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O presidente só pretende abrir mão de ter o general em sua chapa se concluir, até junho, que o projeto de reeleição corre risco

Rafael Moraes Moura, Letícia Casado
Fazendo jus à fama de ser o mês das grandes crises políticas nacionais, agosto de 2021 deixou o Brasil em suspense diante da escalada de tensão entre Jair Bolsonaro e as instituições. No dia da votação na Câmara dos Deputados de uma proposta de emenda constitucional (PEC) que instituía o voto impresso, medida defendida pelo presidente da República, tanques e outros equipamentos militares desfilaram pela Praça dos Três Poderes, em Brasília, o que foi interpretado por oposicionistas como uma tentativa de intimidação do Congresso. Já Bolsonaro — em mais um capítulo de sua queda de braço com o Judiciário — apresentou um pedido de impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, que mandou a Polícia Federal cumprir mandados de busca e apreensão contra radicais acusados de ameaçar a democracia. Preocupados com o acirramento de ânimos, ex-­presidentes da República, parlamentares e magistrados procuraram generais para saber se havia risco de golpe militar e se a democracia resistiria até o feriado de 7 de Setembro, para o qual estava previsto um grande ato de apoio a Bolsonaro.
Naquela época, poucas pessoas tinham credenciais para esclarecer essa questão quanto o ministro da Defesa e chefe das Forças Armadas, general Braga Netto. E as sondagens com o general não foram boas. Reservado e subserviente ao presidente, Braga Netto compartilha muitas das ideias lunáticas do chefe (isso quando ele mesmo não é o incentivador das sandices). Há uma versão em Brasília de que, naquele momento de tensão, ele teria, inclusive, recorrido a um intermediário para avisar o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), de que não haveria eleição em 2022 se não fosse aprovado o voto impresso, como queria Bolsonaro. O general negou essa movimentação, mas ele claramente pregou durante a crise contra um suposto ativismo judicial do STF, reclamando das “arbitrariedades” praticadas por Alexandre de Moraes e repetindo o mantra-ameaça segundo o qual os outros poderes não deveriam “esticar a corda”, sob pena de sofrer as consequências. Apesar de toda essa pressão, a Câmara rejeitou o voto impresso, o STF não se curvou e a democracia se manteve firme. Bolsonaro, se sonhava com um golpe, algo que ele sempre negou, não conseguiu realizá-lo. Já Braga Netto ganhou pontos com o chefe e agora é cotado para desempenhar outra função estratégica: a de candidato a vice na chapa à reeleição encabeçada pelo ex-capitão. Hoje, o general é o “plano A” de Bolsonaro para o posto.
Sensível a todo tipo de teoria da conspiração e convencido em determinada altura de seu mandato de que o atual vice-presidente, general Hamilton Mourão, queria derrubá-­lo, Bolsonaro sempre quis escolher como parceiro de chapa alguém de sua estrita confiança, que não fosse político, não tivesse boa interlocução com o Congresso e, por isso tudo, não tivesse condições de participar de uma conspiração para apeá-lo do poder. Braga Netto, que compareceu às manifestações de 7 de Setembro com uma bandeira do Brasil, se encai­xa à perfeição nesse perfil. A vontade pessoal do presidente joga a favor do general. O problema é que a conjuntura política também será levada em consideração nessa escolha. A questão é simples. Se Bolsonaro tiver certeza de que chegará ao segundo turno com chances de vitória, a tendência é optar por Braga Netto. Agora, se a vaga no segundo turno e a reeleição dele estiverem ameaçadas, o posto de vice deve ser cedido a um político capaz de agregar votos, qualidade que o general não tem. Há várias possibilidades cogitadas para esse “plano B”. Todas têm o objetivo de aproximar Bolsonaro de segmentos nos quais ele é altamente rejeitado, como as mulheres ou eleitores do Nordeste.
Pesquisa da Quaest divulgada recentemente mostrou que o ex-presidente Lula tem 61% das intenções de voto entre os nordestinos, ante 13% de Bolsonaro. Considerando todas as regiões do país, a vantagem do petista é menor, mas ainda expressiva: 45% a 23%. “O vice tem de ter algumas características, tem de ajudar você. E tem de ajudar no tocante ao voto também”, disse Bolsonaro a VEJA no fim do ano passado. Como o presidente se filiou ao PL, há um acerto prévio para que o escolhido ao posto de vice venha do PP, outro expoente do Centrão.
