Elio Gaspari
Morreu na quarta-feira Heitor Aquino Ferreira. Vivia num modesto apartamento em Copacabana, fazia traduções e era um senhor de poucas palavras. Havia sido uma das figuras mais poderosas da República e tinha duas paixões: a política e a História. Traduziu “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell, e “O Mundo Restaurado”, de Henry Kissinger.
Foi assistente do general Golbery na criação do Serviço Nacional de Informações e deixou o Exército como capitão. Tornou-se assistente do general Ernesto Geisel na presidência da Petrobras e em 1974 foi para Brasília como seu secretário particular. Em 1979, o presidente João Batista Figueiredo manteve-o na posição até 1983.
Na política, Heitor meteu-se nos anos 1950, ainda como cadete da Academia Militar das Agulhas Negras. Com a História, estava metido já em 1960, quando acompanhou o candidato Jânio Quadros para uma entrevista à rádio Guaíba, em Porto Alegre. Jânio levava uma cola para a conversa, onde escreveu “energia, transportes, agricultura, crédito” e deixou o papel sobre a mesa. O tenentinho de 25 anos guardou-o.
Era o início de um monumental trabalho de preservação da memória nacional. Resultaria num diário que soma mais de 1.500 páginas, num arquivo de cerca de cinco mil documentos e centenas de horas com gravações.
Golbery, que acompanhava a vida dos outros, dizia que não tinha arquivo. Era meia verdade. Ele tinha uma caixa ao lado da mesa, na qual jogava os papéis que passavam por lá. Heitor recolhia as caixas. Geisel também não tinha arquivo, mas Heitor guardava até seus rabiscos.
Em 1973, com o conhecimento e autorização de Geisel e Golbery, Heitor passou a gravar as conversas que tinham no Rio de Janeiro e também os telefonemas do presidente eleito. Era uma preocupação voltada exclusivamente para a preservação da memória, pois passou-se mais de meio século sem que Heitor jamais abrisse as caixas ou consultasse o material.
Na política, Heitor foi um soldado da abertura promovida por Geisel. Com Humberto Barreto, o poderoso assessor de imprensa do presidente, combatia a censura. Com Golbery, incentivava Geisel para que demitisse o general Sylvio Frota, ministro do Exército. Incentivava com tanta insistência que numa manhã o presidente atirou-lhe um telefone.
Coube a Heitor uma ação pitoresca. Em 1977, fez circular uma pergunta na cúpula do Planalto: O que acontecerá se o Ato Institucional nº 5 for revogado? A resposta: nada. No dia 31 de dezembro de 1978, o AI-5 caducou e nada aconteceu.
O poder de Heitor Ferreira era tamanho que muitos ministros conversavam com ele forçando o tratamento de “você” e viam-se devolvidos à formalidade do “senhor”.
Como Humberto Barreto, Heitor deixou o poder recolhendo-se ao silêncio e a uma vida frugal, sem grande patrimônio. Numa de suas crises de saúde, as despesas foram cobertas por Paulo Maluf, cuja candidatura à Presidência apoiou nos anos 1980, causando-lhe a saída do governo. Ele, que esteve no SNI em 1964, era vigiado pelo Serviço em 1983.
A fábrica que produzia figuras como Barreto e Heitor Ferreira não existe mais.
Em tempo: o signatário teve o privilégio da convivência e da amizade de ambos. Com o consentimento de Golbery, Heitor deu-lhe a guarda de parte de seu arquivos.
O Globo/montedo.com
Respostas de 8
O então capital Heitor de Aquino pediu demissão do Exército pelo fato de ter se divorciado, e pelo fato de conviver com outra mulher foi impedido de ocupar PNR na Vila Militar qdo foi fazer a ESAO e também ter sido negado tratamento de saúde para a sua mulher.
“As lições da velha guarda”.
Ricardo Montedo,
Aqui está a prova da boa velha guarda que acessa seu rico Blog.
Daqueles bons “ex-combatentes” que me referi noutro Post.
Velhos e bons frequentadores/’astronautas’ de sua website.
Militar de alto nível que só nos prestigia com seu equilibrado, preciso, honesto e oportuno comentário.
Nenhum momento durante sua explanação atacou ou denigriu qualquer militar da matéria, muito pelo contrário, a ética civil-militar foi sua maior marca.
Sua importância é um grande desafio para os virulentos dias atuais, em especial, na Rede.
Se efetivamente entendermos que cuidar da relação passado-presente é cuidar do homem, da caserna e da boa e frutífera relação da:
– “velha guarda e novas gerações”.
– esses comentaristas valorizaram seu Blog.
Muito diferente daquele comentarista tóxico, indesejável, inculto, inoportuno e antagonista das virtudes militares acima.
Uma boa semana para todos.
Brasil.
Sim, ainda bem que apareceu uma mente sã nos comentários, atóxica.
chega de comentários estúpidos, está demasiado o número de loosers no campo comentários (chega de incivilidades e estupidezes toxinas)
Obrigado por contar fatos da História do Brasil no período do Regime Militar….relembre por favor o ano que o Brasil cresceu 10 por cento ao ano….
Bolsonaro reeleito no 1° turno em 2022.
Não leu a excelente reportagem amigo? Se o fizesse teria vergonha de postar essa frase ridícula.
Eles não sabem o que dizem.
E foram esses que permitiram diversas reeleições do ‘mito’.
Que nunca aprovou qualquer benefício ao segmento FFAA.