Militares querem manter pressão sobre governo Lula, diz antropólogo

No curto prazo, ter as benesses de um governo Bolsonaro é bom, mas no longo prazo o importante para as FFAA é voltar a ter um papel na política // Orlando Brito/. 

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Chico Alves
Colunista do UOL

Os grupos de bolsonaristas em camisas da seleção brasileira acampados à beira de quartéis não levarão as Forças Armadas a dar um golpe no governo eleito, como os manifestantes desejam, mas servem para manter os militares com cacife para pressionar o governo de Luiz Inácio da Silva. São como um espantalho, diz Piero Leirner, professor de Antropologia da Universidade Federal de São Carlos e pesquisador das Forças Armadas e da guerra.
É nesse contexto, acredita Leirner, que deve ser analisada a nota oficial divulgada na sexta-feira (11), com a assinatura dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.
“Os comandantes militares poderão ter todo o interesse em manter um espantalho durante quatro anos do governo do Lula”, analisa o antropólogo, em entrevista à coluna. “Eles não vão querer sepultar isso que virou uma espécie de capital político grande que os militares têm. Então, a nota alimenta essas expectativas”.
Leirner desmente a crença geral de que os militares abertamente bolsonaristas do governo são uma minoria descolada do pessoal da ativa. Para ele, a ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência é resultado de uma estratégia das Forças Armadas, como bloco.
O objetivo dos fardados agora é manter o controle da situação sem que precisem recorrer a uma quartelada.
Nessa conjuntura complexa, o antropólogo cita procedimentos que podem ajudar a esfriar a relação de Lula com as Forças Armadas, a começar por deixar de lado a ideia de mexer nos currículos das escolas militares e não interferir na dinâmica de promoção dos oficiais generais.

UOL – O que achou da nota assinada pelos comandantes das três forças?
Piero Leirner – Eu não lembro de ter visto nada parecido. Já no primeiro parágrafo vem com essa história de poder moderador. É uma palavra muito capciosa, tudo evidentemente pensado de acordo com a ideia que já está sendo construída por eles há muito tempo, da qual acho que eles não vão abrir mão, de que eles são fiéis da balança dessa eleição.
Então, eu acho que tem ali uma espécie de pegadinha narrativa para reforçar a percepção de que no fundo todo o processo depende deles. Para o lado que for, de Lula ou de Bolsonaro. Isso não é de agora.

Acredita que a nota foi feita por pressão de Bolsonaro?
Acho que não tem nada a ver. O Bolsonaro só é acionado em função do ponto que o topo hierárquico das Forças Armadas estão querendo provocar ou não, e isso acaba arrastando todo o resto. Ele é acessório, não é o iniciador do dispositivo do circuito, vamos dizer assim. Ele é o intermediário de uma vontade que colocam através dele. Sempre foi isso, com as eleições não ia ser diferente.
O que que eles estão querendo? É a grande pergunta. Do meu ponto de vista, o relatório da Defesa (sobre as urnas eletrônicas) e as notas do ministro da Defesa e dos comandantes fazem parte de um jogo em que eles alimentam expectativas de um campo de um lado e de forma mais ou menos combinada também alimentam a expectativa do outro lado. Para mim, tudo soa mais ou menos como uma espécie de movimento tático, de uma guerra mais ou menos teatral.
Eu tenho a impressão que já há algum tempo eles (os comandantes militares) estavam desejando que quem ganhasse essa eleição não podia levar por uma ampla margem de votos. Isso para mim era o principal problema que eles tentariam evitar E eu acho que esse resultado ocorreu dentro das expectativas, num certo sentido, 51% a 49%. Talvez esperassem esse resultado a favor do lado contrário, isso eu acho que frustrou um pouco.
A nota vai ser lida, como todos os outros documentos, de forma ambígua. Quem quiser, vai ler que é uma nota que põe um ponto final na história. Mas quem quiser também pode interpretar que eles deixam uma espécie de chama acesa dentro do bolsonarismo.

Qual o objetivo dessa estratégia?
Os comandantes militares poderão ter todo o interesse em manter um espantalho durante quatro anos do governo do Lula. Isso vai botar uma rédea no próximo governo, vai ser um ponto de pressão em cima do governo. Eles não vão querer sepultar isso que virou uma espécie de capital político grande que os militares têm. Então, a nota alimenta essas expectativas.
Por outro lado, com certeza vai haver uma reação dissimulada sobre essa nota, de agradecimento por reconhecer que o processo é lícito, que confiam nas instituições. Quem quiser vai ler que as Forças Armadas estão falando que estão dentro das quatro linhas da Constituição. E simplesmente vão passar uma borracha na citação ao poder moderador.