A ala de políticos profissionais que toca hoje a campanha à reeleição, da qual fazem parte o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP-PI), prefere por enquanto o “plano B”: um vice político, de preferência uma mulher ou um representante do Nordeste. Sugestões para a vaga já apareceram aos montes, como os ministros das Comunicações, Fábio Faria, e da Agricultura, Tereza Cristina, além do próprio Ciro. A decisão será de Bolsonaro, mas os expoentes do Centrão esperam que ele leve em consideração toda a conjuntura e só opte por Braga Netto se estiver claro que a reeleição está encaminhada. Caso contrário, eles argumentam que o projeto político deve se sobrepor à vontade pessoal do presidente. “Eu julgo que o ministro Braga Netto tem um excelente relacionamento com o presidente Bolsonaro e é uma pessoa extremamente capacitada a ser o novo vice-presidente”, disse o general Hamilton Mourão, descartado para 2022, em entrevista recente. “Isso não está na pauta. Braga Netto é um nome muito bom, mas o vice é a última coisa que se resolve, porque depende da conjuntura das outras candidaturas e das alianças dos adversários”, contraditou o líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros (PP-PR).
Enquanto as articulações avançam, Braga Netto se empenha no que faz de melhor: cumprir missões dadas por Bolsonaro. No último dia 7, ele participou de uma audiência no Palácio do Planalto em que os ministros do STF Alexandre de Moraes e Edson Fachin entregaram nas mãos do presidente um convite para a posse deles no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), marcada para o dia 22. Os comandantes das três Forças também acompanharam a conversa, que, apesar do histórico de rusgas entre os participantes, ocorreu sem sobressaltos. “Foi inodoro”, disse a VEJA um dos presentes. Outro interpretou o encontro como um sinal de distensão entre Bolsonaro e Moraes, que toca inquéritos que investigam o clã do presidente da República. Mesmo hoje, Braga Netto continua como parte importante da equação entre o Executivo e o Judiciário, inclusive no que diz respeito à campanha. O general foi decisivo, por exemplo, na definição do nome das Forças Armadas que foi incluído na comissão do TSE responsável pela transparência nas eleições.
Indicado por Braga Netto, o general Heber Garcia Portella, o representante das Forças Armadas, encaminhou em dezembro do ano passado um imenso questionário ao presidente do tribunal, ministro Luís Roberto Barroso, requisitando detalhes técnicos e operacionais sobre o funcionamento e a segurança das urnas eletrônicas. O teor do documento, revelado pelo site de VEJA na terça-feira 15, serviu de munição para que o presidente Bolsonaro reforçasse suas críticas à Justiça Eleitoral e também evidenciou o alinhamento do ministro da Defesa com as suspeitas do chefe. “Foram levantadas várias, dezenas de vulnerabilidades e foi oficiado o TSE para que pudesse responder. Isso está na mão do ministro Braga Netto. Ele tá tratando desse assunto e vai entrar em contato com o presidente do TSE. O que nós queremos é ter eleições limpas e transparentes e eleições que possam ser auditáveis”, disse o presidente.
Evidentemente, a reação no tribunal não foi das melhores. “Afirmações como essas participam do quadro clássico da desinformação e equivalem, moralmente, às formas mais explícitas de mentira política”, disse a VEJA o ministro Edson Fachin, que vai assumir a presidência do TSE no dia 22. “Esse general recebeu uma missão de seu chefe: criar factoides para justificar o caos eleitoral”, afirmou, sob a condição de anonimato, outro ministro da Corte, que viu nos questionamentos as digitais de Braga Netto. Ao encaminhar as respostas, Barroso devolveu as críticas. “Desnecessário enfatizar que as informações que envolvem a cibersegurança dos sistemas do tribunal precisam ser tratadas com o máximo de reserva, para não se criarem vulnerabilidades ou se facilitarem ataques. Infelizmente, há maus precedentes nessa matéria”, alfinetou o ministro, ao lembrar que o chefe do Executivo é investigado por vazar informações sigilosas. Em resumo: a tensão permanece no ar.
Braga Netto, de 65 anos, estava na comitiva brasileira que visitou a Rússia nessa semana. Na chegada a Moscou, foi o único dos ministros a falar com os jornalistas, o que não é muito comum. Avesso à imprensa, ele prima sempre pela discrição e, segundo assessores do Planalto, segue à risca o bordão militar “ordem dada é ordem cumprida”. O ministro da Defesa continua a fazer parte do grupo que concorda com o presidente quando ele diz que o STF tem extrapolado suas atribuições — um discurso perigoso e que pode levar o Brasil ao caos nesta eleição. Em agosto do ano passado, enquanto pipocavam boatos de suposto golpe e aumentava a temperatura da pregação governista contra o Supremo, VEJA encontrou Braga Netto passeando tranquilamente pelas ruas de Brasília com seu cão de estimação, que ignorava os apelos do dono e desafiava a sua autoridade. A insubordinação, porém, foi apenas temporária e, no fim, prevaleceu a famosa fidelidade canina. A mesma que Bolsonaro espera de seu vice favorito.
Publicado em VEJA de 23 de fevereiro de 2022, edição nº 2777
Veja/montedo.com

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