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Ministro Ciro Nogueira (Edilson Rodrigues – Agência Senado)

PAULO CAPPELLI
Integrantes do primeiro escalão do governo Jair Bolsonaro têm usado os aviões da Força Aérea Brasileira para turbinar suas campanhas eleitorais. Por serem ministros, eles alegam que precisam utilizar as aeronaves “a serviço” para cumprir compromissos oficiais pelo país. O problema é que, em muitos casos, as agendas vão bem além de reuniões de trabalho. Na prática, as viagens são usadas com fins claramente eleitorais.
O ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, por exemplo, tem ido com frequência ao Piauí, seu reduto eleitoral, tanto para pedir votos para reeleger o presidente Jair Bolsonaro quanto para garantir a eleição de seu candidato ao governo do estado, Sílvio Mendes, do PSDB.
Em outubro, o ministro e líder do Centrão requisitou uma aeronave oficial para viajar com mais 13 pessoas de Brasília para Teresina. A justificativa era a de participar de uma solenidade para entrega de um hospital universitário. Mas Ciro aproveitou a oportunidade para participar de uma cerimônia que celebrava a filiação de quatro políticos ao Progressistas, o partido que dirige.
“O Piauí precisa de pessoas corajosas, dispostas a fazer mais pela população. Pretendemos seguir reforçando nosso quadro. Tenho certeza de que faremos uma grande campanha na eleição do próximo ano”, disse Ciro. O local do evento estava decorado com banners do partido.
Já no município piauiense de São Luís, durante assinatura de uma ordem de serviço para construção de uma ponte, o ministro da Casa Civil foi ainda mais explícito. “Dia e noite eu falo para o Silvio (Mendes) e para a Iracema (Iracema Portella, ex-mulher de Ciro), que são hoje nossos pré-candidatos, sobre o que nós podemos fazer de diferente para o nosso estado. Passa por parcerias com prefeitos. Temos que mudar a forma de fazer política no nosso estado”, afirmou, diante de vários balões com as cores do Progressistas.
Na primeira quinzena de agosto, Ciro Nogueira havia levado para a capital do Piauí, a bordo de um avião da FAB, uma comitiva para participar de um encontro de prefeitos com o ministro da Educação, Milton Ribeiro.
Em um palanque com a logomarca do Ministério da Educação ao fundo, Ciro discursou: “Tenho certeza de que vamos transformar o Piauí em celeiro se tivermos homens de bem, uma bancada (de deputados) unida e coesa, bons representantes. Nós iremos passar as eleições, virar a página e nos unirmos para que possamos transformar o estado“. Em seguida, ele regionalizou o conhecido slogan de Bolsonaro: “Piauí acima de tudo, Deus acima de todos!”.

Queiroga: plano de disputar o governo da Paraíba ou uma cadeira no Senado (Adriano Machado/Crusoé)

O campeão de requisições de aeronaves da FAB neste ano é o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga – foram 27 só em seu nome. Na maioria das vezes, Queiroga utilizou os jatos para ir a cerimônias com claro tom eleitoreiro. Seis dessas viagens tiveram como destino ou origem cidades da Paraíba, estado pelo qual cogita se candidatar ao Senado ou mesmo ao governo do estado.
Em outubro, em São José de Piranhas, município a 400 quilômetros de João Pessoa, Queiroga discursou: “Já são mais de 320 milhões de doses de vacinas distribuídas para a nossa população. No passado, um consórcio de governadores disse que ia trazer vacinas (ao país). Quantas vacinas eles trouxeram? Nenhuma. Todas as vacinas foram trazidas pelo governo do presidente Bolsonaro. Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.
O uso despudorado de aviões da FAB e da máquina do governo em eventos de natureza eleitoral colocou os ministros do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, e das Comunicações, Fábio Faria, na mira do Ministério Público Federal. Ambos são alvo de um pedido de condenação e pagamento de multa por campanha antecipada durante compromissos oficiais no Rio Grande do Norte.
Em fevereiro, os dois políticos, utilizando jatinhos oficiais, participaram da inauguração de obras de transposição do Rio São Francisco. Para o MP, ficou configurado “pedido explícito de votos” em solenidade realizada no município de Jardim de Piranhas, situado a 300 quilômetros de Natal. “Durante o evento, acompanhados de Jair Bolsonaro, eles pediram votos para o presidente e para a candidatura de Rogério Marinho ao Senado, além de pregarem contra a reeleição da governadora do estado, Fátima Bezerra”, afirmou a Procuradoria da República no Rio Grande do Norte.
Procurados, Ciro Nogueira e Marcelo Queiroga ainda não se manifestaram. O Ministério da Defesa afirmou que “compete à autoridade solicitante analisar a efetiva necessidade da utilização de aeronave do Comando da Aeronáutica em substituição a voos comerciais”. Ou seja, a tarefa de julgar se as viagens podem ou não ser feitas nas asas dos jatinhos da FAB cabe aos próprios ministros que se valem da mordomia para embalar seus projetos eleitorais.
Crusoé/montedo.com

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