o Congresso, PF, MP, universidades, partidos políticos e outras instituições tem acesso.

  3. Vejam só a ficção: “Havia também a convicção de que setores militares estavam diretamente envolvidos na trama.”

    Nos ataques à PF, quando prenderam o cacique Tserere, só havia PF e PMs. Será que estavam também envolvidos em uma conspiração?

  4. É muita conversa da VEJA e da repórter Marcela Mattos para justificar a condenação e desmoralização dos militares. Durante 4 anos Bolsonaro reuniu dezenas de milhares de apoiadores e nenhum evento de quebradeira foi calcificado. Durante 70 dias milhares se reuniram às portas dos quartéis pedindo a lisura das eleições e nenhum evento violento foi notificado. Entra um novo governo e, em transição, ocorre tentativa de invasão da PF, invasões de terras, e a quebradeira de 8 de janeiro. É ou não é para desconfiar de tramóia?

  5. O alto Escalão das Forças Armadas nas páginas dos jornais.
    Denegrindo as 3 forças kkkkkj.
    E o salario dos praças ó, aumento só de interstícios e tempo de serviço.
    Bolsonaro ferrou com os praças.

  6. “VEJA teve acesso a detalhes do depoimento prestado à Polícia Federal pelo general Gustavo Dutra, que chefiava o Comando Militar do Planalto, no inquérito sobre o levante golpista.”

    Ou seja, em depoimentos sob sigilo de justiça, os mídias têm acesso irrestrito e vêm falar em golpismo e ataque à democracia? Caracas… que justiça é essa? Que tipo de gente servidor publico transgride a Lei impunemente sob o silencio condescendente dos tribunais?

  7. Só não entendo porque o general disse que ia “morrer gente”. Ele tinha informações de acampados armados? Ele sabia que tinha pessoas nos acampamentos portando armas? Se sim, por que não os prendeu? Se não, por que achou que ia morrer gente?

    No mínimo, Curioso.

  8. Passam quarenta ou mais anos na profissão, exercem cargos e mais cargos, na hora em que tem que mostrar para que vieram se reúnem e, na melhor das hipóteses, não sabem o que fazer e na pior sabem o que fazer, mas o que querem fazer é errado, imoral ou ilegal.

  9. O que mais me estarrece é ver as briosas Forças Armadas, depois de se prepararem tanto, ao longo dos anos em tempo de paz, para enfrentar as “Forças Adversas que, um dia, viessem a ameaçar a soberania do nosso Brasil, ficarem inertes vendo essa corja de bandidos tomarem o poder por golpe grave com apoio do sistema eleitoral e Judicial. Cansei de ver General 4 estrelas se estressando porque o Soldado da guarda que o recebe pela manhã para as suas honras matinais, estava com a bota sem brilho mandando puni-lo e hoje vemos Generais de joelhos, sendo vilipendiados todos os dias por essa gente suja da esquerda brasileira, mafiosos travestidos de politicos que nos assaltaram a pouco tempo atras, Generais estes que não tiveram a ombridade de fazer pressão no processo eleitoral fraudulento e desigual que essa máfia preparou para colocar Luladrão no poder. E agora é tarde…covardes cheios de estrelas nos ombros, bebedores de wiskey, fumadores de charuto em suas pomposas festas e cerimoniais, com suas poses altaneiras e cheias de pose diante da tropa nas formaturas por este Brasil afora e agora coloquem seus rabinhos entre as pernas e continuem a se humilharem a acatarem ordens dessa gente sem compromisso nenhum com a Bela História das Nossas Forças Armadas. Vergonha de ter sido Comandado por Homens covardes que os Ossos do Marechal Osório deve estarem se contorcendo no seu Mausoléu lá no Parque Osório.

  10. O brasil É uma zona, as forças armadas uma piada cheia de pelegos carreiristas… a decisão de sair dessas duas merdas foi meu maior acerto, hoje vivo na america sem saudades dessa republiqueta.

    1. Mas com saudades de acessar este blog que publica apenas notícias sobre essas “duas merdas” a que se refere.

      No Mínimo, curioso…

  11. por vc estar na Américaa, seu Português é muito ruim. o nosso Brasil e o Exército, não são uma merda, como disse. ser Militar foi uma opção sua, assim como a minha por 30 anos, na qual tenho orgulho de ser Militar, Reformado, Na vida, devemos fazer ok gostamos, independente de ser ruim ou bom. o importante é estarmos Felizes,na profissão, que escolhemos.Sgt QE Gomes Reformado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pular para o conteúdo