Principal opositor de Bolsonaro entre militares, general Santos Cruz não será mais candidato

general santos cruz

Militar diz que decisão não está relacionada com o anúncio feito pelas Nações Unidas de designá-lo para investigar crime de guerra na Ucrânia; oficial foi ministro do presidente, de quem se tornou crítico

Marcelo Godoy
Repórter especial
Militar diz que decisão não está relacionada com o anúncio feito pelas Nações Unidas de designá-lo para investigar crime de guerra na Ucrânia; oficial foi ministro do presidente, de quem se tornou crítico
O general Carlos Alberto Santos Cruz não será candidato a nenhum cargo eletivo. Ele está preparando as malas para embarcar para a Ucrânia. O militar brasileiro foi escolhido pela ONU – conforme anunciou o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres – para chefiar a missão internacional que vai apurar o ataque ao presídio de Olenivka, na Ucrânia. Na explosão acontecida em 29 de julho, morreram 53 prisioneiros de guerra ucranianos e 75 pessoas ficaram feridas. Ucrânia e Rússia trocam acusações sobre a responsabilidade pelo ataque.
Santos Cruz fora durante cinco meses o ministro-chefe da Secretaria de Governo da gestão de Jair Bolsonaro até ser demitido pelo presidente. Tornou-se então um crítico do antigo chefe e da tentativa de politização dos quartéis feita pelo bolsonarismo. Há quatro meses, ele colocara seu nome à disposição do Podemos para uma possível candidatura à Presidência, depois de o ex-juiz Sérgio Moro trocar de partido – ele migrou para o União Brasil – e anunciar sua desistência da disputa presidencial.
O oficial se filiara ao Podemos dias depois do magistrado. Moro era então não só o candidato do general, mas da quase maioria dos militares que rompera com o governo Bolsonaro diante das denúncias de desvios de recursos envolvendo a família do presidente e da forma como o capitão tratou os brasileiros na pandemia de covid-19 – Bolsonaro nunca visitou um hospital sequer para se solidarizar com médicos e pacientes.
Em fins de junho, o general foi relacionado pelo colega deputado federal e general da reserva Roberto Peternelli Junior (União-SP) como um dos candidatos que o Podemos lançaria a deputado federal no Distrito Federal. Naquele momento, o partido negociava uma aliança com o MDB, o PSDB e o Cidadania para apoiar a candidatura de Simone Tebet (MDB) à Presidência. No dia 18, o nome do general foi anunciado por Guterres para a missão na Ucrânia. “Eu não sou candidato a cargo eletivo”, afirmou o general à coluna.
Santos Cruz afirma que a decisão sobre a candidatura não tem nenhuma relação com o anúncio da missão para a Ucrânia, pois essa era uma decisão já tomada anteriormente. No DF, apenas um general deve sair candidato a deputado federal. Trata-se de Paulo Chagas, um cavalariano que tentara o governo distrital em 2018 e terminou o pleito com 10% dos votos, vencido por Ibaneis Rocha (MDB). Chagas, a exemplo de Santos Cruz, é outro general que rompeu com o presidente após tê-lo apoiado em 2018.
O general que pretendia enfrentar as urnas pelo Podemos agora vai investigar quem foi o responsável pela morte dos prisioneiros ucranianos – quase todos integrantes do batalhão Azov, uma milícia formada por extremistas de direita que foi agregada ao Exército da Ucrânia e combateu os russos durante o cerco de Mariupol. Tanto Moscou como Kiev pediram à ONU que fizesse a apuração independente. Santos Cruz ainda não sabe como será formada a equipe que vai chefiar, mas aguarda instruções. O general já esteve à frente de outras missões da ONU, como a força de paz na República Democrática do Congo (RDC).
Sua desistência de disputar um cargo eletivo vai na direção contrária de seus colegas militares. Inspirados pelo sucesso do presidente que disputa a reeleição, 2.030 candidatos militares – das Forças Armadas e das Forças de Segurança estaduais – tiveram suas candidaturas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Conforme mostrou levantamento do Estadão, esse número significa um aumento de 25% em relação a 2018 e de 68,4% ante ao total de 2014.
Enquanto a propaganda dos colegas invade as redes sociais, Santos Cruz decidiu se afastar também do Twitter – ele não posta nada desde 18 de julho. Escreveu no período um artigo, publicado na semana passada, no qual critica Bolsonaro por politizar o desfile de 7 de Setembro. “Os demagogos, embusteiros e fanfarrões não irão à frente. Eles ficarão escondidos e protegidos nas suas imunidades.” A esperança do general, que já foi apodado por bolsonaristas como “melancia”, é de que um dia as suas palavras prevaleçam diante da onda que conduziu os colegas a gabinetes e sinecuras que ninguém quer perder.
Jan Huss, o reformador checo, pensava o mesmo quando acabou na fogueira como herege. Sua divisa, “a verdade vencerá”, foi lembrada cinco séculos depois por outro checo, o comunista Artur London, em sua obra L’Aveu, dans l’engrenage du procès de Prague (A Confissão, na engrenagem do processo de Praga). London fora um dos poucos sobreviventes do caso que levou à execução de Rudolf Slánsky, ex-secretário-geral do PC Checoslovaco, em um dos julgamentos espetáculos encenados por Stalin no Leste Europeu que misturaram antissemitismo com a prevenção a novas divisões no mundo socialista, como a da antiga Iugoslávia do marechal Tito.
ESTADÃO/montedo.com

Respostas de 5

  1. Na verdade não existe general opositor de Bolsonaro, e sim críticos que não concordam com certas medidas do presidente, mas opositores que apoiem e votem no “rapineiro mor”, duvido! Podem até votar em branco,(que já é um tiro no saco) mas votar no carrasco que apertará o laço em seus pescoços,(caso vença) e puxará a alavanca sob seus pés,bem como os adjetivou de “bando de generais” e que não tinha medo deles…duvido muito.

  2. Ainda bem que não vai concorrer, não teria a mínima chance…Ele sabe que atualmente existem dois tipos de eleitores: Os que não se importam com traidores, criminosos e corruptos e os que não perdoam traidores, criminosos e corruptos…

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