“Foco é proteger civis”, diz general brasileiro que chefiará missão no Congo

General Miranda Filho vai chefiar missão no Congo

Felipe Resk
São Paulo – O general brasileiro Otávio Rodrigues de Miranda Filho, de 58 anos, foi nomeado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para comandar a Missão de Paz na República Democrática do Congo, a Monusco, a partir de março.
Pelos próximos dois anos, o general do Exército Brasileiro estará à frente de 16 mil homens e mulheres na Monusco, aquartelado em Goma, a cidade base da missão da ONU, no meio de um maciço vulcânico.
“O foco principal é a proteção de civis”, afirma Miranda Filho, em depoimento exclusivo ao Metrópoles, concedido na manhã do último domingo (8/1).
Entre os principais desafios da missão está garantir a tranquilidade na eleição presidencial no Congo, prevista para ocorrer em dezembro, e também combater o grupo rebelde Movimento 23 de Março, o M-23.
Nascido no Piauí, Miranda Filho iniciou a vida militar aos 17 anos, na Escola Preparatória de Cadetes do Exército em Campinas, no interior de São Paulo. Durante a carreira, fez diversos cursos – paraquedista, operações aeromóveis, operações na selva – e serviu em seis dos oito Comandos Militares de Área, com cinco anos só na Amazônia.
O general também foi ajudante de ordens do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de 2007 a 2010, e comandou brigada na Intervenção Federal no Rio de Janeiro em 2018. O currículo é extenso. No exterior, já participou de missão da ONU no Sudão e foi adido junto à Embaixada do Brasil na China. “Graças ao Exército, hoje conheço mais de 50 países, nos cinco continentes”, diz.
Miranda Filho substitui o general Marcos de Sá Affonso da Costa no comando militar da Monusco. Esta é a quinta vez consecutiva que um brasileiro é selecionado para chefiar a missão, iniciada no fim da década de 1990.
“É muito significativo. Ratifica, a nível internacional, o alto conceito de que gozam os militares do Exército Brasileiro”.

Confira o depoimento abaixo:
Desafios no Congo
“A Monusco é a maior Missão de Paz da ONU e a única sob o capítulo 7 (imposição da paz). Após mais de 20 anos, ela se prepara para encerrar sua participação. Com um período tão longo, naturalmente a missão já enfrenta algum desgaste. Resgatar e manter a confiança da população, para continuar implementando o mandato, vai ser o primeiro desafio.

O segundo desafio será dar continuidade ao processo de desarmamento e desmobilização dos principais movimentos rebeldes. O objetivo prioritário é o M-23, que parece estar mais uma vez se fortalecendo após um largo período de baixa atividade.

O terceiro é gerar as melhores condições de segurança e dar todo o suporte necessário, de acordo com as diretrizes da ONU, para que as eleições previstas para dezembro de 2023 ocorram dentro de um clima de normalidade. Também é importante continuar melhorando as condições de segurança dos integrantes da própria missão.”

Escolha para missão
“Ser selecionado para uma missão tão complexa, que exige conhecimento político, diplomático, operacional, logístico, de inteligência e administrativo, significa uma enorme responsabilidade, mas também razão de grande satisfação profissional. Meu maior objetivo é ser capaz de contribuir significativamente para levar paz e mais segurança para a população daquele país irmão.

Terei sob meu comando seis oficiais generais estrangeiros, o que demonstra a importância e o tamanho do desafio. É razão de justificado orgulho para o nosso país ter, pela quinta vez, um oficial general brasileiro à frente de todo o segmento militar da Monusco.”

Processo de seleção da ONU
“A seleção para o cargo de Force Commander é feita com muito cuidado e durou mais de seis meses. Começa com o convite formal da ONU para que os países por ela selecionados indiquem seus candidatos.

Fui comunicado no dia 30 de maio de 20222, pelo então comandante do Exército, o general Freire Gomes, de que representaria o Exército na disputa. A Marinha do Brasil também indicou um Vice-almirante fuzileiro naval. Após análise dos currículos, foram escolhidos os dois oficiais brasileiros e dois de Bangladesh, que atualmente é o maior contribuinte de tropas para a ONU, para entrevista.

O painel foi conduzido pelo Subsecretário para Missões de Paz, Sr. (Jean-Pierre) Lacroix, o Conselheiro Militar, general (Birame) Diop e a Representante-especial da Monusco, senhora (Bintou) Keita. A banca indica ao Secretário-geral o candidato por eles considerado mais qualificado.”

Transição de comando
“O general Affonso da Costa (atual comandante da Monusco) e eu somos grandes amigos. Desde a minha indicação pelo comandante do Exército estivemos em contato, por telefone e videoconferência. O general me atualizou detalhadamente sobre a atual conjuntura da República Democrática do Congo, com foco nas questões militares. Há possibilidade de eu ir a Goma, antes de assumir oficialmente, para aproveitar a presença e a experiência do comandante que encerra o seu período.”

Carreira Militar
“O Exército Brasileiro é a instituição mais democrática que eu conheço. Ela não considera a cor da sua pele, condição social ou religião. Ela considera o seu desempenho e o seu comprometimento. Nela, a ascensão hierárquica se dá exclusivamente pelo mérito. Quando olho para trás e vejo todas as oportunidades que o meu Exército e o meu país proporcionaram a mim e à minha família, o sentimento que me toma é o de gratidão. Espero estar, como meus antecessores, à altura deste empolgante desafio.”
METRÓPOLES/montedo.com

Respostas de 2

  1. a República Democrática do Congo, de clima tipicamente equatorial e tropical, é considerado um dos países mais ricos do mundo em recursos naturais, sendo por vezes apontado como o segundo mais biodiversificado do mundo, atrás apenas do Brasil.

    Tornou-se independente da Bélgica em 30 de junho de 1960, e é, desde então, considerado um dos mais pobres países do mundo, tendo um dos menores valores de PIB nominal per capita, em 2013 em penúltimo lugar, à frente apenas do Burundi.

    A região quinxassa-congolesa de Catanga possui alguns dos melhores depósitos mundiais de cobre e cobalto. Outras áreas do país possuem fontes ricas de minerais diversos, incluindo diamante, ouro, ferro e urânio. Em 2019, o país era o maior produtor mundial de cobalto e tântalo, o 4º maior produtor mundial de cobre e o 7º maior produtor mundial de estanho, além de ter uma produção considerável de ouro. Em 2016 era o 4º maior produtor mundial de diamante. Na agricultura, o país tem exportações pequenas; entre as de maior valor, estão o cacau, o café e o farelo de trigo. O país é o maior produtor do mundo de banana-da-terra e o 3º maior de mandioca.

    Após anos de guerras, ditaduras e tumultos, porém, a infraestrutura do país ou está em ruínas ou é inexistente, e as operações de extração estão produzindo apenas uma fração de seu potencial. Se considerarmos o valor de seus recursos naturais, serão de 24 trilhões de dólares.

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