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A massiva e franca ameaça militar russa contra a Ucrânia abala neste momento um senso de complacência entre europeus jovens e velhos, que nunca conheceram guerras, sejam quentes ou frias

Steven Erlanger / The New York Times, O Estado de S.Paulo
BRUXELAS — Ulrike Franke é uma millennial alemã assumida, uma analista de defesa que se preocupa com a aversão de sua geração a militares, especialmente quando eles se movem para posições de poder. “Depois de 30 anos de paz”, escreveu ela ano passado, em um ensaio que circulou amplamente, “os millennials alemães têm dificuldades para se ajustar ao mundo em que vivemos agora. Temos dificuldade para pensar em termos de interesses, temos dificuldade para compreender o conceito de poder geopolítico e temos dificuldade para aceitar o poderio militar como elemento de poder geopolítico.”
A massiva e franca ameaça militar russa contra a Ucrânia, afirmam ela e outros, abala neste momento um senso de complacência entre europeus jovens e velhos, que nunca conheceram guerras, sejam quentes ou frias. Para alguns, pelo menos, o momento é de despertar, conforme a ameaça de guerra se torna mais real.
Mas ainda resta ver quão longe a Europa está preparada a ir no sentido de se afastar de um mundo em que paz e segurança sempre estiveram garantidas. Por décadas, os europeus pagaram relativamente pouco, em dinheiro, vidas ou recursos, por sua defesa — e prestaram ainda menos atenção, abrigando-se sob o guarda-chuva nuclear dos Estados Unidos que sobrou da Guerra Fria.
Esse debate tinha começado a mudar nos anos recentes, mesmo antes da ameaça da Rússia à Ucrânia, com debates sobre uma posição estratégica europeia mais robusta e independente. Mas a crise colaborou tanto para expor a fraqueza europeia sobre temas de segurança quanto para fortalecer seu senso de união.
Franke, de 34 anos, pesquisadora-sênior do Conselho Europeu de Relações Exteriores, não está convencida de que apenas uma grande invasão russa à Ucrânia alteraria significativamente a opinião pública.
“O que temos na Europa e na Alemanha é um problema de status quo”, afirmou ela em entrevista. “Estamos muito confortáveis com esta versão de segurança europeia, e a maioria das pessoas não se dá conta de que, para defender esse status quo, precisamos agir.”
A elite sente na espinha o vento frio vindo da Rússia, mas “no nível da opinião pública, as pessoas querem ser deixadas em paz e intocadas”. Franke, que é especialista em guerra com drones, pode ser pessimista demais, acreditam alguns.
Daniela Schwarzer, que dirigiu o Conselho Alemão de Relações Exteriores e agora gerencia a análise de Europa e Eurásia nas Open Society Foundations, considera que “a imagem da Rússia mudou bastante”.
“Mesmo na Alemanha, existe um sóbrio realismo de que nossas relações com a Rússia e nossa política energética têm de ser abordadas de uma maneira muito mais estratégica do que geralmente reconhecia-se no passado”, afirmou ela.
Mas mesmo após a Rússia anexar a Crimeia, em 2014, a Alemanha e a Europa fizeram muito pouco para diminuir sua dependência energética da Rússia ou se preparar para que Moscou usasse o fornecimento de energia como arma.
Com a nova crise ucraniana, afirmou ela, isso está mudando rapidamente.
Os europeus que fazem fronteira com a Rússia sempre alertaram sobre Moscou, mas europeus de longe só agora enxergam por quê. “Agora existe a percepção de que o conflito é possível no nosso continente”, afirmou Schwarzer.
Quando as tropas russas invadiram a Geórgia em 2008, ou anexaram a Crimeia, ou se inseriram no recente conflito entre Armênia e Azerbaijão, houve pouca mudança de percepção persistente em relação à Rússia.
