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Herculano Barreto Filho
Do UOL, em São Paulo

Em meio à guerra entre Rússia e Ucrânia, que chega hoje (19) ao 24º dia, surgem questionamentos sobre os reais interesses de combatentes aliados do país invadido ou das tropas russas. Grupos de mercenários armados de diversos lugares do mundo seguem suas próprias regras em missões sem que sejam subordinados aos exércitos dos dois lados da trincheira.
Com equipamentos bélicos de ponta, “empresas” especializadas em confrontos armados com experiência em incursões no Afeganistão, Iraque e Síria são contratadas até para fornecer treinamentos militares no front, apontam especialistas ouvidos pelo UOL. Nas palavras de um dos analistas, é a “privatização da guerra” com a participação de exércitos formados por mercenários —homens que participam do conflito de olho na remuneração.
Em entrevista publicada há uma semana, um brasileiro que se identificou como “mercenário de guerra” informou estar a caminho da Ucrânia, onde seria remunerado pelos serviços prestados. Segundo ele, governos de diversos países contratam combatentes de elite em todo o mundo. Ex-soldados estão sendo recrutados por US$ 2.000 ao dia (cerca de R$ 10 mil) para ajudar no resgate de famílias, revelou a BBC.
O governo ucraniano criou um site no dia 5 de março de recrutamento de estrangeiros com formação militar para a Legião Internacional de Defesa Territorial da Ucrânia, com contato de consulados e embaixadas ucranianas, incluindo o Brasil.
Ex-militares brasileiros, que publicaram stories no Instagram dizendo estar na Ucrânia nos últimos dias, afirmam integrar uma tropa de elite da unidade formada por estrangeiros. Mas alegam ser voluntários e negam que estejam sendo pagos para atuar. “A gente veio pra ajudar”, responderam ao UOL.

Com mercenários, há mais crimes
Especialistas em conflitos armados se referem à atuação de grupos especializados de mercenários como algo recorrente.
“Equipes de mercenários são contratadas, mas não precisam obedecer a uma cadeia de comando. Eles têm mais autonomia de decisão, seguindo as suas próprias regras. Por causa dessa ação sem controle, cometem crimes de guerra com mais frequência”, explica o geógrafo Tito Lívio Barcellos Pereira, que participa de grupos de estudo sobre a atuação das forças armadas no mundo.
Segundo o especialista, esses grupos costumam levar o seu próprio armamento para as áreas de confronto e estão infiltrados na Legião Internacional de Defesa Territorial da Ucrânia, que teve sua base atacada na região de Lviv na madrugada de 13 de março por mísseis russos —a ação deixou ao menos 35 mortos, segundo o governo ucraniano; já os russos falam em “180 mercenários estrangeiros mortos”.
Os mercenários pagos na Ucrânia são integrantes das forças especiais dos seus países ou veteranos das guerras do Afeganistão, Iraque e Síria, que costumam se identificar como ‘voluntários’. São pessoas com grande experiência em combate. Há outros mercenários norte-americanos, franceses, albaneses e georgianos que já treinavam as milícias paramilitares ucranianas antes mesmo de a guerra começar.”Tito Lívio Barcellos Pereira, geógrafo

A ‘privatização da guerra’
David Magalhães, professor de Relações Internacionais, diz que a ascensão dos grupos formados por mercenários ocorreu no começo da década de 1990, após o final da Guerra Fria travada entre os Estados Unidos e a extinta União Soviética.
“Havia uma agenda belicosa e militarizada. Com o fim da Guerra Fria, despencou o orçamento em Segurança Internacional. Os países passaram a investir menos em Defesa, e as forças armadas ficaram com equipamentos militares obsoletos”, analisa.
Em um cenário geopolítico de estímulo à privatização, houve um incentivo ao que Magalhães chama de “privatização da guerra”, com “empresas de mercenários” sendo contratadas para ações pontuais.
Havia um ambiente mais privatista, onde a lógica de mercado impõe eficiência na economia. E, consequentemente, isso também pode ser produzido no setor militar. Com a contratação dessas ‘empresas’, o Estado não precisava mais pagar permanentemente por militares. Isso gerou um desafogo fiscal na lógica de contenção de gastos na época. A guerra também se privatizou.”David Magalhães, professor de Relações Internacionais
Segundo o especialista, essas empresas expandiram a sua forma de atuar. Não são limitadas apenas a fornecer os “mercenários de guerra”. Elas também contam com serviços e funções específicas, como fornecimento de pilotos de bombardeio, apoio logístico e até treinamentos.
“As convenções de guerra criam direitos e deveres aos combatentes, Os mercenários dessas empresas clandestinas não são reconhecidos pelo Direito Internacional, e passam a ser vistos como integrantes de uma força clandestina, grupo paramilitar ou ação guerrilheira que atua às margens da lei”, afirma.
Ainda assim, observa, há um esforço por parte dessas organizações para buscar atividades paralelas para legitimar as suas atividades. Segundo Magalhães, algumas delas possuem status de grandes corporações.
“Há ‘empresas de guerra’ que possuem até capital em bolsa de valores, com estrutura corporativa de grande empresa com atuação global. Há CEOs em gabinetes com ar-condicionado oferecendo serviço. Essas empresas se ampliam e se fundem com a indústria de Defesa. Fornecem, transportam e fazem manutenção de armas.”

De segurança a autoridades nos EUA à linha de frente
Com mestrado e doutorado sobre empresas militares privadas, o professor de Relações Internacionais Tomaz Paoliello explica que a variação de funções nessa indústria inclui até mesmo o oferecimento de serviço de segurança para autoridades nos Estados Unidos.
“Nesse caso, não são soldados na linha de frente do combate. É todo um ecossistema amplo, com empresas de diversos lugares do mundo. E, como em qualquer atividade empresarial, elas também estão ligadas aos governos”, pontua.
De acordo com a própria lógica de mercado, também há oferta de mão de obra mais barata, sobretudo vinda de países mais pobres.
Ex-soldados norte-americanos são mais caros do que os colombianos, por exemplo. Mas também acontece uma certa precarização. No Iraque, há empresas acusadas por trabalho análogo à escravidão.”Tomaz Paoliello, especialista em Relações Internacionais
Segundo ele, é comum que mercenários se alistem junto às tropas sob a falsa alegação de serem “voluntários”.
“É comum que mercenários falem isso, até para despistarem as organizações internacionais, que proíbem o mercenarismo. Assim, alegam que estão lá pela vontade de lutar, ocultando a informação de que buscam ganho próprio. É nebuloso. E vai continuar sendo nebuloso, porque dificilmente os países envolvidos vão reconhecer que contratam mercenários.”
UOL/montedo.com

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