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O ex-ministro da Saúde, que exerce um cargo civil no Palácio do Planalto, contraria as orientações da própria pasta que comandou e circula sem máscara

Daniel Gullino e Cristiano Mariz
BRASÍLIA — O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello tem à sua disposição um motorista e um carro oficial do Exército para se deslocar em Brasília, do Hotel de Trânsito de Oficiais (HTO), onde mora, até o Palácio do Planalto, onde trabalha como assessor vinculado à Presidência da República. Pazuello é general da ativa do Exército, mas ocupa um cargo civil há quatro meses.
O ex-ministro foi flagrado pela pelo GLOBO na quarta-feira, por volta das 8h30, entrando no automóvel da caserna. Pazuello estava sem máscara, contrariando orientações da própria pasta que comandou. No dia seguinte, O GLOBO esteve novamente no local para tentar falar com o ex-ministro. Às 8h, o mesmo veículo oficial já esperava o militar em frente ao hotel. Ao ver a reportagem, porém, o carro deixou o local imediatamente e ficou estacionado próximo a uma saída lateral, usada principalmente por funcionários, por onde o general deixou discretamente o local, desta vez com máscara, às 8h40.
Procurado na quarta-feira de manhã, o Exército enviou uma resposta no final da tarde de quinta-feira e confirmou que “o militar (Pazuello) permanece com a referida viatura à sua disposição”. O benefício, segundo a caserna, seria concedido ao ex-ministro da Saúde “em razão de ainda não terem sido concluídas as medidas administrativas referentes à sua movimentação para a Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República”. Pazuello, contudo, já está há mais de quatro meses na SAE — que, procurada, não comentou.
As normas de utilização de veículos oficiais do Exército foram estabelecidas em uma portaria de 2017. O texto determina que os veículos “destinam-se ao uso exclusivo em serviço”, definido como “aquele destinado a viabilizar atividades públicas ligadas ao exercício do cargo militar, inclusive aquelas ligadas à representação oficial, inerentes ao cargo militar, sendo vedado o uso de veículos oficiais para fins particulares”.
Além de ter um motorista à disposição, Pazuello tem uma remuneração de R$ 39,2 mil, que corresponde a cerca de 35 salários mínimos (atualmente em R$ 1.100). A maior parte desses recursos, no valor de R$ 31.083, vem da sua patente de general de divisão. A outra parte, de R$ 10.166,94, é oriunda da sua função civil exercida no Planalto, com a bênção do presidente Jair Bolsonaro. O salário, contudo, passa pelo chamado “abate-teto” para não ultrapassar o máximo permitido.
Desde o início do junho até a semana passada, o general era secretário de Estudos Estratégicos da SAE. O posto, porém, foi extinto em uma restruturação interna, e o ex-ministro foi nomeado como assessor vinculado à Presidência da República. Nos bastidores, Pazuello tem assessorado o governo a levantar dados e enfrentar a CPI da Covid na qual ele próprio é investigado.

Sem proteção
Essa não foi a primeira vez em que Pazuello foi flagrado sem máscara. Em abril, o ex-ministro da Saúde foi filmado sem o equipamento de proteção em um shopping em Manaus. Depois, justificou-se dizendo que pretendia comprar o item em uma loja. Em maio, o ex-ministro da Saúde discursou sem máscara ao lado do presidente Jair Bolsonaro em um palanque no Rio de Janeiro.
Como Pazuello é general do Exército, e militares da ativa não podem participar de atos políticos, o episódio rendeu um processo disciplinar, que foi arquivado.
O Globo/montedo.com

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