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Otávio Santana do Rego Barros*
Conversava com um amigo sobre antigas lembranças que nos fizeram rir muito, de tudo e de todos. Em algum momento do diálogo, a política se assumiu como o tema predominante.
Decompusemos do passado recente a possível origem da fricção comportamental entre as pessoas e aprumamos o papo rumo para o futuro que se descortina.
Ele, embora insatisfeito, demonstrou a firmeza do seu pensar ao declarar que a “esquerda” – persiste uma dúvida conceitual sobre essas denominações – jamais seria uma opção ao seu voto. A “direita” lhe era, ainda, a melhor escolha.
Na minha vez de expor ideias concordei com os erros atribuídos à esquerda e refutei a sua decisão de defender essa direita. Usei seus próprios argumentos, iluminando as incongruências desse grupo no poder, em especial a quebra de palavras junto ao eleitor de 2018.
Enveredamos na análise de outras opções do cardápio de pretendentes, quando ele me afirmou não observar força no conjunto político de centro.
De minha parte, afiancei que acreditava ser a mais saudável proposta, posto que romperia esse maniqueísmo nefasto que nos tomou nessa Ágora contemporânea, onde somos apenas escravos e, portanto, não decidimos.
Nos despedimos ansiosos por voltarmos a trocar percepções. Foram momentos de discussões densas e maduramente amenas.
Não deveria sempre ser assim? Infelizmente estamos longe de nos portarmos de forma educada e socialmente equilibrada quando assunto é política.
Uma notícia no jornal Estado de São Paulo (15.11.2021), replicada no site O Antagonista, trouxe uma declaração atribuída a um general da reserva na qual esse vociferava contra um companheiro de farda, igualmente general, igualmente na reserva.
A crítica se baseava na decisão do ultimo por participar em um evento político para a filiação de mais um postulante à presidência da República.
Em sendo verdade, a forma e o conteúdo das críticas careceram de oportunidade, de densidade política e até acadêmica. Segundo a notícia, o general insatisfeito apodou seu “adversário” de comunista e general melancia.
A falta de criatividade me chamou atenção, pois a mídia digital de ultradireita utiliza o termo como lacração a quem não se curva ao seu radicalismo.
Parece ladainha. No passado tivemos um militar Presidente da República considerado comunista. Um comandante do Exército em período mais recente considerado comunista. Um general da reserva nomeado pelo próprio governo de direita para a comissão de direitos humanos considerado comunista.
É muito comunista nas Forças Armadas!
Os detratores de poucas luzes não conseguem sentar-se em uma mesa de discussão ativa se os integrantes não rezem do seu credo.
A dose diária de virilidade juvenil, administrada dentro da redoma antolhada, sua zona de conforto, o defende de argumentar sem perder o equilíbrio.
Ano que vem, completaremos cem anos do movimento tenentista que impactou sobremaneira os destinos do país no século XX. Mesmo os mais críticos aos líderes e às ideias do movimento reconhecem a construção intelectual sobre a qual se erigiu o ideário político de seus integrantes e sues reflexos até nossos dias.
Mas os tenentes nunca defenderam cegamente nenhum dos líderes políticos profissionais. Eram contra a chamada velha política (isso mesmo…).
Embora haja quem divirja, os militares tentaram, em vários momentos, controlar a politização intramuros dos quartéis impactada pelos eventos da revolução comunista de 1917, pela ascensão do nazifascismo na década de 1930, pela segunda guerra mundial e pela Guerra Fria.
É improvável que os ânimos se acalmem até que a próxima ronda eleitoral se concretize com a vitória do candidato que obtenha a preferência sadia do votante.
Todavia, a sociedade não pode admitir aos homens de farda a cegueira da emoção que os impeça de pensar em mais proteger o Brasil. Tampouco aceitar que salvadores de ocasião assumam protagonismo sobre as rédeas das Instituições.
Defendia Hanna Arendt que se não podemos refazer a história, podemos tomá-la como exemplo para construirmos o futuro.
Aqueles militares que não se aprofundam na história dos contenciosos nos quais as Forças Armadas se envolveram no século passado desconhecem temerariamente a possibilidade de que a instituição possa vir a ser responsabilizada, mais uma vez, por erros de políticos inescrupulosos.
Dividir para vencer é a velha e conhecida tática inimiga.
Paz e bem!
*General de Divisão da Reserva
METRÓPOLES/montedo.com

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