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Ricardo Chapola
Um dos primeiros a deixar o governo Bolsonaro, o ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo, Carlos Alberto dos Santos Cruz, prepara-se para entrar de vez na política. Depois de se filiar ao Podemos, mesmo partido do ex-juiz Sergio Moro, o general estuda uma forma de impedir que Lula ou Bolsonaro vençam as eleições de outubro. Uma das alternativas seria a eventual candidatura ao Senado, algo que ele ainda não definiu. Em entrevista à ISTOÉ, o militar disse que seu maior propósito é romper “com o fanatismo que adoece o Brasil e sempre termina em violência”. Ao longo de quase uma hora de conversa em seu apartamento em Brasília, ele atacou as atitudes tomadas por Bolsonaro, em especial quando expôs os nomes dos funcionários da Anvisa, responsáveis pela liberação da vacinação de crianças contra a Covid. “Expor os servidores foi criminoso. Isso é de uma covardia infinita. E Bolsonaro sempre foi covarde”, disparou o ex-ministro, que também chamou o capitão de traidor. “Muita gente que votou em Bolsonaro acreditava no discurso dele. Mas ele é um traidor de carteirinha. Seu governo destruiu a direita e o conservadorismo.”

Qual será o clima das eleições presidenciais deste ano?
Estamos vivendo em um País doente, onde a corrupção está enraizada e há muita gente viciada em dinheiro público. Outro problema é o fanatismo, que já existiu em boa dose na época do PT. Agora, com o governo Bolsonaro, ele virou uma plataforma de governo, fruto de uma ambição pessoal do presidente.

O que Bolsonaro inseriu de novo nesse aspecto?
Um componente muito forte foi a milícia digital. É muito ativa. Uma verdadeira gangue virtual, composta também por pessoas extremistas, que gostam desse tipo de populismo barato que Bolsonaro faz. Gente que aceita o presidente passeando por aí usando dinheiro público. Ou que aceita barbaridades como essa a que assistimos, expondo os funcionários da Anvisa.

O que achou desse episódio na Anvisa?
Uma barbaridade e uma canalhice total. Órgãos técnicos como a Anvisa existem exatamente para fazer com que a sociedade não fique à mercê apenas de decisões políticas. Expor os servidores é uma coisa criminosa. Ao mesmo tempo, Bolsonaro também incentiva ações contrárias a esses servidores. Isso é de uma covardia infinita. Porque o covarde nunca vai junto. Ele estimula sempre alguém a fazer. Vide o que aconteceu na greve dos caminhoneiros. Bolsonaro incentivou a paralisação. E tem gente detida até hoje.

“Bolsonaro destruiu a direita e o conservadorismo. É um traidor.”

Bolsonaro se acovardou?
Bolsonaro sempre foi covarde. É uma característica dele. Um momento em que isso ficou perceptível foi no Sete de Setembro, quando o presidente fez um chamamento popular, uma bravata absurda na Avenida Paulista. Pouco tempo depois, chamou outra pessoa para escrever meia página para se desculpar. O episódio com a Anvisa também revelou essa parte do perfil dele. Se Bolsonaro não concordava com um parecer técnico, tinha que dizer que discordava, assinar embaixo e se responsabilizar pela decisão. E não fazer o que fez.

Quem tem mais culpa pela crise econômica: Bolsonaro ou a pandemia?
A pandemia afetou todos os países. Mas, aqui no Brasil, não houve liderança nesse processo. Quando há um problema sério assim, a autoridade máxima tinha que assumir as responsabilidades. Tinha que se unir aos governadores para cruzar esse período, apesar das divergências políticas. Um líder faria isso. Mas não. Faltou coragem a Bolsonaro para assumir essa responsabilidade. Faltou capacidade de coordenação. A partir daí, veio uma série de outros absurdos, como a propaganda que Bolsonaro fez de medicamentos ineficazes contra a Covid, como a cloroquina. Isso tudo espanta o investidor, que não quer conviver em um ambiente de insegurança. Isso faltou e ainda está faltando.

Como o País tem enfrentado a crise econômica?
A parte do auxílio aos mais pobres tinha que ser feita. Todos os países fizeram. Só que precisaria ter sido feita com mais critério. As medidas econômicas nesse governo não são bem discutidas, porque Bolsonaro não apresenta nenhum plano de redução dos gastos públicos. Quer aumentar os gastos com auxílio emergencial? Então o governo não pode simplesmente perdoar dívidas de R$ 2 bilhões das igrejas evangélicas, não pode enfiar R$ 16 bilhões em emendas de relator.

Qual a sua opinião sobre o orçamento secreto?
É compra de apoio político, um mensalão de última geração.

Não se trata da tal corrupção que Bolsonaro prometia combater?
Muita gente que votou em Bolsonaro, como eu, acreditava no discurso dele. Bolsonaro é um traidor de carteirinha. Traiu o eleitor, traiu o País inteiro. Quando você é eleito, você é presidente de todo mundo, e não só dos seus eleitores. Bolsonaro não cumpre o que fala, a começar pelo mais simples, como é o caso da reeleição. Ele dizia ser contra.