Além disso, a nota trata como legítimo movimentos golpistas que são proibidos por lei.
É claro, é evidente isso. Estão fazendo justamente com esse objetivo: “Vamos manter aí esse pessoal rezando pra muro de quartel”. Mas você também não tem como dizer que a nota é um encorajamento direto a esse movimento. Porque isso equivaleria a eles dizerem: “Isso foi uma fraude e não aceitamos o resultado”. Isso seria a senha. Uma outra senha seria o Bolsonaro fazer uma live falando isso. Não houve essa live.
A gente precisa pensar também no tipo de compromisso que as Forças Armadas têm. Por exemplo, como é que ficaria a situação das Forças Armadas brasileiras lá no US South Com (Comando Sul das Forças Armadas dos Estados Unidos, elo com a América Central e América do Sul)? Ou como ficaria a situação deles lá no escritório de compras de Washington?
Ou seja: não creio que (os militares) vão virar a mesa. Me parece completamente inverossímil a possibilidade de eles fazerem uma quartelada ao modo clássico, mas sim agirem sempre nesse plano subliminar, fazendo pressão política, utilizando o que a gente pode chamar “procuradores” para fazer isso. Como esses manifestantes, por exemplo.

A ideia é que as Forças Armadas mantenham o controle, mas sem se expor?
Sim. O governo Bolsonaro foi a primeira tentativa disso. Quantas vezes não vimos vez ou outra alguma super-operação de mídia para passar a ideia de que governo é uma coisa e a instituição das Forças Armadas é outra? Ou a própria ideia de que existem generais bolsonaristas e também generais não-bolsonaristas. Como se não fossem um bloco, como se não tivesse de fato uma ação militar por trás desse negócio e fosse uma questão de adesão pessoal, por magnetismo, em relação a Bolsonaro. Isso sempre foi uma característica e não vão se desfazer disso.
Um outro ponto importante para eles estarem alimentando essa pressão é a expectativa de como vai ser a condução do governo Lula em relação à nomeação dos próximos comandantes.

O que esperar da relação das Forças Armadas com o governo eleito?
Não sei, porque não está claro ainda o tipo de relação que o próximo governo vai propor às Forças Armadas. Eles não deram ainda sinal de qual vai ser o script. Saiu transição pra quase todas as áreas, mas pra essa ainda é uma incógnita.
Os militares devem estar esperando para ver quem vai ser o ministro, quem vão ser os comandantes, e talvez a tal nota tenha a ver com isso também.

Parece que Bolsonaro esperava das Forças Armadas algum gesto mais forte do que uma nota.
Eu não acho que o Bolsonaro esperava mais, não. Não acho que ele se vê enquanto um agente com plena liberdade de ficar esperando coisas, chantageando e tal. Acho que ele age de forma a parecer um errático, desvairado, de forma pensada. Mas em relação às Forças Armadas ele sabe muito bem quais são os limites dele.
Bolsonaro não faz nada ali que não esteja de certa forma ou endossado ou mesmo ordenado ou sugerido a partir daquele cluster militar que o engloba. Não acho que esse núcleo trabalhe em dissonância em relação à ativa, embora eles tentem mostrar isso o tempo inteiro. Pelo contrário, eu acho que é uma linha muito bem construída.
Para os militares do governo foi muito confortável ter Olavo de Carvalho e aquele bando de radicais como Ernesto Araújo, etcetera e tal? Porque isso blindava a real posição deles ali. Em relação a esses, os militares apareciam como moderados, como os racionais. Isso nunca foi assim.