“Mas este conflito teria uma dimensão distinta, já que opõe tão diretamente o Ocidente e a Rússia — e é visto como prova de que o atual ordenamento de segurança já não provê segurança”, afirmou ela.
Peter Ricketts, ex-embaixador britânico na França, que atualmente compõe a Câmara dos Lordes, concorda. Este conflito colocou “a guerra de volta ao nosso foco, no mundo transatlântico”, afirmou ele.
Para a geração mais jovem e preocupada, como os verdes alemães, com o meio ambiente e com foco em direitos humanos e equidade de gênero e racial, “isto é a política do século 19 irrompendo e se chocando com suas preocupações do século 21”, afirmou ele.
Em um sentido mais amplo, disse Ricketts, o conflito recorda os europeus da importância da Otan e da liderança americana na aliança transatlântica. “A fé em negociar com a Rússia em vez de dissuadi-la será gravemente prejudicada por isso”, afirmou ele.
Uma grande ação militar russa ocasionaria mais gastos militares, pressiona a Otan a aumentar seus deslocamentos de tropas para as proximidades da Rússia, “aprofunda o abismo entre Rússia e o Ocidente e pressiona a Rússia mais em direção à China e à zona renminbi, com a Rússia como parceira menor”, afirmou Ricketts.
O que começou como uma troca de acusações, em novembro do ano passado, evoluiu para uma crise internacional com mobilização de tropas e de esforços diplomáticos
Países da Otan — incluindo Reino Unido, França, Alemanha e EUA — enviaram tropas, aeronaves e embarcações para apoiar países-membros como Polônia, Romênia e os Estados bálticos, com a França oferecendo um acionamento mais permanente na Romênia. Esses acionamentos deverão durar algum tempo.
Existem “algumas consequências a longo prazo, uma deterioração no ambiente de segurança na Europa a longo prazo decorrente dessa significativa concentração militar da Rússia, da retórica da ameaça”, afirmou o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, enquanto ministros de Defesa se reuniam em Bruxelas. “Lamento dizer que este é o novo normal na Europa.”
Também haverá novo debate a respeito da iniciativa do presidente francês, Emmanuel Macron, por uma autonomia estratégica europeia e resiliência. Uma crise de segurança na Europa em que a União Europeia não possa contribuir com nada além de ameaças de sanções preocupa muitos. Mas não existe resposta fácil nem rápida, sugeriu Robin Niblett, diretor da Chatham House.
Prejudicando qualquer fé renovada na liderança dos EUA, porém, há uma ampla preocupação entre os europeus de que o presidente Joe Biden possa durar apenas um mandato, enfraquecido pelas eleições de meio de mandato, e que o ex-presidente Donald Trump ou outro republicano com sua maneira nacionalista e disruptiva vença em 2024.
“Não sabemos o que virá depois de Biden”, afirmou Claudia Major, do Instituto Alemão de Relações Internacionais e Segurança. “Os EUA voltaram momentaneamente, mas isso não altera o curso geral da superpotência concorrente, que é a China. Será esta a última vez que os americanos virão nos salvar?”
Uma pesquisa de opinião em sete países da UE publicada na semana passada pelo Conselho Europeu de Relações Internacionais constatou evidência das mudanças de atitude em relação à Rússia.
Maiorias na Europa acreditam neste momento que a Rússia invadirá a Ucrânia em 2022 e que é importante para a União Europeia e a Otan apoiar a Ucrânia. Os europeus estão preparados para suportar significativas ameaças, incluindo fluxos de refugiados, energia mais cara e ataques cibernéticos — e consideram a dependência energética em relação à Rússia seu maior desafio comum.
“Isso foi um verdadeiro toque de alerta”, muito maior que em 2014, afirmou Mark Leonard, o diretor do grupo. A pesquisa aponta para algumas visões fundamentais, afirmou ele, “de que a guerra na Europa é concebível outra vez e que a UE deveria responder a agressões russas”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
ESTADÃO/montedo.com

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