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Luiz Antônio Araujo
De Porto Alegre para a BBC News Brasil

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, conclama compatriotas a resistir à invasão russa até o autossacrifício. O ex-presidente Petro Poroshenko empunha, em entrevista de TV, um fuzil AK-47. Uma fábrica de cerveja anuncia que migrou da produção de bebidas para a de coquetéis molotov. Um morador de Lviv mostra uma submetralhadora e diz que é adequada para o combate casa a casa. O autoproclamado porta-voz de um certo Movimento de Resistência Ucrânia Livre diz contar com cerca de mil guerrilheiros camuflados “atrás das linhas inimigas” – em Mariupol, Sumy, Kharkiv e Irpin.
Essas e outras cenas, exibidas ou descritas pela imprensa nos últimos 18 dias, sugerem que a guerra dos ucranianos contra o invasor russo já tem um caráter insurrecional, irregular ou de guerrilha.
Nesse terreno, a Ucrânia tem uma longa história que remonta à Idade Média. Resta saber se a tradição tem chances de reviver no século 21.
Com um território composto de partes de grandes impérios do passado, a Ucrânia cultua hoje tanto heróis e mártires derrotados – quando ucranianos tentaram obter independência e foram massacrados – quanto chefes vitoriosos da resistência a Napoleão e da Segunda Guerra Mundial.
Nas galerias de honra de museus e memoriais, soldados profissionais figuram lado a lado com guerrilheiros – homens e mulheres – que nunca pisaram em academias militares.
Esse passado é visto por alguns como um indício de que a invasão determinada pelo presidente russo, Vladimir Putin, terá o mesmo destino de campanhas como as ocupações soviética e norte-americana no Afeganistão e norte-americana no Iraque: exuberantes operações militares incapazes de vencer inimigos fracos, mas flexíveis e com moral elevada.
Um dia depois de os tanques russos cruzarem a fronteira, o especialista em inteligência Douglas London escreveu na revista Foreign Affairs que a estratégia ucraniana “não depende de repelir uma invasão russa, mas sim em fazer Moscou sangrar a ponto de tornar a ocupação insustentável”.
A doutora em Estudos Estratégicos Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Tamiris Pereira dos Santos diz que a estratégia de sangria (bloodletting, em inglês) foi adotada de forma consciente pela Ucrânia, mas deve ser vista com cautela.
“A questão é: se formos pensar em sangria nesse caso, o quanto a Ucrânia é capaz de impingi-la à Rússia? São capacidades bastante assimétricas postas em jogo para que essa premissa seja, de fato, válida”, afirma.
“Naquele caso, os norte-americanos não conseguiram efetivamente uma vitória em razão da capacidade insurgente da região, que se infiltrou entre a população iraquiana e causou bastante desgaste aos Estados Unidos”, argumenta.
A pesquisadora da Rede de Ciência, Tecnologia e Inovação e Defesa do Ministério da Defesa e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal Técnico de Ensino Superior (Capes) Ana Carolina de Oliveira Assis afirma que o emprego de táticas insurgentes pela Ucrânia foi perceptível desde o primeiro momento.
“Com o passar do tempo e o avanço russo, somados à falta de apoio de tropas ocidentais, é de se esperar que a Ucrânia utilize todos os meios possíveis para resistir e adote cada vez mais táticas insurgentes”, afirma a especialista e doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Nas ciências militares, o emprego de engajamento de civis, franco-atiradores, emboscadas e sabotagem é chamado de guerra irregular – em oposição à guerra regular, na qual são utilizados pessoal, equipamentos e formas de atuação profissionais.
A guerra irregular pode ser o único meio disponível num conflito de independência ou libertação nacional, quando populações numerosas e sem forças armadas precisam enfrentar um ocupante poderoso.
Pode, também, ser utilizada de forma acessória ou complementar por um exército regular – a fim de executar ações de retaguarda, surpreendendo o inimigo, ou em áreas inóspitas ou densamente povoadas que dificultem o uso de blindados ou de aviação.
Esse último caso é o da Ucrânia, que conta com forças armadas expressivas, mas com poder de fogo 10 vezes inferior ao da Rússia.
“Uma das principais características da guerra irregular é a importância da opinião pública. Uma vez que o país dito mais fraco não teria como vencer o poderio militar do inimigo, a opinião popular torna-se o principal alvo”, afirma Maria Eduarda Dourado, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba.
O objetivo da guerra irregular, segundo a pesquisadora, é minar a aspiração do país inimigo à legitimidade de suas ações.
“Ao dizer que há civis ucranianos dispostos a perder a vida utilizando apenas coquetéis molotov em combate direto com soldados e tanques russos, Zelensky reforça a narrativa ucraniana e constrói uma imagem negativa da Rússia e de seu líder, Vladimir Putin”, complementa Maria Eduarda.
Os números avassaladores da invasão russa – o governo dos Estados Unidos estimava que a Rússia tinha posicionado 150 mil a 190 mil soldados na fronteira antes de 24 de fevereiro, quando se iniciou o ataque – sugerem que Moscou acreditava que alcançaria seus objetivos de forma fulminante, anulando a capacidade de reação do inimigo.
“Guerra é algo politicamente impopular. Putin estava mirando uma conquista veloz dos principais pontos estratégicos do território ucraniano”, afirma Maria Eduarda.
A realidade, porém, assumiu contornos muito distintos.
“Ao contrário do que era esperado, Putin viu uma parte da Ucrânia resistir fortemente, em especial a parte ocidental, onde há maior identificação com os países e a cultura ocidental”, analisa.
O planejamento de uma campanha como a da Rússia na Ucrânia inclui cenários variados, e é provável que as forças armadas russas tenham considerado a perspectiva de enfrentar resistência popular.
Não há, porém, garantia de que essa presciência seja o caminho para o sucesso.
“Considerar a possibilidade de insurgência não elimina as dificuldades que a Rússia pode encontrar ao utilizar táticas e equipamentos de contra-insurgência. Além das questões logísticas, o problema de diferenciar civis e militares, outro obstáculo seria o apoio ocidental à resistência ucraniana”, considera Ana Carolina.
Esse apoio, explica a pesquisadora, seria uma fonte importante de recursos e armamentos e levaria a um prolongamento da resistência e um enfraquecimento militar e político russo com o passar do tempo.
No domingo (13/3), mísseis russos atingiram uma base militar ucraniana em Starychi, distante 46 quilômetros de Lviv e a cerca de 25 quilômetros da fronteira com a Polônia, segundo a administração regional militar de Lviv.
É o ataque mais próximo do território de um país da Otan desde o início da campanha.
Essa vizinhança não é o único fator a servir de complicador na equação da guerra.
“Como o Ocidente não está intervindo diretamente com soldados e armamentos, apenas doando material bélico, dinheiro e outros recursos para a Ucrânia, aumenta a probabilidade de o conflito evoluir para uma guerra de insurgência, com os ucranianos utilizando todos os meios ao seu alcance para manter a atual posição”, afirma Ana Carolina.
Tamiris considera que escalar a guerra ou participar diretamente do conflito não seja uma estratégia do Ocidente, condição que aumenta as chances de a Ucrânia recorrer à insurgência.
“No caso de participação mais efetiva dos Estados Unidos e da Europa ocidental, existe a possibilidade de a China vir em socorro da Rússia. Um envolvimento ocidental direto poderia, de fato, causar a eclosão de uma guerra mundial – algo que, acredito, não se queira repetir tão cedo”, conclui.
BBC News Brasil/montedo.com

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