Qual o melhor caminho para fazer os militares voltarem aos quartéis e que se mantenham nos limites de sua missão constitucional?
Acho que tem dois pontos. Primeiro: não se pode chegar com o pé na porta. Não tem jeito, se voltar a essa conversa de mudança de currículo e de mexer nas promoções é a senha para tudo dar errado. Principalmente porque eles ainda estão com muita força e muito mais força que o PT, que está entrando em uma posição fragilizada. Mais uma vez ressalte-se o interesse dos comandantes das Forças Armadas em manter um espantalho durante o governo inteiro, porque assim eles se tornam imexíveis.
De outro lado, acho que tem que ser uma conversa a conta-gotas. Tem que fazer aquilo que o Lula sempre soube fazer, diga-se de passagem, de chamar para a mesa e começar a acertar uma negociação. Mas para isso é preciso ter algum cacife na mão, para negociar. Que cacife ele vai ter, eu não sei.
Por enquanto há uma boa vontade da imprensa com o novo governo, mas você vê que os militares estão mais ou menos se lixando para o que a imprensa está falando ultimamente. Descobriram que podem mobilizar uma base alternativa e que podem dar um “by pass” na opinião da imprensa, da ciência, de tudo mais.
Ou vamos fazer uma solução à brasileira e passar uma borracha em absolutamente tudo. “Vamos deixar esse negócio aí?”, “vamos esquecer?”, etcetera e tal. Eles têm a preocupação de passar a borracha em muita coisa e eles podem querer isso. O negócio do Pazuello pode ser um calo.

E essa ideia de que a chegada de generais de uma nova geração pode atualizar o perfil do Alto Comando? Faz sentido?
Isso faz alguma diferença. Não porque eles pensem tão diferente, mas porque eles podem mobilizar a ideia de que são uma nova geração e que, portanto, são diferentes. Isso pode ser uma carta na manga e provavelmente é algo que deve estar sendo falado para o governo de transição. Algo como; “Pensa bem em quem você vai por como comandante”. Porque o xadrez é o seguinte: dependendo de quem for, é possível mover todo o xadrez dentro do generalato.

´Mas tirar os mais antigos na fila de possíveis comandantes não causaria descontentamento?
Essa é uma iniciativa que talvez parta dos próprios militares. Seria um jeito de eles equacionarem. Jogam essa proposta no colo do Lula, para parecer que é movimento do presidente. Assim eles poderiam dizer: há uma nova geração aqui, vamos passar uma borracha no episódio Bolsonaro.
Enquanto isso, continuam com o Bolsonaro ativo, quase como se fosse um algoritmo, um pernilongo, que fica zumbindo a noite inteira.
UOL/montedo.com

Respostas de 26

  1. Falar em militares bolsonaristas subentende-se que há militares lulistas. Dividir para governar, rotular para degenerar, jogar na lama as reputações, trabalho de antropólogo estudioso.

    1. Que militares o quê!!! É o povo brasileiro que viveu os horrores da gestão corrupta petista ( fato recente,diga-se de passagem) e não aceita esta quadrilha de volta ao poder!

  2. Deveria acabar com esta pouca vergonha que foi a lei 13954, que só prejudicou os graduados e pensionista, esta foi a maior traição que a tropa sofreu, só pensaram no seus próprio bolso, mudar e preciso acorda Brasil

    1. Quem tem rabo preso tem medo. Ou seriam os altos coturnos? Sabem que pode vir logo ali e não é nem revanchismo e sim moralidade, ética, visto que não tinham com a lei , 13:954. Quem tem C…tem medo

  3. Com certeza o Lula tratará a reserva pensionistas e QEs com mais respeito que o Minto!!!O Minto é uma fraude!!Judas dos pracas!!! Traiu a base e rodou Bonito !!!

  4. Estratégias de guerra da alta administração commprofundos conhecimentos em geopolítica, planejamento estratégico, análise e melhoria de processos; assessorados pelas principais agências internacionais para garantir a manutenção do poder, dos imóveis para suas famílias, dos altos salários na aposentadoria, das mordomias sem fim e sem moral Ainda que isso custe a fome e a miséria dos milhões de rincões favelados desse imenso deserto moral que se tornou o brazil…

    1. Das riquezas bilionárias dos narcotraficantes, muito além da conta dos militares, vc não diz nada? Sabe quantos U$D trilhões o narcotráfico movimenta por ano? Sabe de quanto foi a aposentadora de Fidel Castro?

  5. Grande estudioso, chegou a brilhante conclusão. “Militares querem manter pressão sobre governo Lula, diz antropólogo”.
    Se houvesse um pouquinho só de analogia, daria nisso “quando se coloca muitos gatos num mesmo saco, acabam se arranhando e brigando entre si”. Isso sim é manter a pressão não só entre eles próprio, mas principalmente sobre as figuras decorativas que esbraveja e saltitam.