Como o senhor explica a impopularidade do governo?
As pessoas estão se conscientizando do despreparo de Bolsonaro para a função, marcado pelo populismo e pela vigarice política, que promete uma coisa e depois não sustenta aquilo que prometeu. Outro fator é que Bolsonaro só está fazendo o que sabe: campanha política. Nenhum país aguenta ficar quatro anos desse jeito. Existe um cansaço da população. Mesmo com os problemas financeiros em razão da Covid, você vê farta distribuição de dinheiro para as emendas parlamentares. A pandemia afetou a economia, mas não afetou os R$ 4,9 bilhões para o fundo eleitoral. Não afetou os R$ 36 bilhões de emendas parlamentares. Como é que a pandemia está castigando os mais pobres e para o Congresso continua tudo ótimo?

Bolsonaro se filiou ao PL, que é do Centrão, grupo fisiológico que ele prometeu combater. Seria mais uma contradição?
Isso também se enquadra na traição. Não sou eu quem vai julgar o presidente do PL. Todos os partidos têm pessoas bem intencionadas e pessoas com as quais se discorda. Mas o Centrão tinha sido taxado como criminoso. Tanto que rendeu até musiquinha do general Heleno. Você não pode dizer que não vai ter toma lá dá cá, que a política de conchavos é criminosa, e depois fazer o contrário do que falou. Afinal, que nova política é essa? Bolsonaro abraçou aqueles que criticava de maneira contundente. Isso é traição pura ao eleitorado, aos que acreditaram na sua conversa fiada de fazer política de uma nova maneira.

Como general, o que o senhor acha de Bolsonaro enaltecer sua origem militar?
Bolsonaro não tem nenhuma característica militar. Tanto que foi uma medida acertada na vida dele sair da caserna, porque não tinha característica para estar lá. De equilíbrio, de educação ou de planejamento.

Bolsonaro prejudica a imagem das Forças Armadas?
Sem dúvida. Bolsonaro tenta se apropriar da imagem das Forças Armadas. Ele não tem nenhuma noção de valorização institucional. O Brasil está passando por um período muito ruim nesse aspecto. Em todas as áreas em que o presidente teve maior atuação, as instituições foram desmoralizadas. Na PF, por exemplo, onde houve várias trocas de delegados e de superintendentes, foi muito negativo. Tirou a estabilidade da corporação. O Ministério da Saúde foi estraçalhado. A Anvisa está sofrendo um desgaste bárbaro. As Forças Armadas entram nesse pacote de desrespeito institucional. Convidar militares para o governo não é um problema. O número excessivo deles é dá a percepção de que as Forças Armadas estão institucionalmente engajadas com Bolsonaro. E não estão. Transmitir essa imagem é proposital.

A ideia é tentar usar os militares para intimidar?
Exatamente. Esse governo tem três fases distintas. A primeira foi marcada pela influência muito forte dos extremistas nos primeiros oito meses de governo. Na segunda fase, Bolsonaro tentou abertamente usar as Forças Armadas como ferramenta de pressão política. Não deu certo, porque os militares têm uma cultura muito forte e não vão admitir esse tipo de populismo. E, quando não tinha mais nada, Bolsonaro abraçou o Centrão, que é a terceira fase do governo. Aí vieram as manobras orçamentárias. Só assim ele vem conseguindo sobreviver.

O presidente envergonha as Forças Armadas?
Não vejo que um aventureiro qualquer como Bolsonaro tenha capacidade de quebrar a cultura das Forças Armadas. Elas não têm que se envergonhar de nada. Quem tem que ficar envergonhado é quem tenta desgastá-las. A população pode ter absoluta certeza de que as Forças Armadas não serão usadas no Brasil para golpe nenhum.

O orçamento secreto é compra de apoio: um mensalão de última geração

Os militares que ocupam cargos no governo vestiram demais a camisa do governo?
Essas pessoas não representam as Forças Armadas. Nem eu quando estava no governo representei. O pessoal da reserva não representa as Forças Armadas. O Heleno não está lá exercendo a função de general, mas a de um ministro qualquer. A expectativa da sociedade é que, por ele ser um general, ele deveria se comportar como tal. E não como um político, como está fazendo. Não foi o Exército que mandou ele para o governo. Foi um convite pessoal do presidente.

Como o senhor classifica o governo Bolsonaro?
É o governo que destruiu a direita e o conservadorismo. O PT destruiu a esquerda. Agora, é a vez de Bolsonaro fazer o mesmo com o outro polo do espectro político. Essa turma que está no Poder não tem nada de direita. O que temos é um show de ignorância. Conservadorismo de quê? Só se for de privilégios. Estão destruindo tudo em nome de interesses particulares.

O senhor já definiu sua candidatura ao Senado?
Ainda não decidi. Meu objetivo é que nosso próximo presidente não seja Lula, nem Bolsonaro. Hoje, meu interesse político é de que nenhum dos dois vença. Lula já teve a oportunidade dele. Não é o caso de voltar. E acho que Bolsonaro, em três anos, conseguiu mostrar que não está preparado para o cargo. É isso o que me motivou a entrar para a política. Algumas outras coisas influenciaram também. Como quando vi o fanatismo tomando conta da sociedade. O fanatismo sempre termina em violência. Passei cinco anos vivendo em ambientes assim, na África e na América Central. Vi muita gente morrer por briga causada por isso.
ISTO É/montedo.com

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