Escolha uma Página

Chico Alves
Colunista do UOL

Logo depois da reunião em que o presidente Jair Bolsonaro (PL) atacou a credibilidade do processo eleitoral a uma plateia de embaixadores de vários países, o general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz foi ao Twitter para manifestar sua insatisfação.
“Vergonha para o Brasil. É um absurdo o presidente da República reunir os embaixadores para falar mal do próprio país”, escreveu do Japão, onde está a trabalho.
Santos Cruz, que foi ministro da Secretaria de Governo de Bolsonaro, conversou com a coluna por aplicativo de mensagens e aprofundou as críticas ao presidente, além de se manifestar contra a interferência das Forças Armadas no processo eleitoral:
Ele volta ao Brasil na próxima semana e vai esperar a convenção do Podemos, ao qual é filiado, para definir se sairá candidato a algum cargo nessa eleição.

UOL – O que mais o indignou na explanação do presidente Bolsonaro aos embaixadores sobre o processo eleitoral brasileiro?
Santos Cruz – Não é possível aceitar que o próprio presidente da República reúna os embaixadores, a comunidade internacional no Brasil, para falar mal do país e do próprio sistema que o elegeu. Sem contar o estilo pessoal desqualificado numa comunicação desse nível.

Que tipo de repercussão o sr acredita que isso tem perante o mundo?
Isso é vergonhoso. É inimaginável, um vexame internacional desse nivel, promovido pelo próprio presidente. Isso corre o mundo.

Nesse momento, um dos maiores parceiros de Bolsonaro nesse ataque ao processo eleitoral é o ministro da Defesa, que insiste que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) acate suas sugestões. Como avalia a atuação do general da reserva Paulo Sérgio Nogueira nesse assunto?
Ministro da Defesa é um cargo politico que pode ser exercido por civil ou militar. O Ministério da Defesa é um ministério diferente, pois seus componentes são as Forças Armadas. Ele é especial. Mesmo que a função de ministro seja exercida por uma pessoa que apoia o presidente da República, por ser uma escolha política, o Ministério da Defesa, como instituição, e as Forças Armadas não podem ser comprometidas com políticas pessoais, partidárias e de governo.
As Forças Armadas são instituições de Estado altamente profissionais, com comandantes profissionais de carreira, avaliados profissionalmente por cerca de 40 anos e escolhidos entre os melhores profissionais de cada geração. São pessoas experientes e capazes.
Assim, a pessoa que exerce a função de ministro pode ter posições pessoais, mas isso tem que ser dissociado de qualquer comprometimento das Forças Armadas com políticas pessoais partidárias, pois elas possuem uma destinação constitucional.

Considera que fiscalizar o TSE é papel da Forças Armadas?
Não. Eleições no Brasil são de responsabilidade da Justiça Eleitoral. As Forças Armadas foram convidadas pelo TSE a participar do processo de avaliação do sistema, junto com outras instituições. Isso acontece através de sugestões técnicas. Não tem nada a ver com responsabilidade pelo processo eleitoral. Isso é de inteira responsabilidade legal do TSE, como sempre foi.

Parece não restar dúvidas de que Bolsonaro vai se apoiar em fake news para contestar o resultado das urnas em eventual derrota. Nossa democracia é forte o bastante para resistir a um ataque desse tipo? Qual seria a posição das Forças Armadas?
A conduta do presidente da República perante o resultado eleitoral é de inteira responsabilidade pessoal dele. Como todo cidadão, as reações precisam ser dentro da lei. Fora disso, tem que se entender com a Justiça.
As Forças Armadas não têm nada a ver com resultado eleitoral. Elas cumprem suas funções de acordo com o que está previsto na Constituição. Não se pode tentar envolver Forças Armadas em assuntos politizados.
Eu penso que as instituições, e a população também, irão reagir a qualquer ação fora dos limites legais. Não existe motivo para o Brasil sair da ordem legal.
UOL/montedo.com

Skip to content