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Integrantes influentes das Forças Armadas enfrentam o presidente, no maior movimento de fardados contra as pretensões autoritárias de Bolsonaro desde o início da gestão.
O chefe da Anvisa, o comandante do Exército, o presidente da Petrobras e até o ex-ministro da Defesa adotaram posições que contrariam o mandatário. Por trás disso está o desejo de preservar as instituições

Ricardo Chapola
As ações irresponsáveis de Bolsonaro estão custando caro a ele e já colocam em xeque até mesmo o pouco apoio que tinha dentro das Forças Armadas. O recado chegou ao mandatário da pior forma possível: por militares de alta patente que compõem o governo. Quem puxou o movimento foi o diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o contra-almirante e médico Antonio Barra Torres, ao enviar uma dura carta em resposta às insinuações feitas por Bolsonaro de que o órgão tinha interesses escusos na vacinação de crianças contra a Covid. Evocando sua carreira de militar, disse que o presidente deveria determinar uma investigação, sob risco de cometer prevaricação. “Se o senhor não possui tais informações (indícios de corrupção), exerça a grandeza que o seu cargo demanda e se retrate”, dizia a carta.
Irritado, Bolsonaro se queixou, mas evitou criticar o chefe da Anvisa, dizendo apenas que não havia falado a palavra “corrupção”. No seu entorno, especula-se que ele tinha receio de atrair ainda mais militares contra si caso peitasse o contra-almirante. Barra Torres não baixou o tom e ainda retrucou. “Não é razoável, não é justo dizer que a Anvisa está com algum tipo de intenção. A agência não tem intenção, não tem opinião. A Anvisa decide e oferece o resultado da decisão ao ministério, que escolhe”, disse. Aproveitou para reclamar dos ataques aos seus subordinados em razão das ameaças feitas pelo mandatário de que divulgaria publicamente os nomes daqueles que trabalharam para autorizar a imunização de crianças.
O movimento é simbólico, já que ocorre após militares importantes terem se embrenhado totalmente no bolsonarismo e tido que lidar, calados, com frustrações patrocinadas pelo capitão. Em março do ano passado, Bolsonaro provocou a maior crise militar desde a redemocratização ao realizar a troca arbitrária na cúpula das Forças Armadas. Apesar da discrição dos militares que saíram, ficou patente que eles se recusavam a politizar os quartéis.

Foto: Marcelo Carmargo/Abr/Arquivo

A bronca do contra-almirante a Bolsonaro acontece ao mesmo tempo em que o comando do Exército – justamente o mesmo escolhido pelo capitão em 2021 – também fez questão de marcar posição contra o mandatário. Sob a batuta do comandante Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, o Exército divulgou novas orientações com 52 diretrizes para combater a pandemia na caserna, incluindo o uso de máscaras, a vacinação de militares antes do retorno ao trabalho presencial, o distanciamento social e a punição para aqueles que divulgarem notícias falsas – exatamente o contrário de tudo aquilo que Bolsonaro defendeu até aqui. As medidas do comandante irritaram bastante o mandatário, que até tentou intervir para que a cúpula do Exército publicasse uma nova versão do documento, com recomendações mais alinhadas ao governo. Uma das mudanças que o Planalto exigia no novo documento era retirar do texto a exigência de vacinação de militares como condição para que retornassem ao trabalho. As ações do capitão, porém, não tiveram sucesso, uma novidade na rotina de Bolsonaro que, antes, não enfrentava tanta resistência das Forças Armadas diante de suas ordens.
Outro militar influente do governo que passou a manifestar publicamente divergências a Bolsonaro é o presidente da Petrobras, o general Joaquim Silva e Luna. Ele está há 9 meses no cargo e chegou até lá por indicação do mandatário, que desejava controlar diretamente a maior estatal brasileira. O objetivo era manipular o preço dos combustíveis. O presidente da Petrobras refutou a tese de que isso seja uma questão que possa ser gerida pelo governo. E disse que o papel da estatal “não é fazer política”, em uma crítica pouco sutil ao seu chefe, acostumado a instrumentalizar os órgãos federais com o objetivo de conseguir aquilo que deseja. “O que regula o preço é o mercado. Ainda há pessoas que consideram, por desinformação ou outro motivo, que a Petrobras deva ser responsável pela redução do preço. Ela não tem condições de fazer isso”, afirmou o general. “A Petrobras tem responsabilidade social e procura cumpri-la. Mas ela não pode fazer política pública. Ela coloca recursos nas mãos de quem pode fazer”.
Outra frente de ataque veio exatamente do ex-ministro da Defesa demitido em 2021. Substituído por Bolsonaro junto com os três comandantes das Forças Armadas em março passado, o general Fernando Azevedo e Silva resolveu garantir a lisura das eleições defendendo as urnas eletrônicas, que foram o principal alvo de Bolsonaro no Sete de Setembro. A partir deste ano, em que ocorrem eleições presidenciais, o general passa a desempenhar a função de diretor-geral do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), órgão bastante atacado pelo capitão no ano passado, quando levantou suspeitas sobre o sistema de votação. O general já indicou que sua chegada ao TSE tem a ver com uma tentativa de neutralizar as contestações do resultado das urnas no ano em que o capitão disputa a reeleição. Em outras palavras, desconsiderando o linguajar técnico próprio da caserna, vai impedir que Bolsonaro tente melar as eleições contestando os resultados, como Donald Trump fez nos EUA.
Todas essas iniciativas simbolizam o maior movimento de distanciamento dos militares de Bolsonaro desde o início do mandato. É como se tivessem traçado uma linha em defesa da democracia e das instituições justamente quando o processo eleitoral começa a esquentar. “A diferença desses militares que se manifestaram para os outros que também pertencem ao governo, mas estão calados, é a coerência. A lealdade ao presidente dos que estão em silêncio supera e muito a coerência que deveriam ter à frente de seus cargos”, afirmou um importante general da reserva que já foi muito próximo ao mandatário. Com mais esse desembarque de aliados fardados, Bolsonaro se mostra cada dia mais isolado e incapaz de reverter o cenário que aponta para sua derrota na disputa que se avizinha neste ano.
ISTO É/montedo.com

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