    1. Anônimo mamadus a partir do 12:14
      Mentira, pelo raso texto linguístico de seu comentário.
      Você não é nem Aspirante na República del Paraguay.
      Não passas de um recalcado e frustrado tentando criar um clima ruim e decadente.
      Como seu mundinho doente e solitário.
      Patético e infantil.

  6. Nada acontece por acaso e o Brasil será uma grande nação! Passamos por uma espécie de purgatório nesses quatro anos e agora um futuro promissor aguarda o povo brasileiro. Fé na missão!!!

  7. A análise supra é muito interessante e até bem acertada. Entretanto falha apenas em uma situação, independentemente de qual GERAÇÃO de militares, ou oficiais, estiver no comando, a linha de pensamento pouco ou nada muda.

    A doutrina militar brasileira é historicamente vinculada à guerra fria e, não somente isso, a um elitismo. Então, o medo de uma fantasma comunista, assim como, a crença de que somos, ou formamos, a elite social, intelectual, financeira do país são gerados na caserna. E nada disso faz parte de um currículo formal, é nas conversas e na convivência diária que as ideias vão se perpetuando, é por um currículo oculto que quase qualquer pessoa que entre no sistema militar seja tragado por ideologias retrógradas, e fantasiosas.

    Assim, tanto faz quem será o Comandante, as ideias não avançam. Querem exemplos? No EB não há questionamentos, diante de uma ordem, ou pedido, que é a mesma coisa, por mais absurdas que sejam, as respostas são: “- Brasil!!”; ” – Missão dada, missão cumprida!”

    Mas devo acrescentar que a questão não se resume ao poder, ficou bem explicito que o dinheiro é o que interessa. O “orgulho” das benesses e do contra cheque gordo é o que move muita gente. Que o diga o cabecinha branca do gabinete ao lado.

    1. João,
      Cada profissão possui suas características.
      Nossa organização e estrutura é vertical, isso é histórico e milenar.
      Prática em qualquer FFAA da história da humanidade.

      Não há possibilidade alguma, teórica, prática ou acadêmica, de comparação com qualquer outra carreira da iniciativa privada ou estatal.
      Cada país escolhe sua doutrina a ser aplicada em seus Centros de Estudos e EE de Formação.
      Escolha, esta, definida pelo Estado, obviamente, seguida pelas FFAA.
      O Brasil escolheu um lado durante a Guerra Fria, goste ou não, esse é sua opção.

      Conheci alguns militares que ‘sofreram’ a carreira até ingressarem na inatividade.
      Não se encaixavam, até cumpriam satisfatoriamente suas funções ‘rami rami’ nas Seções refrigeradas das OM’s, não possuíam qualquer identificação com a carreira das Armas.

      Muitos ingressam apenas pela estabilidade nessa carreira de Estado.
      Algumas profissões se o sujeito não tem plena vocação, não adianta.
      Começa criar defeitos como, as famosas bengalas para camuflarem sua insatisfação profissional:
      – elitismo, ‘nada muda’, currículo escolar ultrapassado.
      – ideologias retrógradas e etc.
      Sobre o “Missão dada, missão cumprida!”, digo, na iniciativa privada tem outro nome:
      – “tá contigo Negão, a tarefa é sua, fez mal feito, rua”.

      Afirmo, as FFAA é uma mãe, o problema é que essa geração não quer nada.
      Esperam que tudo ‘caia’ no colo, a geração dos adultos infantilizados.
      A geração dos ‘mais de 30’ que insistem em não sair de casa.
      Apenas, só isso, nada mais.

      E, sobre o fantasma comunista, aponte um só lugar donde ‘isso’ deu certo.
      Por fim, saia dessa mesa de bar cheia de teorias inócuas e inúteis, que na prática não produzem nada de proveito.

      Ou, saia da Instituição, pois nela continuará amargurado e mofino.
      Pelo conteúdo de seu comentário, aqui não é seu lugar.
      Que sejas feliz numa outra profissão.

      1. Aboliram o plantio do feijão no algodão nas escolas. Antes disso era atividade agrária. Deu nisso, essa geração danone que não sabe como o alimento e outros bens “surgem” nas prateleiras dos mercados.

  8. Lula pode fazer o que quiser com as FFAA, menos mexer nos sistemas de remuneração e previdência. Essas são as únicas demandas que fariam os militares darem um golpe de Estado. Nada mais sensível que o bolso. O resto é mera ideologia mofada.

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