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Ricardo Montedo
De Norti era um bom guri, como tantos, saído da roça no interior de Encantado, direto para o serviço militar.
Inteligente e dedicado, fez curso de cabo, engajou e, em menos de dois anos, já era terceiro-sargento temporário, apto a tirar seu primeiro serviço de comandante da guarda do 144º RC.
Por essa época, apareceu pelo quartel um gato cinzento, magro e esfomeado que, atraído pelas sobras do rancho, sempre abundantes, acabou por fazer do velho regimento o seu lar.
O bichano tinha problemas de visão, certamente fruto de alguma infecção mal-curada ou coisa que o valha, a tal ponto que, um belo dia, trombou contra uma das grandes vidraças da porta principal de acesso ao saguão principal do pavilhão de comando. Bateu com tanta força que desfaleceu por alguns minutos.
Semanas depois, durante um temporal de verão, o gato, que dormia próximo ao corpo da guarda, levou um susto tremendo com um trovão mais forte e saiu em disparada em direção à mesma porta, só que desta vez, em função da velocidade, quebrou a grande vidraça.
Comandante da guarda neófito, e não querendo fazer feio frente aos superiores, o bom De Norti descreveu assim o episódio no livro de partes do serviço:
Participo-vos que, por volta das vinte e uma horas de ontem, no momento em que as forças da natureza abateram-se com violência sobre nosso regimento, um felino de cor acinzentada, trafegando em alta velocidade, colidiu contra um dos vidros da porta do saguão principal do pavilhão de comando, vindo a quebrá-lo.
E, lembrando do fato semelhante ocorrido anteriormente, concluiu:
Outrossim, participo-vos que o referido gato é reincidente em faltas dessa natureza!!!

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